O mais profundo é a pele. A frase não é minha não. Quem a falou foi o poeta francês Paul Valéry, um cara que gostava de refletir sobre estética e linguagem. O filósofo Gilles Delleuze recorreu a Valéry para falar da grandeza de certas poéticas da superfície, que minaram alguns mitos sobre a “profundidade”. Essa palavra entre aspas é tão sedutora para nós que o Rogério Flausino, da banda Jota Quest, até canta: “nesse quarto tão profundo”. Quarto profundo? Sedutor adjetivo.
Estou falando isso para mostrar que costumamos nos enganar quando nos deparamos com produtos estéticos, textos, imagens, músicas, etc, que parecem não ter profundidade. Às vezes não têm mesmo, estão impregnados é de superfície, mas essa superfície pode, muito bem, estar escondendo estratégias que escapam ao olhar ou ao ouvido, ali, naquele instante.
Delleuze lembra que foram os filósofos gregos da corrente chamada “estóica”, posterior a Sócrates, quem primeiro realizaram uma grande reviravolta na valorização que Platão dava ao mundo das “Idéias” (assim, com inicial maiúscula), uma espécie de suposto paraíso da grandeza que estamos sempre perseguindo.
Os estóicos valorizaram muito o humor e o paradoxo, como ferramentas para mostrar que a superfície da linguagem – o puro jogo de palavras, por exemplo – está, sim, carregado de sentido. Para Delleuze, nos tempos modernos, um bom exemplo desse gosto pela superfície foi Lewis Carrol, o autor de “Alice no País das Maravilhas”.
Sem muita pretensão, eu diria que essa estética da superfície está, também, em gente como o cronista Manoel Lobato, colaborador do jornal belo-horizontino “O Tempo”, e já estava, por exemplo, em um Mário de Andrade, o modernista, que até disse que suas crônicas eram “levianas” (isso mesmo) e era essa característica o que mais o seduzia.
Portanto, é preciso cuidado ao virar a cara para certas coisas, cheias de superfície. Há muitas coisas bem mais bacanas do que um “quarto tão profundo”.
Olá Wir, tudo bem?
Achei bem legal sua reflexão sobre superficialidade e profundidade na arte. Uma dica só: colocar tags (palavras-chave) no seu texto. Ajuda - e muito - a comunidade a encontrar o seu texto em pesquisa futura. Abraços!
Olá Wir.
Ache uma foto bacana e coloque. Com certeza vai valorizar mais o texto com uma imagem transcrevendo a profundidade.
acho que vou pôr a foto de uma escultura do florian raiss, que vi na visitação virtual ao mam. tem tudo a ver.
só não sei se tem problema de direito autoral usá-la.
Ficou muito boa com a foto carom amigo, parabéns pelo texto.
Higor Assis · São Paulo, SP 15/2/2007 15:17
é, mais vou trocar a foto. não tive como comunicar com o fotógrafo. então, vou usar algo com licença CC.
grato. abraço.
Eu gostei da foto, a areia movediça escondendo uma camada dura, caroquenta. E também do início de reflexão, que acabou sem acabar. Fui levada pelo seu texto e queria mais, esperava mais... Gostei da sua esgrima...
Cida Almeida · Goiânia, GO 15/2/2007 17:13Pois é, Cida. Quanto ao "acabou sem acabar", o negócio é o seguinte: este texto é de uma coluna que escrevo para um jornal de monlevade, jornal assim, comum, nada de acadêmico ou propriamente "cultural". só tenho 30 linhas pra escrever. então, joguei a questão no ar, e até deixá-la assim, em aberto, não deixa de ser um drible no conceito de profundidade. falô? abrç.
Wir Caetano · João Monlevade, MG 15/2/2007 17:34beleza, beleza!!! será que veremos tod'aquela adoxografia aqui, Wir? grande abraço, george
George Cardoso · Belo Horizonte, MG 15/2/2007 18:44As vezes é preciso saber olhar a superfície para enxergar a profundiade. Águas claras e mensagens aparentemente simples, mas cristalinas e verdadeiras, permitem vislumbrar a profundiade e a riqueza que escondem ao primeiro olhar.
Gyothobat · Brasília, DF 17/2/2007 00:45
Concordo em parte com as colocações do texto. Penso que realmente devemos nos debruçar sem preconceito sobre os "produtos estéticos", para que possamos romper sua superficialidade e sondar suas profundezas. Porém creio que em algumas situações podemos acabar caindo na vácuo que há após superfície, e criando nós mesmos significados para o vazio. Com um pouco de erudição e um punhado de citações pode-se justificar qualquer coisa.
Pedro Vianna · Belém, PA 17/2/2007 19:41
oi, wir. sou um leitor remoto de sua poesia (década de 1980). um admirador. através do rique aleixo topei outra vez com o seu nome e palavras, revista Roda. deixo aqui o meu abraço!
ronald
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