"O fotógrafo tem que ter este olhar especial"

Lízia Sena
Entrevista com Evandro Teixeira
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Lízia Sena · Salvador, BA
9/10/2006 · 254 · 14
 

Simplicidade, sensibilidade e dedicação. Estas são as características que tornaram Evandro Teixeira um dos maiores ícones da fotografia brasileira. Fotógrafo há mais de 45 anos, Evandro já expôs em diversos museus e capitais. Começou sua carreira no Diário da Noite em 1958, mas o ápice se deu a partir de 63, quando foi trabalhar no Jornal do Brasil. Tem três livros publicados: Fotojornalismo, (1983), Canudos 100 Anos (1997) e O livro das águas (2002). Nesta entrevista Evandro comenta sobre as conseqüências das novas tecnologias, a fotografia brasileira, a censura durante o golpe militar, seus novos projetos e deixa alguns comentários sobre sua última exposição intitulada “Instantâneos da realidade” realizada na Aliança Francesa, Salvador.

Lízia Sena: Qual o propósito desta exposição?O que você pretende que a população enxergue durante este evento?
Evandro Teixeira: A nossa função do ponto jornalístico é mostrar a realidade, o cotidiano no país. Eu acho que nesta minha exposição tem um pouco de tudo. Tem guerra, tem golpes militares. Tem no Chile, tem no Brasil. Tem Olimpíadas. Eu vivo mostrando a realidade do país, a realidade daquilo que a gente vive no mundo. A fotografia tem a função de denunciar. Então eu acho que trabalho aí tem. Você que vai fazer a leitura daquilo que você está enxergando, daquilo que você está vendo.

LS: Qual a foto que mais te marcou? Quais são os temas que você prefere relatar através de suas fotos?
ET: Eu não tenho assim uma foto, tem situações diferenciadas. Eu acho um momento difícil da minha carreira foi cumprir alguns eventos importantes. Como falei o golpe militar no Chile, o massacre da Guiana Inglesa; foi aquele pastor fanático, o Jean Jones, que envenenou em 1957, americano. Várias olimpíadas. Várias copas do mundo. O próprio golpe militar no Brasil. Eu acho que o momento mais dramático, o momento mais importante da minha cobertura foi à morte do poeta Pablo Neruda, no Chile. Uma pessoa importante. Um homem mundialmente reconhecido com prêmio Nobel. Mas também eu acho que o que representa uma das historias mais importantes do Brasil foi à guerra de Canudos. Eu fiquei lá quatro anos para fazer um livro e eu convivi com aquela gente vivendo da guerra e aquilo me emocionou muito, até hoje. Fiquei na década de 90, lancei o livro em 97. Mas eu acho que aquela história de Canudos, aquele povo me deixou realmente sensibilizado. Todo ano eu volto lá. Eu não deixo de voltar em toda festividade que é em outubro. Agora mesmo em outubro, eu volto lá novamente, se Deus quiser.

LS: Você já reencontrou alguns?
ET: Todos eles. Eu estou sempre reencontrando. Antonio, Isabel, Dona Cotinha, que já morreu. Gente que morreu com 115 anos, gente que morreu com 112 anos. Essa gente eu conhecia todos, me dava bem com todos. Era uma alegria reencontrá-los, sempre que ia a Canudos. Ligo para saber como estão. É claro que a maioria destes velhinhos já morreram. Mas ainda tem os netos, filhos, etc. É uma coisa que realmente me marcou muito, foi essa história, essa minha vivência em Canudos.

LS: Alguma fotografia sua já foi censurada durante o decreto do AI-5?
ET: No golpe militar, principalmente...

LS: A da libélula?
ET: A da libélula, da queda da moto, não sei se ta aqui, ta aqui?
LS: Não.
ET: Costa e Silva, da queda da moto. Eu ia representar o Brasil na bienal de Paris e ela foi censurada. Tanto eu como, eram 6 representantes na bienal jovem de Paris. O pintor chegou a ser preso, Antônio Manuel, que retratava a violência nas ruas através das paginas do jornal FLAM. Era feito com chumbo, papelão, ele pintava aquilo de vermelho, que representava sangue. Quando a gente abriu uma amostra no Museu de Arte Moderna para imprensa, no dia seguinte iria para Paris, os militares chegaram lá desmontando a amostra. Chamaram o diretor, dizendo: “Olha aqui embaixo, essa amostra tem que ser desmontada, a gente está com os meninos para ajudar”, os meninos eram os soldados. Então eu tive que ficar uma semana desaparecido. Manuel chegou a ser preso. Então nessa época a gente tinha este tipo de censura, como foi aquela da libélula, que você bem lembrou.

LS: O que você acha da atual fotografia brasileira?
ET: A fotografia brasileira é uma das mais importantes do mundo. Nós temos uma fotografia maravilhosa, importante, com uma qualidade excepcional. O que acontece no Brasil, como tudo, é essa falta de intercâmbio, essa decadência em que vivemos, a rede de ensino. Mas a fotografia do Brasil em si é excepcional. Eu exponho muito fora do Brasil. Já expus nas maiores capitais do mundo e em bienais. É de maior importância. O que nos falta, por exemplo, agora não temos papel pra fazer cópia, não temos, na verdade nós somos pobres, não temos incentivos pra comprar equipamento. Não temos nada neste sentido. A gente está sempre buscando, tentando conseguir coisas lá fora. Falta galeria pra mostrar o trabalho. Que tem qualidade, isso tem e muita. Uma das mais importantes, uma das mais belas do mundo.

LS: O que seria um fotógrafo exemplar?
ET: Como tudo, como médico, como advogado (risos). Eu não sei, acho que você tem que ter um bom olhar, acima de tudo estudar, acompanhar a evolução, os acontecimentos, mas, acima de tudo que você estude. O fotógrafo tem que ter este olhar especial. Nós temos olhares especiais.

LS: O que você acha do fotojornalismo brasileiro hoje?Sensacionalista?Falta sensibilidade?
ET: Não, eu acho que o jornalista brasileiro é muito inteligente. O que nos falta é infra-estrutura. Tanto nós, como quem escreve. O que falta é qualidade, incentivo, que falta também nas faculdades. Sensibilidade nós temos, inteligência nós temos, só o que falta é esse tipo de coisa que você sabe tanto como eu.

LS: O que acha das novas tecnologias? Quais são as vantagens e desvantagens?
ET: Maravilha. Acabei de falar isso pra televisão. Eu adorei. Livrou-nos de uma série de coisas. Era como carregar um jumento. Tinha que ir para banheiro de hotel para revelar filme, e ampliar. Hoje você transmite uma foto agora na Grécia, por exemplo. No meio do mar, uma coisa que eu levava 8h para transmitir uma foto, ir, vir, elaborar. Hoje, no meio do mar, 5 min. depois já estou mandando uma foto. A qualidade é excepcional. Claro que eu continuo com minha velha analógica, minha Laica, com meus filmes preto e branco. Dependendo do projeto, ou do trabalho que eu venha fazer. No jornalismo moderno, acho que a tecnologia deve ser respeitada. Ela veio pra ficar e nos ajudar.

LS: Quantas pessoas já foram identificadas na passeata dos 100 mil?
ET: Já tem 60 fotografados. A idéia são 68 pessoas, por isso que o projeto é chamado 68 destinos, pelo ano de 68. Já tem 60, faltam apenas 8. Agora estou fazendo uma triagem, pra não ficar todo mundo de uma escola de comunicação, direito, de uma universidade, agora estou mesclando. O projeto está quase pronto. Não sei se vai ficar pronto para este ano. Tem deputados, ministros, jornalistas, designers, cineastas. Tem gente que não se conhecia na época e hoje são casados, marido e mulher. A Elaine, minha designer, faz todos meus livros, o marido dela é Hernani, arquiteto. Na época não se conheciam, casaram. Encontraram-se através desta foto. Tem o jornalista Augusto Nunes, deputado conhecido do Rio. Tem várias pessoas que hoje estão nesta foto e eu estou retratando o que eles eram em 68, o que pensavam e o que pensam hoje.

LS: Algum projeto novo?
ET: Estou com um livro pronto na editora chamado feira de São Cristóvão, feira típica do Rio de Janeiro, feira do Nordeste, com produtos do nordeste, feira de comida, tem tudo. E o projeto dos 68 destinos.

LS: Deixe um conselho para futuros fotojornalistas.
ET: Insista, não desista nunca, acredite em você. Qualquer que seja a profissão. Principalmente a nossa que o campo está minado, o campo está difícil, a situação está complicada e o mercado cada vez mais escasso. Acima de tudo você tem que acreditar em você, saber que veio pra vencer. E não pode achar que está difícil, não vai dar certo. Nunca tive uma cobertura no mundo, qualquer parte do mundo que eu disse que: não vai dar. Pra mim sempre tinha que dar, sempre dava e sempre deu.

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Claudiocareca
 

Parabéns! ótima entrevista!

Claudiocareca · Cuiabá, MT 6/10/2006 17:32
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Lízia Sena
 

obrigada Claudio!

Lízia Sena · Salvador, BA 8/10/2006 00:22
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thiagorequiao
 

ÓTIMA ENTREVISTA...
parabens...

a proposito... tava com vinicius esperando o inicio da aula e sentado no banco do corredor. ae tava reparando nas matérias q Agnes colou no mural. a sua era a única q o povo parava pa ler uhauhahuauha varias pessoas pararam... a minha do lado da sua ninguem nem reparava auhhauhauhau

ficou muito bom. bjos

thiagorequiao · Salvador, BA 9/10/2006 19:11
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Lízia Sena
 

brigado Ti, mas a sua também ficou ótima! Eu li! A de Vinicius tbm...

Lízia Sena · Salvador, BA 9/10/2006 19:31
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Priscila Silva
 

Parabéns pela entrevista, vc tem futuro menina!

Priscila Silva · Cabo Frio, RJ 9/10/2006 19:32
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.F Marques
 

parabéns, o caminho é esse mesmo.

.F Marques · Lauro de Freitas, BA 9/10/2006 19:53
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Alena Cairo
 

Liu, parabéns!!! Quero ver você cada vez melhor!!

Alena Cairo · Salvador, BA 9/10/2006 20:38
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Daniel Duende
 

O cara é da velha guarda, mas pareceu ser um "old timer" digno. É uma boa entrevista, e o conselho de cultivar "aquele olhar especial" é precioso. Fotografia é, antes da técnica, antes da aparelhagem, antes das firulas e vaidades do meio, um exercício de olhar.

Boa matéria! Parabéns! :D

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 10/10/2006 18:15
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lu almeida
 

ah! pra quem curte o trabalho dele, vale ver o documentário "Evandro Teixeira: Instantâneos de Realidade" (DVD) Direção Paulo Fontenelle.
ali ele conta mais detalhes sobre o seu competente trabalho com fotojornalismo e fotodocumental.

lu almeida · Aracaju, SE 10/10/2006 19:25
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Celina Soares
 

Olá, Lizia!. Você fez uma ótima entrevista, por dois grandes motivos: porque pesquisou e porque teve a sensibilidade de fazer as perguntas exatas, o que tornou o seu texto uma delícia.
Talvez ele poderia ter uma pedrinha a mais se você tivesse incluído alguma informação sobre o documentário .
Parabéns.

Celina Soares · Curitiba, PR 10/10/2006 23:18
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Carlos ETC
 

Muito interessante, Lízia! Muito bem estruturada a entrevista e muito interessante tudo o que o Evandro nos falou!
Faça mais coisas deste tipo aqui. Vejo que esta é a única publicação sua, né?
Abraço!

Carlos ETC · Salvador, BA 26/2/2007 14:50
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Edna Queiroz
 

Parabéns pela excelente entrevista e também pela sábia escolha do entrevistado, sem sombra de dúvidas, sensacional!
Fico impressionada ao ver como ele aborda os vários momentos históricos, formando elos, indo além da foto, do dever, e, ainda assim, transmitir emoção, renúncia, denúncia e compromisso com aquele momento, entrando literalmente de corpo e alma em cada flash, em cada click.
Se uma foto nos permite fazer uma viagem imaginária ao passado, é gratificante ouvir de quem esteve lá. Seus depoimentos nos remete ao instante. Tal como o guia, conduz-nos nesta viagem.

Muito boa a análise do contexto que envolve a fotografia hoje, dos avanços e dificuldades do caminho..

Obrigada a ambos.

Edna Queiroz · Rio de Janeiro, RJ 12/3/2007 19:53
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Guigo F.G.
 

Liu, vc sumiu?

Guigo F.G. · Salvador, BA 9/4/2007 23:06
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noitesdecabiria
 

olá lízia, acabei de publicar uma entrevista com o Evandro Teixeira (instantâneo eternos) tá na fila de edição ainda. dá uma ohada lá. abraços

noitesdecabiria · Florianópolis, SC 19/11/2008 09:10
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