O Guerreiro Alagoano

Celso Brandão
Benon, o Mestre Guerreiro e sua espada
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Marcelo Cabral · Maceió, AL
8/12/2006 · 155 · 13
 

O Guerreiro é um auto natalino genuinamente alagoano, de caráter dramático, profano e religioso. É uma junção de elementos dos pastoris, cheganças, quilombos, caboclinhos, e na opinião dos estudiosos do folclore se trata de um reisado moderno.

Surgiu em Alagoas na década de 20 do século XX, o folguedo apresenta um grupo de cantores e dançadores acompanhados de uma sanfona, tambor e pandeiros, que conta e canta através do sincretismo religioso a chegada do messias e a homenagem dos três reis magos, entre os dias 24 de dezembro até o Dia de Reis, em 6 de janeiro.

O Índio Peri, a Lira, o Papa-figo, a Alma, o Zabelê, o Sapo, o Mateu, o Doido, o Mata-mosquito, a Sereia, a Estrela Dalva, os Reis e Rainhas. Estes são alguns dos inumeráveis personagens que podem compor um auto de Guerreiro, sobre o comando do Mestre e sua espada, com seu incrível chapéu em formato de igreja de onde caem fitas de cetim multicoloridas.

A indumentária é carregada de espelhos, miçangas, brilho, lantejoulas e cores, muitas cores, todas elas. Os homens usam calções e meias brancas bem longas, imitando as roupas dos nobres e reis da corte, as mulheres usam vestidos com acessórios referentes a seus personagens, tudo isso compõe o visual das apresentações deste folguedo popular alagoano.

A parte musical, segundo o músico e pesquisador do guerreiro Tido Moraes, é um auto todo cantado, intercalando intervenções instrumentais, como vinhetas de passagem entre um episódio e o próximo. Acontecem pausas chamadas de embaixadas, nas quais o mestre e as outras figuras do guerreiro representam seus personagens em versos falados.

Música, dança, poesia, e teatro, tudo junto!

Tido completa. “O auto é uma seqüência de músicas poli-rítmicas, em formas binárias, ternárias, e quaternárias, esse é o tempo do andamento, ou seja, representam marchas e valsas. A harmonia funcional é bem simples e se dá através da sanfona. O mestre entoa a melodia e as figuras respondem em coro”.

Quem já assistiu a uma apresentação de Guerreiro sabe que a música tem um ritmo frenético e forte, a coisa toda é bem quente, pega fogo no salão mesmo, como se diz.

Mestre Benon, do Guerreiro Treme Terra de Alagoas, um dos grupos mais respeitados do gênero, conta no vídeo “Mestre Benon, o Treme Terra”, de Nicolle Freire e Celso Brandão: “Nós já quebramos muito palanque por aí se apresentando com o Guerreiro, uma vez na universidade (Ufal) estavam com as câmeras da TV filmando e quebrou tudo, caiu todo mundo”.

Isso pode acontecer no momento chamado de trupé, em que os dançadores batem o pé com força no chão, acompanhando o aumento da velocidade da música. Quebra mesmo.

Logo depois da reza do divino, no meio do espetáculo, acontece a luta de espadas entre os guerreiros. Este embate envolve sempre mestre e os embaixadores contra outros personagens como o Índio Peri. Tem pirueta, cambalhota e toda ação de uma boa luta de espadas. Errol Flynn das Alagoas!

Mestre Benon, o Treme Terra

O Guerreiro é irmão do Reisado, primo do xangô, dos índios da montanha, das Baianas, da Taieira, do Toré de índio, do Caboclinho, do Bumba-meu-boi e do Quilombo do Pastoril". (extraído do site do projeto Guerreiro por Natureza, Universidade Federal de Alagoas - Ufal).

Modéstia não é seu forte. Há mais de 50 anos atuando no folclore alagoano, Benon é um exemplo de gente do povo orgulhoso de si mesmo e de suas realizações, de sua arte, do seu Guerreiro Treme Terra de Alagoas, ele bate no peito e diz “Mestre Benon, o rei do folclore”, e é mesmo.

Segundo ele, é instruído em 29 profissões, e que não tem preguiça de trabalhar, dá valor a Alagoas porque “aqui só morre de fome se for preguiçoso, tem peixe, sururu, siri, caranguejo, tudo”.

No Centro Comunitário Hélio Porto Lages, bairro da Chã do Bebedouro, onde se tem uma bela vista de Maceió e da Lagoa Mundaú, vive Mestre Benon e a maioria do seu grupo de Guerreiro, por volta de 35 pessoas que o tratam com grande respeito.

Benon comanda também um trio de forró, tocando sanfona, e que tem o ótimo nome de Trio Mordido do Poico. Como complemento de renda, ele vende, ou melhor, exporta pequenos chapéus de Guerreiro, enfeites que rodam o mundo, “Estados Unidos, Japão, Europa, vendo pra todo lugar”, diz o Mestre do folclore alagoano.

Assista trecho do vídeo documentário "Mestre Benon, o Treme Terra" clicando aqui.

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Gus Acioli
 

Mais uma excelente história, Marcelo. Fico de cara com a sua intimidade com as coisas e gente de Alagoas. Parabéns pelo trabalho. Ah, o mestre Benon é incrível mesmo. Ele é o que tanto ama, um grande guerreiro.

Gus Acioli · São Paulo, SP 10/12/2006 12:30
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Gus Acioli
 

Acrescento: o trabalho está completíssimo. Os audios, links e video são ótimos.

Gus Acioli · São Paulo, SP 10/12/2006 12:33
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Marcelo Cabral
 

Valeu Gus, pensei em mostrar um pouco desse folguedo tão nosso pro pessoal dos outros estados, já que o Guerreiro só existe por aqui.
Abraço

Marcelo Cabral · Maceió, AL 10/12/2006 12:38
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Evelina
 

Muito bom, Marcelo!Bom texto, boas informações. Vai virá fonte!Parabéns, um abraço, Evelina

Evelina · Maceió, AL 10/12/2006 13:11
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Jr. Black
 

Acho que no Ceará também há um brinquedo chamado Guerreiro; vi o seu trupé e a sua batalha de espadas numa apresentação perto do Dragão do Mar, durante a semana da Feira da Música 2006... realmente tocante! Foi uma das coisas mais emocionantes e carregada de ancestralidade que eu já vi em toda a minha vida.

Jr. Black · Garanhuns, PE 11/12/2006 11:31
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Marcelo Cabral
 

Grande Black!
Será que, como era Feira da Música, não era algum grupo de Guerreiro aqui de Alagoas se apresentando por lá? Acredito que sim, nunca ouvi falar da ocorrência desse brinquedo em outro estado e fiquei curioso.
Alguém do Ceará tira a dúvida?

Marcelo Cabral · Maceió, AL 11/12/2006 11:41
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Artur Finizola
 

Ao que me lembro, o guerreiro é o único folguedo genuínamente alagoano, mas posso estar enganado...

parabéns marcelão pela matéria, já tinha visualizado ela desde a fila de edição...

abraços companheiro

Artur Finizola · Maceió, AL 11/12/2006 11:57
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Jr. Black
 

Hum... possa crer. Alguém do Ceará, se chegue, que eu vou buscar uma cachaça.

Jr. Black · Garanhuns, PE 11/12/2006 12:03
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Artur Finizola
 

Fala Jr.Black, você por acaso é do Negroove velho? Caso seja, estive em seus shows aqui em Maceió, fiz um som junto com o Pirralho na última vez que vocês estiveram por aqui... de cima o som de vocês. Parabéns.

Artur Finizola · Maceió, AL 11/12/2006 12:19
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Erika Morais
 

Salve Mestre Benon e o Guerreiro.
Parabéns Marcelo por mais uma vez mostrar as riquezas de Alagoas.

Erika Morais · São Paulo, SP 12/12/2006 13:33
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Jr. Black
 

E apôi, Artur, muito obrigado! Vai uma lapada?

Jr. Black · Garanhuns, PE 13/12/2006 19:13
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Artur Finizola
 

Mas é lógico que sim. Aqui também somos bons nisso. :)

Artur Finizola · Maceió, AL 17/12/2006 11:48
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Diogo Braz
 

Ótima matéria Marcelo! Cresci ouvindo que o Guerreiro é uma manifestação folclórica genuinamente alagoana, assim como Alagoas é o estado brasileiro com maior número de folguedos populares. Mas, Artur, acho que o Guerreiro não é a única expressão folclórica genuinamente alagoana. O Reisado também não é? Mas eu é que posso estar enganado.

Parabéns pela matéria, e pelos complementos em imagem e áudio!

Abraço pra todos!

Diogo Braz · Maceió, AL 23/5/2007 10:18
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Figuras do Guerreiro zoom
Figuras do Guerreiro
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Sede do Guerreiro Treme Terra
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Praça em frente à Sede - Lagoa Mundaú

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