O gozo poético do libertino das palavras

Diego Nunes
1
Mara Coradello · Vitória, ES
20/10/2011 · 22 · 2
 

Se soubéssemos apenas de sua poética e o quanto ele foi celebrado como uma das mais inventivas vozes da literatura brasileira, isso seria o suficiente. Mas para conhecermos Waldo isso seria raso: José Celso Martinez Corrêa, na orelha do livro Bundo, compara Waldo a Antonin Artaud, e Célia Pedrosa afirma que desde Adélia Prado não surgia na literatura brasileira uma poesia tão original e inconfundível. Waldo ainda transcende o rótulo de poeta para alçar outros: se diz criador de uma nova religião; pesquisador; performer; dramaturgo; diretor de suas próprias peças e palestrante portador de uma retórica que, afirmam seus ouvintes, é visceral e hipnótica. Sua “descobridora”, a pesquisadora Iumna Maria Simon, aponta em Waldo a “força da (sua) dicção poética, que é obscena, às vezes sacrílega, sempre herética, mas não libertina”. A contaminação ao entrevistar Waldo Motta desestabiliza o sentido de entrevista, por isso a metodologia usada foi múltipla: trechos de palestras, escritos de autores acadêmicos que pesquisam a obra de Waldo, conversas longas com o poeta e investigações sobre impressões pessoais e literárias de pares, amigos, e leitores.

O poeta Waldo Motta nasceu no dia 27 de outubro de 1959, no município de São Mateus, no Espírito Santo. Publicou, entre outras as obras, Eis o homem (1987); Bundo e outros poemas (1996); Recanto (poema das 7 letras) (2002) e a coletânea Transpaixão (2009), esta última adotada para o vestibular da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) nas edições de 2010 a 2012. Foi bolsista por três meses na Villa Waldberta, na Alemanha (novembro de 2001 a janeiro 2002), uma residência para artistas, situada à beira do Lago Starnberger, de frente para os Alpes, na Baviera, nos arredores de Munique. Foi indicado como candidato ao prêmio pelo Instituto Goethe, de São Paulo, e concorreu com candidatos de 40 países. Em seguida, foi convidado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, Estados Unidos, para participar, em abril de 2002, do programa literário Writer-in-residence, que consistiu em recitar e falar de poesia para alunos do Departamento de Português (e de Espanhol) da Universidade da Califórnia e de Stanford. Foi indicado pelo Ministério da Cultura do Brasil, que desenvolvia este projeto literário em parceria com a universidade californiana.

Conforme o crítico Roberto Schwarz, sua poesia “toma o ânus do poeta como centro do universo simbólico. A partir daí mobiliza bastante leitura bíblica, disposição herética, leitura dos modernistas, capacidade de formulação, talento retórico e fúria social. O ponto de vista e a bibliografia fogem ao usual, mas o tratamento da opressão social, racial e sexual não tem nada de exótico”. O que tem a dizer sobre essa interpretação de sua obra?

Estou certo de que o erotismo anal, em certas circunstâncias, seria o ponto alto de um culto mágico e libertário. Não sendo o ânus um órgão sexual, nem sendo elemento anatômico diferenciador dos gêneros sexuais, pois todos o têm, e pelas costas todos são iguais, para mim o erotismo anal não pode ser considerado como ato sexual, mas é indiscutivelmente um ato erótico, sendo, além disso, e antes de tudo, um ato religioso, visto que o religare pode ser entendido como ligar pela ré, por detrás, pelas costas. E não podendo ser considerado um ato sexual, e, sendo um ato religioso, seria mais adequado chamá-lo de erotismo sagrado. Adoremos, pois, a Deus em seus tabernáculos vivos, alegrando as nossas entranhas.

Considerando, ainda, que o sexo implica em diferenciação, separação, divisão; que pecar significa errar o caminho, o alvo, o rumo; e que religião/religare, também significa ligar pela ré, isto é, pelo traseiro, entendo que somente o erotismo anal, através do coito ou da masturbação, pode ser definido propriamente como casamento sagrado, um casamento em que se desposa toda a família divina ao mesmo tempo: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, amém. Em Êxodo, 33:23, o Senhor diz a Moisés: Pelas costas me contemplarás/olharás/adorarás. No verbo que utiliza, “RAYTha”, notei que está contida a palavra fezes ou excremento, RAY, cujas três letras ReYSh, ÁLePh, YÓD, ocorrem abundantemente no contexto, estando inclusive na própria expressão “costas” ou “traseiro” ou “minhas costas” ou “meu traseiro”, ACh’ORaY. Em respeito ao conselho do Senhor (“pelas costas me verás...”), o diagrama da manifestação divina, concebido e chamado árvore sefirótica pelos cabalistas, é desenhado sobre a figura de um homem de costas. Esse diagrama é um mapa do Universo, e nos ensina, entre outras coisas, que a exterioridade do vasto mundo só nos revela o dorso de Deus, sendo a face divina ou sagrada outro mundo, oculto na interioridade de todos os seres e coisas.

É a salvação do corpo e da alma o que mais importa ao poeta, como já disse a João Silvério Trevisan, e como Iumna Maria Simon também observou. Porém, em minha poesia, alma e corpo ou espírito e carne ou energia e matéria ou isto e aquilo não são antípodas nem adversários; são gradações, expressões e máscaras do mesmo ser e da mesma realidade. Explorando afinidades e semelhanças entre símbolos ou metáforas do sagrado no imaginário religioso, na mitologia e na cultura de povos diversos, meu pensamento é analógico, e, através de uma rigorosa matemática simbólica, quer provar que A=B=C=D, e assim sucessivamente. Engana-se quem acha que oscilo entre religião e sexualidade, chulo e sagrado, alto e baixo etc. No excelente ensaio “Revelação e desencanto”, publicado na revista Praga, Iumna constata que evito as polarizações, mas depois se contradiz ao ver discrepâncias exasperantes entre alto e baixo, chulo e sagrado, e assim, restrita a uma visão dialética, macaqueia o senso comum. Ora, não é difícil perceber em minha poesia que o nefando é a expressão do inefável, e que o nobre e agradável para Deus é o reles e execrável para a visão mundana etc. Aliás, o Dicionário escolar latino-português, organizado por Ernesto Faria [MEC, 1962], registra que, em se tratando de pessoas e coisas, o sagrado é o desprezível, maldito, abominável, infame etc. E assim, o fraco e o humilde, o ordinário e o vil é que têm precedência espiritual e a preferência divina. Ver discrepâncias exasperantes entre opostos em minha poesia é como encontrar chifre em cabeça de cavalo. Ora, não sou dialético, e sim paradoxal. E paradoxal define aquilo que é contra o senso comum. E sendo paradoxal, paradoxalmente demonstro que na fraqueza podemos encontrar a força, e na baixeza a majestade etc. Esta é umas das ideias que fundamentam o meu pensamento e a minha visão de mundo.

A mudança na forma de compreensão da homossexualidade, e da sexualidade em geral, iniciou uma reviravolta em sua vida e em sua visão de mundo. Sua maneira de pensar mudou, ou quem sabe, se solidificou?

No prefácio do meu livro Bundo e outros poemas, publicado em 1996 pela editora da Unicamp, informo que, a partir da metade dos anos 1980, passei a questionar seriamente a homossexualidade e a sexualidade em geral, iniciando uma reviravolta em minha vida e em minha visão de mundo. Já fazia uma poesia desbocada e atrevida, rasgando véus e desfraldando bandeiras. Mas, fugindo do mero escracho, passei a estudar e a refletir sobre tudo o que a cultura pudesse dizer sobre as minhas opções afetivas, eróticas, sexuais, e sobre as desencontradas e conflitivas relações entre os sexos. Bundo e outros poemas é dividido em duas partes: a primeira, com poemas de Bundo, e a outra com poemas de Waw, um livro que ainda não teve edição solo. Com poemas escritos entre 1982 e 1991, Waw significa travessia, passagem, ponte; é o nome da 6a letra do alfabeto hebraico e designa o anzol, o gancho ou colchete, além da conjunção aditiva e. Ou seja, ligação, liame, laço, amor, sexo, erotismo, tudo isso está contido no simbolismo do número 6. Contudo, ironicamente, Waw registra o fracasso da busca e da união amorosa; propõe uma fraternidade inviável, um projeto de amor e convivência irrealizável. Qualquer busca de consolação exterior, no outro, está condenada ao fracasso, à insatisfação e ao rancor. Em Waw, descrevo a difícil superação ou travessia do mar terrível, da selva selvagem, da noite escura do amor, das paixões, das crenças e atitudes ingênuas. Saindo desse inferno, avistei as estrelas. Porém, a saída é para dentro, conforme descobri. Esse retorno ao princípio interior, através do erotismo sagrado, será a obsessão do monotemático e tautológico Bundo, escrito entre 1990 e 1995. Todo esse trajeto poético é retrospectivamente percorrido na recentíssima coletânea Transpaixão [edições Kabungo, 1999].

Lendo e meditando sobre a plenipotenciária energia kundalini, fiquei perplexo e maravilhado, imaginando que enfim encontrara o tão desejado caminho para a grande viagem do autoconhecimento. E logo, pela graça da providência divina, fiquei sabendo que o conhecimento, em contexto bíblico, tem conotações eróticas, sensoriais. Pensei, então: isto é o verdadeiro autoconhecimento; isto é que é gnose. E aprendi que o corpo é o templo do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e de todos os deuses, sendo a própria sede do Reino dos Céus. Assim percebi o quanto certas religiões escondem para impedir a experiência direta e total com o Deus Vivo. Algumas noções de língua hebraica e de numerologia, outras de Cabala e de mitologia, além do constante estudo dos símbolos, me permitiram ler e entender muitas das passagens misteriosas e incompreensíveis da Bíblia.

Houve uma depuração de seu pensar místico-filosófico-religioso com o passar dos anos? Sua poesia diz o novo, ou se aprofunda no que antes era intuição?

Já no segundo ano da década de 1990, as minhas pesquisas chegaram a um nível satisfatório. Desde então, quanto mais leio e investigo, mais confirmo e amplio as minhas descobertas, parcialmente reveladas no livro Bundo. Esse livro é deliberadamente “inspirado” no “livro dos inspirados”. As referências ocorrem em vários poemas; como na Bíblia, há diversas alusões às mãos, cheias de dedos, que se dirigem a Deus, no mesmo lugar sagrado de tantos nomes: monte, rochedo, colina, outeiro etc. Citando os capítulos 11 e 54, de Isaías, mais referências astrológicas, eis, como exemplo, o que digo neste poema: “Entro no / antro do escorpião. / Sou o esposo da virgem / e o par da mãe estéril / a mãe de sete filhos. / Brinco no fojo do dragão / e no forno serpentino / meto a mão. / Falanges, falanginhas, falangetas, / aios do Senhor dos Exércitos”. Noutro poema, citando os capítulos 2 e 11, de Isaías, assim descrevo o ritual da justiça divina: “Ó mãos abençoadas, que sondais / os montes gêmeos; / falanges sagradas, que recreais / na toca da serpente” etc.

Podemos dizer que a Bíblia é a grande inspiração de sua escrita?

Mas nem só de inspiração bíblica se nutre a minha poética. Por exemplo, a expressão “montes gêmeos”, apesar de encontrável em Zacarias 6:1, foi inspirada no Dicionário de símbolos, de Juan-Eduardo Cirlot, verbete “Montanha”. Tempos depois, lendo A epopéia de Gilgamesh, vi que esse herói, em sua busca da imortalidade, deve transpor certa montanha de cumes gêmeos, a montanha Mashu, guardada pelo homem-escorpião. Em astrologia, associa-se o signo de Escorpião ao ânus. Outro exemplo da variedade de fontes inspiradoras de minha visão de mundo e de minha poética atual é o poema “Descobrimentos”, no qual, abusando das sinédoques, aproximo diferentes concepções do centro sagrado ou paradisíaco, nivelando assim as numerosas visões dessas plagas míticas, fabulosas, que remetem sempre ao mesmíssimo lugar: “Eldorados, thules, surgas, agarthas / cimérias, hespérias, pasárgadas, cólquidas / xangrilás, cocanhas, saléns, guananiras, / reinos miríficos, mundos arcanos, / céus interditos” etc.

Entretanto, é um equívoco pensar, como o fez Fábio de Souza Andrade, na crítica “Gozo místico”, publicada no caderno Mais!, da Folha de São Paulo, que a minha poesia seja igualmente atraída pelos pólos da religião e da sexualidade e que revele um embate de sublime com escracho, de paganismo e epicurismo com tradição judaico-cristã etc. Nada mais falso: religião e sexualidade não polarizam meus temas; e nem se pode chamar de sexualidade a modalidade de prazer que os meus poemas celebram. Erotismo seria um termo mais adequado. E como religião e erotismo em minha poesia sejam a mesma coisa, resolvi chamá-lo de erotismo sagrado. Esse erotismo nada tem a ver com as relações sexuais ou com qualquer polarização esquizoide do sexo, pois a diferenciação sexual representa o início de todos as divisões, desigualdades e antagonismos, conforme esclareço em réplica inédita. Vagner Camilo, na revista Imagens, acertou ao dizer que a “aproximação entre gozo físico e êxtase místico não é, em absoluto, algo novo, mas em Bundo, mais do que aproximação, o que temos é a completa identificação entre um e outro.”

Alguns, como Jung, pensam que o impulso sexual tem implicações espirituais ou místicas. Sim, e daí? Tudo tem implicações espirituais. Assim na Terra como no Céu, cada um tem o Céu que imagina, porque o reino espiritual é o reino da imaginação poética e das abstrações estéticas, é o altiplano das recreações linguísticas, enfim o reino das projeções mentais pessoais e coletivas. É a logosfera, como diria Zeca Perim. Harold Bloom, em seu livro Cabala e crítica, afirma que a Cabala é uma espécie de teologia erótica ou misticismo sexual; estando intrinsecamente ligada à Bíblia, acredito que seja uma teologia homoerótica, conforme os poemas e as chaves de leitura bíblica contidos em Bundo o demonstram. Ora, nem sempre o espiritual ou místico é o mesmo que religioso e sagrado, na acepção radical destas palavras. Visto que o sexo implica em divisão, separação, diferenciação e desigualdade, penso que o impulso sexual jamais poderia ter um sentido religioso, isto é, de comunhão e integração com o sagrado, pois o sagrado confina com o segregado, ou posto à parte, o especial, o anormal, o incomum, o extraordinário. Por outro lado, o contato e o trato religioso com o sagrado implica em erotismo: alegrar as entranhas com prazer.

Em algum momento, ao ler sua obra, percebi que caberia para sua filosofia, e mesmo para sua poética, um canal de escrita sobre o “agora”. A respeito do cotidiano, esse tipo de convite receberia um “sim” de sua parte?

Sim, necessito de um canal midiático para trocas, gosto de ser pedagógico com o que sei sobre minha criação poética, isso me faria parecer menos louco, porque estudo hebraico, estudo mitologia, na Alemanha em apenas dois meses fazendo um curso de alemão escrevi um poema no idioma germânico, e quanto mais me expor, mais aprenderei. O que acontece é que cadernos de cultura de jornais locais, aqui no Espírito Santo onde resido, me procuram pedindo colaboração, em troca eu digo que também preciso que colaborem comigo. Todos os profissionais na cadeia ligada ao livro recebem algum ganho monetário, e não apenas livreiros e editores... pesquisadores recebem bolsas, estudantes recebem bolsas, professores recebem salários, e porque nós, os escritores, que somos os construtores desses livros, somos quem menos recebe?

*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 3 da Revista Digital Overmundo.

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alcanu
 

Sexo é Vida...
Quando despertaremos pra essa realidade?
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 18/10/2011 17:36
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Abílio Neto
 

Vivendo e aprendendo. Ótima esta matéria!

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 25/10/2011 10:05
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