Entre os anos de 2002-2004, um grupo de estudantes de composição da UNICAMP criaram, dentro do espírito de reestruturação político-pedagógica do seu curso, um movimento artístico que acabou ganhando imensa importância para a produção de um novo repertório de música experimental brasileira, para a criação de propostas de revisão pedagógica para cursos de composição e cuja extensão acabou dando na criação do 1º Encontro Nacional de Compositores Universitários – ENCUN, encontro itinerante e anual que, em 2007, realizará sua quinta edição.
Reunidos em assembléias semanais desde fins de 2001, tais estudantes vinham tentando propor de forma consistente uma saída para a situação precária de seu curso de composição que não possuía na época sala própria e produzia quase nada em termos artísticos ou acadêmicos. Dessas reuniões acaloradas que se seguiram nos próximos anos, surgiram uma série de diagnósticos e prescrições, quase todas decorrentes de uma visão particular das funções e do potencial do espaço universitário.
Espaço universitário em foco:
O espaço acadêmico dentro de um curso de criação musical deve ser ocupado com produção artística tanto dos estudantes quanto dos professores. Tal espaço deve ser valorizado como principal objeto de construção e re-criação desse coletivo.
O curso universitário é fruto de um investimento social estratégico: a sociedade emprega recursos para o sustento de um locus de produção de conhecimento em determinada área, estimula a convergência e encontro de indivíduos interessados pelo mesmo objeto, configurando um ambiente propício ao seu desenvolvimento. Assim, o espaço público acadêmico teria como objetivo principal, enquanto investimento voltado para a autonomia e excelência, o seu próprio desenvolvimento. Os indivíduos compõem esse espaço mais do que simplesmente usufruem dele momentaneamente em busca de um diploma. Não deve ser encarado como um mero serviço que o Estado oferece aos indivíduos, mas um laboratório experimental dentro de uma proposta maior por autonomia.
O incremento desse locus, a produção artístico-acadêmica que viesse a gerar, comportar e difundir, deveria ser fator de ampliação do Mercado (deveria gerar neste novas demandas, adaptáveis a uma música de caráter livre) e visaria superar a noção de que a função da universidade seria a de meramente suprir exigências objetivas por mão-de-obra qualificada. Agir desse modo, investindo exclusivamente em reprodução de conhecimento útil caracterizaria uma sub-utilização do espaço acadêmico.
Tal espaço deveria criar suas próprias demandas, portanto. Isso só seria realizado de forma sólida com o engajamento dos sujeitos componentes desse espaço num esforço por ocupação criativa, re-modelagem contínua e defesa teórica do mesmo. O espaço do curso de composição deveria ser caracterizado pela mutabilidade e deveria acompanhar as idiossincrasias do corpo móvel de indivíduos que o compunham semestre a semestre. Seriam abolidas as referências a um corpo discente e um corpo docente. Passariam a existir apenas compositores: um corpo estável e um corpo transitório.
O corpo estável (formado pelos professores pagos pela universidade) funcionaria apenas como catalisador, sugerindo caminhos dentro de um curso formado quase exclusivamente por disciplinas eletivas, e não haveria obrigações a priori do corpo transitório em relação a ele, nem mesmo avaliação baseada em trabalhos combinados com o corpo estável. Todos deveriam mostrar serviço compondo, tocando e ajudando o espaço a evoluir. Ao invés de oferecer as disciplinas habituais, os professores ofereceriam cursos semestrais sobre assuntos focados em seus objetos de estudo principais de modo a aproximar os estudantes de suas idéias a respeito da música lançando-as ao debate. Estas conferências sobre diversos assuntos seriam oferecidas a todos, sem distinção de turma, e os indivíduos (de todos os anos) comporiam as classes de acordo com o interesse. Isso visava à diluição do corpo de estudantes dentro do curso, proporcionando o convívio entre indivíduos com experiências diversas.
Apenas a prática composicional em suas diversas formas seria estabelecida como prioridade em termos disciplinares. Todos deveriam produzir e mostrar o resultado de sua produção aos demais em concertos regulares independentemente das condições técnicas das obras. Isso proporcionaria a troca das várias vivências individuais, a socialização da crítica e o acúmulo real de experiência com produção artística.
A apatia do curso de composição da UNICAMP permitiu que os estudantes pudessem pôr mãos à obra e criar, entre 2002 e 2004, um dos momentos mais fecundos da história da criação musical universitária dos últimos anos. Com concertos mensais, cerca de 100 obras foram estreadas, diversos grupos de compositores foram criados, muitos indivíduos formaram-se a partir dessa experiência.
Logo sentiu-se a necessidade de compartilhá-la com compositores de outros cursos universitários. O objetivo era tornar tal esforço um precedente para que outros buscassem re-pensar a sua própria relação com a academia e para que a produção artístico-acadêmica brasileira pudesse circular fora do âmbito universitário. Criou-se para isso o ENCUN, o Encontro Nacional de Compositores Universitários. O ENCUN tornou-se imediatamente um evento itinerante, anual, e já percorreu, além de Campinas (2003), Londrina (2004), Curitiba (2005) e Belém (2006), tendo uma nova versão prevista para 2007 em São Paulo.
O ENCUN pretende ser uma alternativa para os diversos festivais e encontros nacionais de compositores no Brasil, cuja prioridade é a de servir como vitrine para o que há de melhor na música brasileira de vanguarda, do ponto de vista de uma curadoria específica.
O ENCUN é formado de modo livre: os indivíduos, de todo o país, propõem peças, instalações, conferências, comunicações, cursos, entre outras atividades, e esse montante de trabalhos propostos compõe o encontro, que nesse sentido, visa ser um veículo de divulgação do que de fato ocorre dentro dos muros das instituições produtoras de música nova no Brasil. Os únicos vetos possíveis para trabalhos propostos são aqueles ocasionados por impossibilidades técnicas da coordenação do evento, o que coloca o ENCUN como o mais democrático evento desse porte no país.
O Grupo de Compositores da UNICAMP dispersou-se vitimado pela imensa inércia da academia, pela impossibilidade de enquadramento do quadro docente em um projeto desse vulto, e pelo isolamento, domesticação ou formatura dos principais indivíduos implicados no processo. Tal situação fez-me refletir sobre os limites de mudança, muitas vezes inusitados, dentro de uma instituição pública, motivados pelo medo que alguns indivíduos têm de perder espaço e poder. Penso hoje, com cabeça fria, que a universidade, pelo menos no que diz respeito à sua produção artístico-pedagógica, jamais se libertará do jugo da mera reprodução de conhecimento, uma vez que tal formato é mais facilmente digerido pelo sistema acadêmico estabelecido e proporciona a este meios para avaliar o que é certo ou errado dentro de sua visão limitada.
A música universitária fez a sua opção pelo mesmo, pelo estável, pela repetição, pela segurança. Resta zelar para que o seu filho promissor, gerado às custas da distração de um momento de perplexidade seu, o ENCUN, possa viver ainda alguns anos como alternativa nesse mar de tranqüilo desespero da música universitária brasileira: móvel, perigosa e fascinante como a Nau dos Loucos de Foucault, transportando de Estado em Estado da Federação o que resta da fecunda insanidade acadêmica neste país.
Perfeito! As palavras muito bem medidas, me sinto como se tivessem saido da minha boca. Sou aluno de composição da Escola de Música da UFRJ. Qualquer ajuda, gostaria de oferecer-me para tal.
Espero saber quando e onde (São Paulo, parece) ocorrerá este evento, o ENCUN. Estarei lá de qualquer maneira!!!
Parabéns Valério, escreveste muitissimo bem.
Eu fiquei até sabendo do 1° ENCUN, o Rodolfo Caesar havia me dado uma 'bronca' até por eu não ter ido. Quase fui. Me arrependo agora de não ter ido.
Salve todas as idéias que aí em cima estão. Faço dessas minhas palavras.
Leo Alves Vieira
Olá Leo. Obrigado pela generosidade. Rodolfo sempre foi um dos incentivadores desse encontro.
Olha, existe uma lista no yahoogroups sobre o encun. inscreva-se nela. O responsável é o Alexandre Fenerich aí do Rio. Chama-se "Forum_composicao". Estamos começando a definir o encun de São Paulo, previsto para outubro deste ano.
bem vindo a bordo.
Gostei de saber da iniciativa. Muito boa essa troca de informações.
Cida Almeida · Goiânia, GO 16/2/2007 12:02
OI Cida.
Obrigado pelas palavras amigas
Está previsto um desembarque da nau do ENCUN na região centro-oeste, por conta de uma proposta de rodízio entre regiões, em 2008 (caso o evento não migre para o nordeste) ou, no mais tardar, em 2009. Quem sabe não rola na UFG?
Valério, gostei de ver o texto também, e lamento apenas que não tenha ficado na primeira página, com mais destaque. Dou meu voto pra ver se o empurrãozinho ajuda.
Abraço.
Ê Valério. Participei do ENCUN 2006 aqui em Belém e fiquei surpreso com a produção dos compositores da UEPA que se fizeram presentes. Não imaginava tal gang aqui na Capital. Torço para que com o passar da tempestade o pessoal não esmoreça. E vida longa ao ENCUN!
Fábio Cavalcante · Santarém, PA 8/3/2007 14:17
Sou ainda leigo em música, embora apaixonado por ela desde os 14 anos de idade. E a Meta desse encontro é uma das coisas pelas quais procuro desde os 14 anos.
Anseio, sobretudo, em acompanhar a evolução da música grafocêntrica e tentar livrar o mundo disso que podemos chamar de ‘doentia obsessão pela música histórica’.
Como diz o próprio Nikolaus Harnoncourt, parece que o público freqüentador das salas de concerto, bem como uma parcela considerável dos músicos, possui a tendência de executar e escutar sempre as mesmas obras, dos mesmos compositores, divulgando as mesmas (já por demais batidas) poéticas, como se estivéssemos presos ao passado.
É o mal que vem contaminando o mundo erudito desde o período napoleônico, conforme se depreende do “Discurso dos Sons” de Harnoncourt.
Pois naquele período se padronizavam leis (através do movimento de codificação do direito, surgido no próprio séc. XIX), e que também se fazia presente em outras áreas do conhecimento, haja vista que após as guerras napoleônicas seguiram-se grandes reformas educacionais em todos os níveis, as quais tornou um imperativo a padronização dos sistemas de formação.
Não estou aqui repudiando Montiverdi, Bach, Mozart, Wagner, Mahler, Schoenberg, Strawinsky, Stockhausen, Ligeti, Berio e outros...
Mas a música deve continuar não é mesmo, seguindo sua evolução natural rumo a novas poéticas...
Todavia, para quem não tem condições de ir ao ENCUN, há alguma forma de entrar em contato com a produção erudita dos compositores desse encontro?
Um abraço aos que idealizaram e colaboram com a ENCUN!
Oi Gustavo.
Obrigado pelas palavras muito bem colocadas.
Teria a acrescentar apenas que as 'novas poéticas' sempre estiveram aí. A meu ver o lance é descentralizar o foco, não re-focalizá-lo. Abrir os ouvidos e seguir de acordo com seus humores.
Daí não teremos uma nova "alternativa ao velho" (ranço modernista), mas o esvaziamento definitivo dessa dicotomia "velho x novo". Ganhamos mobilidade, velocidade, vertigem e corpo com isso.
Para acessar o Encun, usamos essa lista:
forum_composicao@yahoogrupos.com.br
que está, aos poucos migrando para:
forumencun@googlegroups.com
e temos um myspace:
http://www.myspace.com/contemporarybrazilianmusic
onde você pode ouvir alguns colegas desse circuito.
Bem vindo à Nau.
Oi Valério!
No universo da ENCUN há compositores contemporâneos que criam obras para grandes formações sinfônicas (utilizando os tradicionais instrumentos de uma orquestra para fazer música contemporânea)?
Como ainda fazem lá na Polônia Henryk Górecki e Krzysztof Penderecki?
Um abraço!
Oi Gustavo
Existe muita coisa para orquestra sinfônica por aí (só eu tenho 5 peças, um concerto para piano, uma ópera no forno, etc). Como você deve imaginar, não é mole tocar, etc.
A maioria dos colegas escreveu coisas assim dentro do âmbito acadêmico por fazer parte do currículo do curso de composição a tal escrita orquestral. A única vez que vi uma peça minha sendo tocada por uma orquestra foi dentro do âmbito acadêmico.
Tenho a impressão que, concordando com sua perspectiva crítica, as orquestras sinfônicas tendem a deixar de existir (pelo menos no Brasil) exatamente porque sua existência não implica (nunca vi implicar) num impacto na produção de música orquestral nova.
Servem apenas para manter soando um repertório clássico cuja justificativa permanece nebulosa: "para que continuemos ouvindo os clássicos" - função meramente museológica? Isso é o calcanhar de aquiles das orquestras; um troço que custa caríssimo (e por isso, via de regra, é bancado pelo poder público) cuja finalidade é produzir unicamente entretenimento para uma elite, não movimentando com isso nada além da poeira do tempo.
Entretanto, não deixa de ser curioso que em São Paulo a única orquestra dedicada à execução de música nova brasileira - a Sinfonia Cultura - tenha sido a primeira a cair. Um belo tiro no pé.
É um circuito muito complicado e, penso, inviável. Tende a deixar de existir. Não o lamentaria. A caravana continuaria passando.
Abração!
Oi Valério!
A morte das novas obras sinfônicas que já nascem natimortas é pra mim uma tragédia das piores. Fico triste ao saber que você (bem como muitos de teus colegas provavelmente) possui concertos e até óperas que jamais foram executadas.
Aliás, até o compositor Jorge Antunes tem uma ópera em três atos acabada há uns quatro ou cinco anos e ainda não conseguiu patrocínio para executá-la. Isso porque ele foi aluno de Pierre Schaeffer, é doutor em estética musical pela Sorbonne e ainda "Chevalier des Arts e des Lettres".
E eu que almejo escutar essas obras (o teu concerto pra piano, a tua ópera e a ópera do Antunes) só posso tentar imaginá-las...
Agora pense bem, suponha que eu realmente tenha algum talento musical, e suponha que eu venha a me tornar catedrático em alguma universidade... O que irei ensinar aos meus alunos?
Porque falar de Stockhausen, Ligeti, e tantos outros é falar de coisas passadas... Coisas de muito valor, sim, é verdade, mas o que vem depois?
Bem, aí eu falaria aos meus alunos do meu amigo Valério Fiel da Costa, mas como irei falar dele se os meus alunos ao irem numa loja especializada não conseguirem achar qualquer obra dele à venda? Pois é óbvio que além de ler a respeito de você, as pessoas irão querer ouvir o que você compôs... Mas pra isso... Precisamos da orquestra. E de empresas e pessoas que possam e queiram financia-la.
E mesmo que você não queira compor para orquestra em razão disso tudo (afinal até eu, que ainda nada sou, já tô desanimado), como ficariam aquelas pessoas, chatas como eu, que, inconformadas, de um certo modo iriam esperar pelas novas obras sinfônicas...
Basta lembrarmos do concerto para piano e orquestra do Strawinsky, ele o compôs mais por exigência do público que desejava assisti-lo tocando ao piano... E hoje é uma das mais interessantes obras no repertório pianístico.
Eu não consigo conceber uma música erudita sem aquela tradicional orquestra das salas de concerto... Eu mesmo pretendo estudar composição tão somente por amar toda essa "engenharia complicada e bela" que é a orquestração...
Se pode extrair muito mais expressão de um instrumento acústico do que de um aparelho elétrico... E a combinção dos instrumentos, a harmonia entre eles, o contraponto para fazê-los cantar todos sua própria melodia... E tudo mais que se exige para fazer uma orquestra provocar aquela sintonia que une as almas de todos que a ouvem e que tentam compreendê-la... Isso tudo é que alimenta meu interesse pela música...
Mas, pode acreditar... As orquestras não morrerão... Ficaram em coma durante bom tempo, mas isso vai mudar...
Claro que até lá, a Nau tem que prosseguir do jeito que der.
Logo devemos seguir o exemplo de John Cage ao compor as sonatas para piano preparado. Se não é possível colocar um grupo de percussão num palco pequeno, então o piano fará também as vezes de instrumento percussivo. Et voilà!
Um abraço!
Oi Gustavo.
A estratégia limite é conseguir de algum modo um peixe para tocar a coisa (ou dinheiro para pagar os músicos); gravar a coisa da melhor forma possível; disponibilizar; falar sobre ela; passar para a próxima.
As obras orquestrais que viriam? Se não vierem, não vieram e pronto. Continuamos produzindo do mesmo jeito. A orquestra não representa uma referência para o processo criativo caso ela não se apresente como tal.
Compor não pressupõe instrumental a priori ou ferramentas a priori. Compoe-se com aquilo que está no ar, com o ferramental que estiver disponível. Não se lamenta a falta disso como fator decisivo.
Não me interessa aquele discurso de que não conseguimos fazer uma música eletroacústica melhor por não possuirmos instalações e equipamentos tão bacanas quanto os do Ircam em Paris. Ferramenta poderosa não implica em música poderosa; tudo depende do cara que está modelando a coisa, compondo. A matéria sonora é inerte. Assim, não faz diferença se é acústica ou eletrônica, pois quem define a coisa em termos musicais é o gesto, seja em estúdio, seja ao vivo. Não dá para fugir disso.
Vivo falando para colegas mais novos: se não se consegue compor com seu violão, não adianta tentar outra coisa, nem mesmo os hiper-instrumentos que os recursos eletrônicos disponibilizam.
Minhas primeiras coisas escritas foram orquestrais. Depois fui aprendendo a enxergar melhor a matéria sonora e a apreender dela sua complexidade imanente. É nesse processo que entendi a criação musical como algo ilimitado e passei a não me ocupar mais dos moldes sugeridos por aí, acessando-os apenas como uma possibilidade entre inúmeras.
Como disse John Cage ao entender que o silêncio não existe: "não devemos temer pelo fim da música".
Grande abraço
Bom dia Valério!
Acompanhando o teu raciocínio, de fato quem realmente compõe o faz por qualquer meio disponível... A música não possui limites, nem fronteiras físicas.
A única lei fundamental da música, na minha humilde opinião, é estuda-la de forma profunda, desde os seus primórdios, passando por todos os seus períodos até chegar onde estamos.
Estou nesse momento ouvindo a tua obra "a", é um show! Gosto muito desse tipo de som.
Você já deve ter percebido minha predileção pelo instrumental acústico, daí minha paixão pela orquestra.
Contudo, sendo inerte a matéria de que se constitui a música, realmente, ela não pressupõe instrumentos de qualquer espécie.
Que obras posso ler para aprofundar meu conhecimento acerca disso que estamos discutindo?
Um abraço!
Bom dia Valério!
Pois tenho a impressão que somos guerreiros numa batalha interminável pela compreensão do som e do silêncio. Duas metades de um mesmo corpo? Não sei... Só sei que nada sei...
Valério, sabe que achei na internet um texto muito interessante que vou tentar decifrar. É um estudo de análise em uma peça com escrita indeterminada. (uma coisa bem Cageana)
Sei que sou muito intrometido em tentar entender coisas que estão ainda muito além dos meus parcos conhecimentos teóricos em música... Mas é que ontem estava no meu quarto ouvindo as sonatas para piano preparado do Cage, ouvia e lia a respeito delas. Eu quero muito entender o funcionamento dessas obras contemporâneas, bem como aquelas do passado. Fico imaginando como Strawinsky chegou até a Sagração da Primavera... Também penso acerca de uma obra que tenho em casa do Berio, onde se utiliza pequenas formações de instrumentos de um modo pouco convencional... Misturando um som ora atonal, ora tonal, ora determinado ou não, com o cântico de um coro que exerce um papel bastante plástico, não apenas cantando melodias mas muitas vezes fazendo sons numa posição coadjuvante como se fosse um instrumento de percussão. E esse coro ora se dissolve e ora se reune novamente, é bizarro, mas interessante.
Desejo entender não só isso tudo a que me referi, como também estudar e compreender como funciona a orquestração, desde a renascença até o nosso tempo.
Gosto muito das obras de Henryk Górecki. Você já ouviu a terceira sinfonia dele? Ele também tem uma outra obra bastante interessante chamada 'beatus vir'. Sem falar no concerto dele para cravo e orquestra, é bem inusitado.
Gostaria muito de fazer uma música que ficasse entre aquilo que Górecki faz e aquilo que vocês da Encun fazem.
Algo contemporâneo, mas ao mesmo tempo que lembre um pouco o passado. Todavia, que esse passado seja lembrado de um modo diferente, gerando não apenas uma sensação agradável pelas melodias, mas também incomodando, por apresentar em certos momentos uma desconstrução desses parâmetros tradicionais do passado que serão expressos ao longo da obra. Padrões que nascerão com ela na medida que os músicos a executam, mas que morrerão aos poucos no desdobramento da peça, e que se tronsformarão até tornarem-se silêncio.
Um abraço e bom final de semana!
Oi Gustavo.
Essas coisas que falo não devem ser entendidas como posicionamentos ideológicos. Não me importo com o futuro da "música" (não há o que temer aqui), não sou modernista (não procuro representar uma vaguarda - não acredito na sua necessidade), não tenho interesse em divulgar a tal da "música contemporânea" para que as pessoas escutem mais (o termo contemporâneo não significa nada objetivo mas se tornou um gênero, o que é ridículo), não faço parte da turma da "música de invenção" que o Augusto de Campos inventou, não me sinto em débito com Darmstadt, com a Escola de Nova York ou com a 2ª Escola de Viena (entre outras "escolas" que usamos para orientar nossa produção desde sempre). Dito isto, vamos à composição:
Compor é cantar e dançar. Basta sentir essa necessidade de estar em movimento e soar que você estará, provavelmente no caminho certo (isso não é uma metáfora!). Aqui não importam as referências a não ser como presenças, como focos de irritação externa que podem ou não ser fecundos dependendo de sua vontade para figurarem como elementos dentro de sua poética.
Compor não é expressar sentimentos com sons; compor não é escrever música; você pode muito bem ser alguém que escreve muito bem e não compõe nada; você pode não saber escrever e ser um compositor extremamente interessante;
Compor é pôr coisas em movimento retendo desse movimento, através de um gesto (faça uma mão em forma de garra puxando alguma coisa do ar), as coisas que te interessaram no movimento bruto que você acabou de gerar; nesse ato de retenção há uma marca territorial que é o verdadeiro objeto da composição. É ela que escutamos quando estamos diante de um compositor que seja algo mais do que um escritor de música.
Aqui não importam questões estético-ideológicas; tais referenciais fazem parte do processo como qualquer outra contingência pessoal como ter nascido em determinado bairro de Blumenal, ter uma namorada punk, ou ficar sozinho na Europa num albergue durante 3 meses.
Nada contra o escritor de música. Todos nós que frequentamos cursos acadêmicos e técnicos apreendemos o metier e sabemos escrever música. Mas o compositor está em busca de algo mais do que os objetos musicais disponíveis. Por isso, não se deve começar um raciocínio composicional preocupado em seguir modelos estético-ideológicos; o raciocínio composicional deve ser livre: flertar, no máximo, com tais referências; não abrir mão da sua autonomia, pois ao fazer isso, simplesmente deixará de existir.
Quando começamos a fazer música temos a impressão que devemos seguir caminhos pré-estabelecidos e nos sentimos "na casa dos outros". Na realidade, quando aceitamos chamar nossas experiências sonoro-gestuais particulares de "músicas" acabamos prestando um grande favor ao circuito e damos a ele a oportunidade de aprimorar-se.
Portanto, traga com você, independentemente das máscaras eventuais, aquilo que só você é capaz de fazer. Terá lugar garantido no "mundo da música".
Um abraço.
Ou seja, o meu compromisso enquanto compositor é usar de todos os meios dos quais disponho, e porque não, criar também novos meios, os meus próprios meios, para, desse modo, oferecer o melhor que posso...
Criando música e não simplesmente escrevendo música, e muito menos me preocupando com padrões ou influências que sejam, em tese, mais adequadas... Pois no fundo só a liberdade de criação é que é realmente Adequada a cada um e a todos.
E como sempre estamos insertos em contingências pessoais, que definem o que somos a cada instante (pois tudo flui e se transforma) estaremos e estamos criando a música que há dentro de nós... E que reflete cada momento desse período turbulento e cheio de mudanças que hoje vivemos...
Essa música, naturalmente, pode sofrer influências, mas jamais poderá se fixar em uma delas, sob pena de não mais ser música.
Pois quando o artista deixa de ser o protagonista de sua época, de seu tempo, ele deixa de ser artista e nada do que faz precisará ser compreendido, pois não será autêntico, será apenas uma cópia de outra época.
Será que é por isso então que o musicólogo Juan Carlos Paz diz que nossa época não conta com ‘estilos’, mas com ‘tendências’?
Pois, ao que parece, a própria definição desse termo nos remete ao que você falou:
Tendência no dicionário significa: ‘força pela qual um corpo tende a se mover em determinado sentido’
Assim, esse sentido é definido pelas contingências pessoais de cada um.
Ou seja, Você, Eu e Outros, seguiremos, eventualmente, alguma tendência com a qual nos identificarmos, mas diferente de um ‘estilo’, esse sentido que eventualmente seguirmos será passageiro, e tão efêmero quanto ele será a nossa eventual ‘adesão’ ou influência sofrida a por ele, pois aderir a uma tendência é o mesmo que se jogar na areia movediça. E não cometeremos tal desatino, pois somos compositores.
Daí então a importância de trazer à baila tudo que sou capaz de fazer, independente das máscaras eventuais.
Será que faz sentido?
Um abraço!
opa, Gustavo e Valério. Essa discussão tá boa, o lance é: democratiza ela aí! Valério, encaminha o rapaz pros fóruns da galera!
Abração, e prazer Gustavo!
Leo Alves Vieira
http://www.myspace.com/leoalvesvieira
Oi Leo,
Prazer também, agora pouco estava ouvindo 'Day of Soccer', é bem diferente, me lembra bastante obras daquele compositor Brian Eno.
E aí Leo, você que teve o privilégio de estudar música na academia,
na tua opinião, será que Juan Carlos Paz ao dizer que hoje estamos numa época de ‘tendências’, se referia ele àquilo que disse o Valério no comentário acima?
Um abraço!
Obrigado Gustavo.
Então, creio que não era bem o queria dizer o Valério. Acho que ele estava se referindo a um movimento de criação ainda mais pontual... isto é, o próprio 'momento' do ato de compor.
Eu tendo (hahah) a concordar com ele, ou pelo menos, a me interessar por seu discurso. Pois aí reside o mais valioso em discussões em torno de criação/composição: a provocação. Logo, citar Juan Carlos Paz, John Cage ou Valério Fiel da Costa tem importância na medida em que quem lê o escrito passa a pensar (que também é um ato de criação/composição), e assim o fazendo, está construindo seu PRÓPRIO discurso. Não acho que valha a pena citar alguém só para 'confirmar' o que outro diz. Isto seria para mim por demais cristalizador, bem como desto 'definições'.
Neste sentido é que eu diria que o meu 'objetivo' ao criar/compor é me aproximar disto que por ora estou filtrando do discurso do Valério: uma dinâmica livre, sem deixar de 'reconhecer' que há influências, lógico. Quero dizer com isso que, em verdade, tudo o que ouvi, li, vi, toquei, senti, faz parte desse amalgama criacional entretanto, a chave é não se preocupar muito em seguir este ou aquele estilo/tendência. Nem que seja o último absorvido. Embora eu próprio faça pesquisas específicas de quando em quando, não conseguiria, nem se quisesse, fazê-lo, uma vez que já foi (e o é ainda) preocupação suficiente me manter alimentado e aberto à maioria de estilos/tendências quanto for possível!
Parece simples assim, falando, mas não é. Construir uma dinâmica de personalidade (desde pequeno) que não admita acomodação e permita que você flua com prazer por entre a multiplicidade da vida com prazer e serenidade requer esforço. Sempre ouvir, ler, ver, tocar, sentir mais outras coisas não é difícil, mas requer esforço.
Houve um tempo em que eu até exagerava em achar que era ignorância não correr atrás de novidades de qualquer sorte.
Leo Alves Vieira
Bom dia Leo e Valério,
O escritório ta uma loucura hoje, é prazo atrás de prazo!!!
Realmente o que o Valério disse é isso que você comentou a pouco Leo.
É isso mesmo Valério?
E Juan Carlos Paz, não parece mesmo ter dito isso. Será que estou equivocado ou os historiadores e musicólogos são um tanto conservadores?
Sabe que isso que dissestes, Leo, é verdade, é bem difícil construir uma dinâmica própria segundo a qual possamos fluir no campo composicional aproveitando as influências eventuais sem, contudo, se preocupar com elas, e tampouco sem se sentir na obrigação de aderir a elas.
Olha gente, se eu der uma sumida nos próximos dias é por causa das festas de fim de ano.
Eu não sei se já falei, mas as minhas composições, que são poucas e bastante simples, são minimalistas. Eu sou minimalista ao compor música. É que idéias simples e profundas fazem muita diferença. Ontem estava, inclusive, pensando nisso... Até chego à conclusão de que pauto minhas predileções composicionais por essa mesma via, o minimalismo...
Tem uma obra fenomenal do compositor alemão Steve Reich (acho que é alemão) intitulada ‘Música para 18 músicos’ (para diversos instrumentos de percussão), é impressionante! Gosto também de Phillip Glass, mas o meu grande ídolo composicional é o compositor polonês Henryk Mikolaj Górecki, aliás, ele faz parte do Triunvirato da música erudita do século XX na Polônia (Penderecki, Lutoslawski e Górecki). Há também um outro compositor cujas obras me despertam bastante interesse, por serem minimalistas também, John Tavener. (não confundir com o John Tarverner! Ambos são ingleses, mas de períodos bem diferentes...)
Eu sou totalmente minimalista, é algo que emerge de mim naturalmente. Curioso, pois, ainda antes de eu manter contato com a obra desses compositores eu já compunha de forma minimalista. Aí fui simplesmente me aproximando daqueles que se parecem mais comigo ao compor.
Claro que gosto de uma infinidade de compositores nem um pouco minimalistas.
O melhor do natal é que vou rever o meu piano, desafinado... Mas quando toca é como uma ninfa cantando no pé do ouvido.
Um Abraço pra Vocês!
Feliz Natal! Feliz Ano Novo!
Muita Saúde! Muito Dinheiro!
E Muita Mulher! Porque só uma coisa é melhor do que música!
...andar de bicicleta...
Um abraço!
Steve Reich, Philip Glass, Henryk Mikolaj Górecki, John Tavener, entre outros... Menos é Mais, O essencial está na simplicidade!
Eu sou tão minimalista quanto eles quando componho. É o traço mais marcante das minhas composições. E ainda antes de eu escutar a música desses camaradas, eu já compunha de forma minimalista. Mesmo sem saber e conhecer o minimalismo eu já era um minimalista. Acho muito curioso...
Abraços a todos!
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