Delinquentes - Memorial do Rock 05/05/2006
Quando em 1993 as gangues de rua de Belém transformaram o festival Rock 24 Horas em uma praça de guerra, assustando a classe média local que compareceu ao avento e banindo o rock das rádios e das casas noturnas da cidade, tal e qual um Obi Wan Kenobi punk após o massacre jedi Jayme Catarro partiu para o seu exÃlio no underground. À frente dos Delinqüentes restou a ele recomeçar. Foram dez anos carregando amplificadores nas costas, tocando para 30 pessoas em bibocas malcheirosas e perdendo integrantes para as drogas e para a falta de perspectivas enquanto - amaldiçoado pelo final trágico do festival, uma espécie de Altamont amazônico - o rock perdia terreno para a axé music e era progressivamente esquecido pela juventude paraense.
Jayme sobreviveu. Lutou e chegou vivo à primeira década dos anos dois mil com 20 anos de música nas costas, testemunhando o nascimento e o fim do movimento punk paraense, a explosão e o sucesso de público do rock local no começo dos anos 90, a decadência pós-24 Horas e o renascimento do estilo como segmento de mercado quando o Suzana Flag fez as malas e se mudou de Castanhal para Belém do Pará, emplacando sucesso após sucesso com aquele hit singles pack que eles batizaram de Fanzine.
Pelo menos por enquanto, os tempos difÃceis ficaram para trás. Nada dos palcos apertados e do som vagabundo do Go Loko, da Rhynos e de tantos outros mafuás nos quais vi os Delinqüentes se apresentarem ao longo desses anos. Nessa noite chuvosa de sexta-feira eles tocam no Memorial do Rock, realizado numa praça ao lado de uma vila de palacetes do final do século XIX, com um som inacreditavelmente bom, para mil e quinhentas pessoas e com o apoio do governo do estado do Pará. De onde estou, enquanto a banda toca o terror em cima do palco, consigo ver o secretário de cultura do municÃpio e o presidente da TV estatal local em estado de graça, dançando e cantando alguns dos sucessos dos Delinqüentes.
Mudou o Sistema, esse eterno culpado por todas as dores do mundo, ou mudaram os punks? DifÃcil dizer. Jayme, por outro lado, continua o mesmo. Quando ele sobe na torre de luz do palco para cantar "Planeta dos Macacos" o faz com a mesma raiva que o levou a ser preso em 95 por desacato à autoridade durante uma batida policial a uma festa da MTV Belém, incidente que lhe serviu de inspiração para compor a música. O público, claro, adora a peripécia e aplaude o seu herói enquanto membros da produção tentam lhe tirar lá de cima com medo que ele despenque junto com a torre de luz. Beto Fares, radialista e um dos diretores do evento, aparece no backstage e ordena que deixem o vocalista em paz. Para alÃvio geral o show continua numa boa, sem grandes possibilidades de terminar em tragédia e se transformar em um
segundo Rock 24 Horas.
O que me faz, aos 31 anos, continuar a ser fã dos Delinqüentes é que eles nunca me decepcionaram. Enquanto os grupos de sua geração protagonizam revivals medÃocres e oportunistas agora que o público paraense redescobriu o underground, a banda nunca parece estar velha demais para o rock. Pegue "Cemitérios da Civilização", "Carcaças Vazias" ou qualquer outra música que Jayme tocou na noite de hoje e elas irão soar tão boas quanto soavam em 87, 94 ou 2001. Mesmo com poucas mudanças no arranjo, mesmo sendo o hardcore um estilo que não faz sentido para quem já passou dos 20 anos.
Nessas horas eu até espero que algum boçal venha me acusar de ser parcial, uma tiete anarco-punk que escreve movida pela memória afetiva e pelo saudosismo da adolescência, do mesmo jeito que os babacas que pagam uma fortuna para dançar "Piui Abacaxi' nos bailes anos 80. Pode até ser, não estivesse eu em minoria numa platéia formada basicamente por adolescentes e jovens nos seus vinte e poucos anos. Me pergunto que idade deve ter hoje em dia Gabriela, a filha de Jayme nascida no começo dos anos 90, e fico um pouco chocado ao descobrir que muita gente ali tem idade para ser seu filho. Ou mesmo de qualquer outro integrante da banda. Momentaneamente isso me tira da cabeça a idéia de
estar participando de um baile da saudade rock, embora me leve a
conclusões mais assustadoras sobre as armadilhas de se chegar à idade adulta.
Mas o que nos livra de entrar no terreno do mero saudosismo é que, ao contrário das duas bandas de abertura e o seu horrÃvel pastiche indie-pop, Jayme mantém a integridade, uma vontade atávica em fazer rock e a crença na sua lenda pessoal. Quando o grupo finaliza com "Gueto", vários integrantes da nova geração do hardcore paraense sobem ao palco para cantar o refrão junto com o seu mestre, como sempre acontece nos shows do grupo. É a mesma cena que vejo ser repetida desde os anos 80 no Bar Celeste, no Festival Variassons, nos protestos do Nuclear Pra Que?, nos shows do squat Morada da Arte e nas matinês de domingo do teatro Waldemar Henrique. Jayme já fez isso milhares de
vezes, mas sempre consegue me convencer que essa é a primeira. É o que torna a sua música tão sincera e, ao mesmo tempo, tão poderosa.
Vlad, me surpreendes. Me sinto honrado de ser o "herói" comentado na matéria ainda que, com todo o carinho e respeito dado à banda, eu tenha algumas reservas sobre ela. Mas isso também faz parte de seu jeito de fazer matérias, como quando comparas Joelma com Bono Vox (e ainda preferes a 1ª).
Mas confesso que desde uma matéria que Ismael Machado fez da banda na época do lançamento de nosso CD, nunca tinha lido algo tão criativo e honroso para nós. Se é saudosismo ou reconhecimento não importa. O que importa é que vejo sua consideração pelo nosso trabalho, e disso sou muito grato.
PS1: A música que o pessoal cantou foi "O Viciado" (com o refrão "Não Acredito") e não "Gueto". Mas tudo vira uma porradaria só mesmo. A idéia era principal era chamar músicos de bandas que não entraram no festival, assim como na edição anterior o NORMAN BATES e o MADAME SAATAN fez comigo.
PS2: As duas bandas de abertura (VIRIDIANA e principalmente, AEROPLANO), cada qual a seu modo, também agradaram com seu Ãndie-pop, e não creio que para o público tenha sido de um horrÃvel patische citado por você, mas tá valendo.
Valeu Vlad.
"E que a força esteja conosco".
Músicas da banda (do CD Pequenos Delitos, de 2000): http://www.purevolume.com/delinquentes (em breve estarei colocando sons novos, da nova formação).
Nosso fotolog:
http://www.fotolog.com/delinquentes
Vlad, seus textos têm o poder de me prender a atenção mesmo em assuntos aos quais não tenho a menor simpatia (meu namorado adora punk rock, eu não tolero muito, detesto calypso mas adorei teu texto, e por aà vai...)
Ah, e a foto também está muito legal!
Os delinquentes sao motivo de orgulho pra mim, paraense punk sangue nos olhos em sampa, de tanta bosta que vem do Pará. sim temos rock´n roll pra dar e vender e nao ficamos a dever pra ninguem, valeu, delinquentes, quem sabe um dia tocaremos no mesmo palco, sera uma honra pra nos.
abraços
brax - kaos 64
Vlad, sempre com seu texto gostoso de ler, resgata um pouco da história do rock paraense. Excelente.
Moka · Belém, PA 25/3/2007 16:51Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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