O Fino do Samba Torto

Divulgação
RJ e AL se unem em projeto que tem o samba como partida, mas não seu limite
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Tati Magalhães · Maceió, AL
17/9/2006 · 234 · 18
 

Não, eu nunca vi um show deles, mas porque eles nunca tocaram por aqui. E a resposta também é não, se a questão for saber se o disco deles está na minha prateleira. A razão é que eles nem lançaram a bolachinha ainda. Mas os sons em mp3 estão no meu computador. Na verdade tenho dúvidas, agora, de como essa história começou para mim: se com um daqueles 550 e-mails diários advindos de contatos do orkut me convidando para entrar em uma das milhares de comunidades criadas ou apoiadas pelos autores dos e-mails, os quais têm, freqüentemente, caráter de auto-proclamação; ou com mensagens na minha página de recados do mesmo orkut, deixados pelas pessoas ligadas direta ou indiretamente à banda. A verdade é que não era mais um recado descartável. Aquele tipo de coisa que, pela pessoa que envia, você já saca se vale a pena conferir. E no mais, para conhecer o som da banda bastava visitar essa página aqui. O fato é que não pensei duas vezes em clicar no link. E se já era fã do Wado e Realismo Fantástico e do Siri, tinha mais uma banda que conta com alagoanos para tocar na festa: O Fino Coletivo.

Fino Coletivo. O nome pode não dizer tudo, mas já diz alguma coisa. É mais do que 'qualquer' grupo musical. É, antes disso, um coletivo, o que se revela na própria dinâmica de criação e apresentação: começaram já com cinco compositores e quatro cantores, os quais se revezam nos vocais de músicas que têm no fino do samba seu ponto de partida, mas, nem de perto, seu limite. É um quase isso e mais que tudo que posso falar: pop com ambientação eletrônica, um disfarce de um samba torto. O resultado é música brasileira dançante, da melhor qualidade. Por enquanto, falta somente definir a gravadora. Questão de negócios, afinal, as propostas existem. Enquanto o material final não é comercializado, os músicos apostam mesmo é no aperfeiçoamento. Eu mesma já tenho uma três versões “melhoradas” de algumas músicas. E para incrementar ainda mais o negócio, o septeto virou octeto: as apresentações já contam com o VJ e DJ Lucas Margutti. Pois é. Nos shows, ta rolando telão, além da tal sintonia e embalo ao vivo que, infelizmente, ainda não conferi, mas segundo fontes seguras, é motivo suficiente para apostar na banda.

O projeto musical surgiu na cidade maravilhosa, possibilitado pelo deslocamento geográfico de três alagoanos (de nascença ou adoção): Oswaldo Schlickman, o Wado (hoje em São Paulo, depois de um retorno breve a Maceió), Alvinho Cabral (violão/voz), Adriano Siri (voz e teclado). Instalados no Rio, eles se juntaram a quatro cariocas: Marcelo Frota (voz e guitarra), Alvinho Lancellotti (percussão/voz), Daniel Medeiros (baixo/programações), e Marcos Coruja (bateria). A saída de Wado e Alvinho de Maceió teve como principal razão os contatos e os shows cada vez mais freqüentes da banda Wado e Realismo Fantástico (na qual Alvinho toca violão e guitarra) no eixo. Já Siri resolveu deixar o Paraíso das Águas na expectativa de outras possibilidades no campo musical. Em Maceió, tocava seu projeto solo, Cabeça Cheia, e participava do Santo Samba (cujo CD, apesar do excelente resultado, não foi lançado).

“Olha só quem vem aí...”

Segundo Alvinho Cabral, tudo começou, como não poderia deixar de ser, de uma maneira informal, em ritmo de admiração mútua entre cariocas e alagoanos. “Foi quando eu, Wado e Siri viemos morar no Rio de Janeiro, num churrasco lá em casa, onde estavam também os amigos compositores Marcelo Frota, Alvinho Lancellotti, Daniel e Coruja tomando cerveja e tocando violão”, conta. Então foram justamente desses momentos despretensiosos, entre cervejas e carnes e, claro, afinidades musicais, que veio a idéia da banda. Simples, comum, sem graça? e quem disse que a nossa proposta é contar a mirabolante história do início de uma banda cujos integrantes se conheceram quando estavam de mochila na estrada pegando carona até chegar em Machu Picchu? E, aliás, o que pode ser mais interessante do que compartilhar entre amigos uma proposta musical, ainda mais quando eles realmente crêem no talento de cada um? será que compartilhar momentos informais não é o indício de uma sintonia que pode se refletir no trabalho comum? Se, para mim, a resposta não estivesse na música, não estaria escrevendo aqui...

Bom, mas tinha ainda uma questão a influenciar na formação do Fino: como também possuem projetos paralelos, a existência do coletivo serviria ainda, conta Wado, para “viabilizar uns shows no Rio e somar esforços, forças e públicos. Um projeto para dar vazão às composições individuais e coletivas do grupo. Uma forma de celebrar as parcerias e afinidades destes amigos compositores”. E, em pouco tempo, o Fino já estava na rua, fazendo seu nome através de propaganda boca-a-boca, internet, telefone... Logo de cara (como quase tudo hoje em dia), ganharam comunidade no orkut. Há algum tempo, disponibilizaram músicas no site da Trama ( aqui no Overmundo você pode conferir a "música de trabalho" Dragão). Mas a principal estratégia para divulgar o trabalho é mesmo mostrá-lo ao vivo, a cores e em sabores ao público (pois acreditamos em sinestesia).

E desde o começo, a receptividade foi tão grande que, mesmo com pouco tempo de vida ativa, eles já tinham convites para tocar em vários lugares e até propostas para gravar CD. “Já finalizamos a gravação das músicas, no estúdio Arena, no Rio. As expectativas são as melhores. Devemos lançar nosso trabalho ainda esse semestre, mas vai depender da gravadora”, revela Alvinho Cabral. Uma das propostas de tocar fora do eixo – que acabou não rolando – foi de mostrar o trabalho no famoso palco alternativo do carnaval recifense, o Rec Beat. Em fevereiro deste ano, tocaram todas as segundas no Grazie a Dio, em São Paulo; e em fevereiro e março, agitaram algumas noites no Madame Vital, no Rio. Mas as propostas continuam surgindo, e em breve devem aportar pelo Nordeste. Nos planos, Recife e Maceió.

E uma raiz é uma flor/ que despreza a fama...

Quanto à reação do público a um grupo novo, com composições próprias, os integrantes acreditam que têm sido a melhor possível. “Fizemos algumas apresentações no Madame Vidal, Baratos da Ribeiro e Circo Voador, a recepção tem sido melhor do que esperávamos”, conta Siri. “O projeto é bem groovento, então o povo dança bastante”, completa Wado. Para Alvinho Cabral, somente as apresentações que o grupo vem fazendo já têm garantido a conquista de admiradores. E, de fato, o som do Fino é daqueles que agradam de cara pelas letras simples e poéticas, pelos sotaques e pelo balanço. Mesmo somente ouvindo o CD, é impossível não mexer os pés, os ombros, a cabeça, ter vontade de levantar e acompanhar fácil, fácil. Gratuito e verdadeiro, simples e eficaz, tal qual como o sorriso da musa de Siri em Sou seu fã, uma declaração rasgada, difícil de não cantar (e gritar) junto. Resultado das influências e da sintonia dos componentes, que, sem purismo, transformam o som em uma festa cheia de sabor e ginga, partindo do samba e do groove e dando umas salpicadas de funk. Wado pensa ainda em “coisas de disco music e pós-punk misturados com samba”. Outro fator que ajuda nesse processo evolutivo é o fato do baixista Daniel Medeiros ser dono de um estúdio, onde o grupo ensaia com muita freqüência, priorizando sempre canções inéditas. Daniel atua ainda como engenheiro de som do disco que está por vir.

A empolgação dos músicos com o resultado é nítida. “Eu tô meio deslumbrado com essa banda, somos compositores que têm uma ligação mental muito forte e conseguimos interagir de forma espontânea nas músicas”, entusiasma-se Siri, que quer se dedicar integralmente ao projeto e até colocou de stand by o Cabeça Cheia, o trabalho solo ao qual nos referimos mais acima. A admiração dos integrantes pelos trabalhos paralelos de cada músico também é escancarada. Wado já afirmou considerar Siri “o melhor compositor alagoano da atualidade” (Siri é autor de Fafá, gravado junto com Tarja Preta por Wado em seu segundo CD, Cinema auditivo, e que foi pra trilha sonora do filme Contra todos e ganhou versão de Maria Alcina) e admira muito o trabalho solo de Marcelo Frota (cujo disco, Bom que vocês vieram, é belíssimo e pode ser baixado na Trama). Alvinho Cabral destaca a família Lancellotti como referência (seu xará é irmão de Domenico e filho de Ivor Lancellotti, parceiros na composição de algumas músicas da banda).

E é justamente me utilizando de um trecho da bela canção de Alvinho e Domenico Lancellotti (Boa Hora) que encerro essa matéria: “Quem te disse que era a hora de partir?/ hora boa é sempre hora de voltar”. Pois é, ao invés de você ir embora dessa página desconfiado de que este é apenas mais um texto sobre música do Overmundo, escute o som. E se gostar, volte a ouvir, vá ao show, espalhe a notícia. Afinal, eles estão chegando. É (boa) hora de recepcionar.

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Thiago Camelo
 

Gostei mesmo muito da música, Tati.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 14/9/2006 17:41
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Guilherme M.
 

Se eles querem misturar samba (batucada), com funk, pos-punk, e Disco, devem ter ouvido o Liquid Liquid, banda do underground de Nova York no começo dos anos 80.

Guilherme M. · São Paulo, SP 17/9/2006 13:09
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Demetrio Panarotto
 

Fala Tati, legal a matéria!!! Conheci o Fino Coletivo através do Wado no Rio de Janeiro em maio (encontro do overmundo). Ele me passou um CDr com algumas canções, curti bastante a proposta e legal vê-la circulando aqui no site,

valeu

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 17/9/2006 14:14
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Tati Magalhães
 

Bom que você gostou, Thiago!
Demétrio, acho que vc tinha comentado comigo sobre o Fino, e já que você tem o CD-R, pôde conferir melhor a proposta, que não tem pretenção nenhuma de ser original, mas sim de ser de qualidade.
eu, particularmente adoro a música Hortelã, mas pedi que a banda escolhesse a que queria disponibilizar. Algumas das músicas que devem estar no cd já figuram em alguns cds do Wado, como Poema de Maria Rosa (de Cinema Auditivo) e Uma raiz, uma flor (de O Manifesto da Arte Periférica). Mas são releituras bem interessantes, gosto bastante. Quero Fino Coletivo em Maceió logo!

Tati Magalhães · Maceió, AL 17/9/2006 17:46
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Arthur Kummer
 

Som doido demais. Valeu a dica, Tati!

Arthur Kummer · Belo Horizonte, MG 17/9/2006 21:03
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Daniel Cariello
 

Já gostava do trabalho solo do Wado. O Fino Coletivo é mais uma prova do talento dele e, claro, de todos os outros envolvidos no projeto. Seria bacana um show em Brasília.

Daniel Cariello · Brasília, DF 18/9/2006 12:10
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Carla Castellotti
 

Matou a pau. tinha visto uma matéria no jornal de sábado sobre o fino e queria o cd. agora eu acho que vou ficar louca.

massa mesmo.

Carla Castellotti · Maceió, AL 18/9/2006 13:58
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Ju Polimeno
 

bom no bem bom da coisa: música

Ju Polimeno · São Paulo, SP 18/9/2006 16:43
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Tati Magalhães
 

eu só vi isso agora, por isso não postei junto com a matéria...os interessados também podem assistir ao primeiro clip da banda, com a música Tarja Preta/Fafá.

Tati Magalhães · Maceió, AL 21/9/2006 11:12
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Marcelo Rangel
 

Genial esse som, Tati!! Coisa fina mesmo!!!!
Quando eles forem a Maceió bem que poderiam passar por Aracaju também...Seu texto, como sempre, super instigante, gostoso de ler.

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 21/9/2006 14:00
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marie
 

putz ainda bem q a vida n é feita ,apenas ,d acasos desagradáveis...pois bem estava navegando pela internet...e parei aqui...adorei o som...me cadastrei so p deixar esse recado.Gostaria d ter acesso a outra músicas.Como faço??

Vlw...bjim!!!

marie · Porto Velho, RO 29/11/2006 15:41
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Tati Magalhães
 

Oi, Marie, legal que você gostou (e legal também que tenha se cadastrado no site, que também tem muita coisa boa). Se você perceber, logo no primeiro parágrafo tem um link que leva à página do grupo na Trama Virtual, onde há mais músicas disponíveis pra baixar. Eles ainda não lançaram cd, por isso o negócio é ir baixando por aí mesmo. Abraços!

Tati Magalhães · Maceió, AL 29/11/2006 23:21
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Thaís Cardoso
 

Ah... o Fino. Também em meus arquivos de mp3: "Quem te disse que era hora de partir?" ... "Parte que fez minha alegria". É bom, cara! É bom demais! A mistura, já feita com excelência pelo Wado, ganhou uma ginga carioca que deixa os que ouvem Fino putos por não terem conhecido antes. ;)

Fino Coletivo... isso me lembra uma roda!

Thaís Cardoso · Maceió, AL 12/12/2006 16:55
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Richester Love
 

Fino Coletivo é demais...sempre que posso pego MP3 de quem aparecer, pois descubro sempre algo interessante, e foi assim que eu descobri o Fino Coletivo.
Uma amiga minha chegou e falou: ai Richard, tenho uns MP3 de musicas Alagoas, quer?? na hora nem pensei, manda que eu copio, não sabia que nesse meio tinha uma raridade... o Fino Coletivo... e na hora eu pedi perdão a Deus por não me envolver mais na Musica Alagoana, pois tem muita coisa boa...
Barba de Gato, Fino Coletivo, Santo Samba, Sonic, Mr. Freeze... perdi muita coisa, mas ainda posso recuperar!!!

Richester Love · Maceió, AL 16/1/2007 14:05
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Luizinho
 

pow som louco e bom ,e samba funk pop etc... e uma mistura disso ai que forma o Fino coletivo gostei muito da banda e das mucias flw!.

Luizinho · Major Isidoro, AL 7/2/2007 02:06
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Cicero de Bethân
 

Sensacional! Depois de ler estes comentários fiquei curioso e afinal de contas bateu em minhas mãos o material dos caras. Ouvi, sentei e chorei, os caras mandam bem demais...não sai do meu tocador. Meus sinceros parabéns, pelo texto e aos músicos.
Abraço!
(ouvindo "Boa Hora", Fino Coletivo)

Cicero de Bethân · Vitória, ES 16/7/2007 08:19
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joao xavi
 

aprovo tudo que o wado mete a mão, coisa fina mesmo!

joao xavi · São João de Meriti, RJ 29/11/2007 01:26
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Mansur
 

Que maravilha essa música, letra e produção. O fino!

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 30/11/2007 16:24
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