ALDEIA CULTURAL E O GUERREIRO DE SÃO JORGE
O número de palavras aqui por maior que fosse não expressaria o que se passou no VIII Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros. Ouvi de turistas:
- Contar o que se passa aqui é impossível, só mesmo presenciando!
Os sons e os semblantes fazem da pequena vila de São Jorge uma grande aldeia cultural. Todos são iguais aqui desde o artista global, o palhaço, o kalunga, o folião e o mamelungo. Os dias emendam com as noites festivas.
Na primeira semana na aldeia multiétnica 17 etnias mostram ao mundo a força da união indígena e depois de cada uma fazer sua dança e sua comida, num gesto de paz assinam a moção para a Raposa do Sol.
Dentre as etnias alguns solitários como os avá-canoeiros e um korubo do Acre sensibilizam as pessoas e mostram o valor do indígena.
O guerreiro de São Jorge se esconde entre a multidão através do esverdeado dos olhos muita emoção, é um olhar conhecedor do mundo e do instante em que vivemos....
O guerreiro é firme e pintado, coroa na cabeça, descalço ou uniforme no palco, ele sabe o que quer e consegue. Comanda uma multidão com palavras dóceis e o olhar rápido sabe que o objetivo se cumpre na Chapada dos Veadeiros. Busca e encontra o Grande Espírito na voz do mestre Júlio, nas palavras fortes do Schiavini, na dança krahô, no sorriso do hippie e na força do Kashalpynya.
O pacto com a música e o ritmo é selado na entrega da bruaca a Djalma Correa que fica estático de alegria. Kazadi se torna um meninão sábio entre a multidão. Marise ensaia as batidas do tambor e a meninada diz:
-Tem uma doida tocando tambor no cerrado!
Dona Chiquinha faz o tempero e dá grandes gargalhadas: todos confirmam que o Grande Espírito está aqui.
Santuário Sagrado da Cultura é São Jorge: aqui reunidas estão culturas do mundo inteiro e em momento algum, mesmo sendo época de politicagem, nenhum candidato sobe ao palco; os artistas são os foliões, os catireiros, as donas de casa, os artesãos e a multidão que aplaude.
A arte do Moacir com mil diabos soltos pela vila e no espaço se misturam à voz do velho Josué que é um clamor pela natureza. Depois Roberto Correa toca e Badia Medeiros mostra que viola e ritmo é coisa do sertão.
O garimpo de cristal reflete nos olhares e na venda do seu Claro que continua apesar dos 80 anos, elegante atrás do balcão; ali a vida é eterna.
Os Zabiapungas espantam os demônios e o som levanta todos na madrugada começando do cemitério os tambores correm com os males. Seu Raimundo dorme em paz... No cruzeiro do cemitério um joão-de-barro vela por ele, São Jorge é mágico e Luz Quartiada eterniza essa magia.
A noite o grito rouco de Doroty Marques se junta às crianças e as lavadeiras invadem o palco e a alma de todos ao som de tambores, sanfona e violão, contando teatralmente a história da Chapada dos Veadeiros.
Parece que a festa terminou; porém o tambor de onça do Zé Lino de Colinas do Sul continua noite adentro... Os sons vão se calando e no raiar do dia há um silêncio enorme na vila.
Hora de partir ainda escuro do alto da estrada faço a última foto da Vila de São Jorge escondida entre os morros. Ficam ali os sonhos e nossos pedaços e a certeza de que somos iguais ... O objetivo se cumpre aqui...
Parabéns Juliano Basso; sem nenhuma demagogia acredito que não é qualquer um que conseguiria mostrar o que presenciamos nesse VIII Encontro que o faz com certeza um grande guerreiro: O GUERREIRO DE SÃO JORGE
Sinvaline
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Você deu uma luz especial ao evento, fazendo com que nos sentíssemos lá, apesar da afirmação de quem não viu, não sabe.
Essa comunhão, principalmente com a natureza e entre culturas representa o idela dos seres humanos, apesar de poucos, pouquíssimos, terem o poder de experimentar e, principalmente espalhar.
As imagens são emocionantes por traduzir, junto com sua narrativa, este momento ímpar.
Obrigada.
beijos
Quantas belezas vc tem para nos mostrar, menina! A coisa mais emocionante é esse encontro de culturas que nos tornam brasileiros, povo diverso e uno. bjos
Ilhandarilha · Vitória, ES 15/11/2008 10:29
Obs: a doida do tambor é um apelido carinhoso à Marise que no encontro faz a curadoria, um trabalho magnifico que dá sustentação ao evento. Marise é apaixonada pelos tambores!
bjs
sinva
Saudações Guaicuru a todos os que lutam pela preservação do sangue e da cultura nativo-americana!!!
Marcos Paulo Carlito · , PR 15/11/2008 11:33
O texto é muito belo e diverso... mostra que quem escreveu tem uma ligação profunda e espiritual com o evento. No entanto, admito que para quem está de fora... há uma dificuldade de entender um pouco certas coisas, tamanho é o número de informações diversas.
Por exemplo, o que é uma bruaca (entreegue a Djalma Correa)?
O guerreiro de São Jorge, seria o Juliano? Ele é um dos organizadores do evento?
Algumas pequenas frases contextualizando alguns personagens também ajudaria entender melhor e enrriqueceria o texto sobre o interessante encontro.
Mas são só algumas sugestões já que não cheguei há tempo na sala de edição..
Gostei muito dessa colaboração... do o Encontro Cultural da Chapada dos Veadeiros.. e realemnte a impressão que dá é que só indo para conhecer bem.
Parabéns e votado!
Que evento Sinvaline, essa aldeia global, a Vila de São Jorge , mostrando as diferenças e igualdades índigenas...Muito rico.
ab
Ia dizendo que só faltara voce. Ainda bem que voce estava lá
e registrou e contou,
abraço
andre
Votado!
Leia o meu também, por favor!
Abraço
Sinvaline, como sempre, belíssimo texto. Concordo plenamente com os elogios a Juliano Basso. É realmente uma proeza de guerreiro realizar um evento dessa magnitude em uma pequena vila perdiada na Chapada dos Veadeiros, sem estradas e com pouca estrutura. Tenho tido o prazer de colaborar com o encontro desde o início e nos últimos anos com a 'Aldeia Múlti-étnica". Já escrevi sobre isso no meu site todaserrazul.com e reforço aqui a sua homenagem. abração. Fernando Schiavini
Fernando Schiavini · Brasília, DF 18/11/2008 12:24
Oi Fernando obrigada! Que bom que vc se cadastrou, agora poste alguns textos seus aqui, tenho certeza que todos gostarão de acompanhar suas aventuras e o magnifico trabalho com os indigenas.
Bjs
sinvaline
Sinvaline,
que maravilha de texto...
riqueza de detalhes, citações e imagens fantásticas
valeu demais!
beijo,
Juliano É o verdadeiro guerreiro da Chapada. Qualquer um consegue sentir a energia que dele emana. É um branco de alma taioca.
catengo · Brasília, DF 26/7/2009 21:27
Salve São Jorge!!!
Veja... http://saojorgeplay.blogspot.com/
Juliano, conheci o trabalho em um programa de televisão, ADOREI e gostaria de saber quando ocorrerá o evento de 2011.
Eliana Martins · São Paulo, SP 25/4/2011 16:03
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