Os comentários começaram baixinho, com a notícia se espalhando feito um telefone sem fio, com muito amor e carinho. Amigos que estiveram no ensaio na semana anterior proclamaram que a boa deste carnaval seria a estréia do Exalta Rei, bloco que prometia desfilar pelas ruas da Urca uma homenagem a Roberto Carlos e sua obra em ritmo de ziriguidum.
De repente, como as ondas do mar, só se falava que o bloco de segunda era papo firme. O problema eram os horários conflitantes das informações que vinham de todos os lados: a imprensa anunciava o cair da tarde, o povo repassava pelo boca a boca que o Exalta Rei se concentraria às 15h. Por via das dúvidas, vesti a roupa de marinheira, meu bem, peguei minha rosa de pelúcia e esperei mais notícias sobre a saída. De última hora, confirmou-se o rumor popular e quem rumou para a Urca fui eu, seguida por amigos, namoradinhas de amigos meus, conhecidos que mais e mais iam abarrotando a estreita rua da mureta.
O relógio marcou as 15h, mas nada do bloco aparecer. O novo motivo de boataria era o local da saída. Uns diziam que ia, outros diziam que vinha. Só sei que segui o som e às três e tanta peguei a bateria - mínima - começando a ensaiar umas canções que Ele fez para nós e, confesso, deu medo. O pessoal parecia meio perdido com a meia dúzia de músicas que tocavam - Jesus Cristo, Caminhoneiro, Amigo, Nossa Senhora, Eu Sou Terrível - e o mestre (ou seja lá o que fosse aquele cara) resolveu tirar todo mundo do esconderijo já não tão secreto porque todos já estavam chegando atrás da folia, seguindo o som que vazava.
Temendo o fiasco, já fula da vida com a desorganização e o atraso, parei num bar pra esperar a banda passar (ops, esse é outro!) e, uma boa meia hora depois das 16h, o Exalta Rei desceu a ladeira tal qual uma força estranha, arrastando quem estava no caminho - e tinha muuuuita gente - rumo à casa do Rei. Gente jovem reunida que se acostumou a ouvir Roberto Carlos desde o comecinho da vida, lembranças dos pais que cultuavam o Rei desde a época em que ele tinha um calhambeque. O número de músicas diminuiu, o som ganhou força com o coro desafinado e embromador da multidão que não sabia as letras - me incluam nessa. Alguém aí sabe cantar Todos Estão Surdos? - e a bateria fez o recuo em frente a casa de Roberto Carlos para mostrarmos como é grande nosso amor por ele.
Crente que o Rei vivia em um palácio, só acreditei que ali era sua morada depois que os funcionários da mansão real apareceram na varanda e ele acenou para a plebe que àquela altura já não cantava mais nada, só urrava de alegria. O problema é que, mulher pequena que sou, não consegui ver a primeira aparição.
Até que Roberto Carlos, o próprio, em pessoa, vestindo seu tradicional traje azul e branco, surpreendeu a todos, mostrou que sabe brincar e desceu para o play para encarar seus súditos mais de perto, agradecer o carinho desafinado, segurar o estandarte e arriscar uma sambadinha.
Em volta, muita gente emocionada, mas tão emocionada, que o bloco deu aquela dispersada. Alguns seguiram em frente, além do horizonte, mas achei melhor parar. Para que seguir em frente se tantos momentos bonitos já tinham acontecido? Voltamos para ligar para nossos pais - e mamãe sabendo de minhas lágrimas nos olhos ficou toda emocionada - comentar as recordações com os amigos e nos recuperar do choque.
Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo. Sim, porque no próximo ano a Urca vai ser pequena para tanta gente que vai aparecer atrás do belo momento que vivemos naquela jovem tarde de segunda.
Texto originalmente publicado em http://gotoheaven.com.br/blog/
Vídeo: Roberto Carlos saúda os foliões
Vídeo: Pout-porri das músicas cantadas pelo Exalta Rei
Liv, que máximo! Cheguei de viagem neste dia e quando soube que tinha perdido o evento mais emocionante do carnaval fiquei arrasada. E que engraçado ler isso hoje, quando li também o ótimo texto da Ligia Diniz sobre o cruzeiro do Rei. Robertão dá samba, e dos bons!
Só fico imaginando a reação da Associação de Moradores da Urca, conhecida por ser meio casca grossa para defender a paz do bairro. E fico pensando se faria sentido ter um repeteco de um bloco como esse no ano que vem. Na minha opinião, não faz... Temos tantos ídolos pela cidade, devia ter uma homenagem para um diferente a cada ano! Pensando nisso, só posso lamentar que a ideia só tenha aparecido depois da morte de Caymmi, que merecia uma homenagem daquelas, em sua Copacabana querida.
Adorei o texto, morri de rir com o "sabe brincar e desceu pro play". Abraço!
Liv, incrivel isso, Os videos sao muito bons, sera' mais uma nova tradicao nascendo para o carnaval carioca?
ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 20:41
Helena, acho que a Urca ficaria pequena para outra edição do Exalta Rei. Acredito que vá ter, mas não sei se encararia desfilar novamente com o bloco que provavelmente vai ficar mais cheio do que estava, ainda mais depois de toda a repercussão positiva que ele já teve. A idéia de homenagear um novo artista por ano é incrível!
Ronaldo, tô com a Helena, acho que deveria ser coisa de um desfile só, momento único que não precisa se repetir (até porque, se o Roberto Carlos eu fosse, não acharia graça de todo ano cumprimentar foliões na porta da minha casa). Mas provavelmente vai rolar todo ano daqui pra frente, muita gente saiu dali com gostinho de "quero mais"!
Depois de ver o Rei no Cruzeiro, com os brações quase ao meu alcance, também me emocionei - igualmente de pertinho - com o rei em sua varanda no edifício Golden Bay. Esse bloco foi mesmo demais, Liv, e teu texto faz jus. (Eu me dei bem, porque fiquei comendo pastel no bar Urca, enquanto uma amiga monitorava a região da TV Tupi e peguei o bloco no comecinho, sem sufoco.) E realmente: quem não viveu não verá, porque o Rei tem súditos demais para um bairro como a Urca. Que bom que essa emoção eu vivi!
Ligia Diniz · Rio de Janeiro, RJ 26/2/2009 16:08Ah, Helena, e de acordo com um amigo que mora na Urca, a presidente da associação de moradores estava no bloco e parece ter curtido!
Liv Brandão · Rio de Janeiro, RJ 27/2/2009 12:19
Ligia, você tem noção da inveja de que é alvo pelo fato de ter visto o rei de perto DUAS VEZES só neste começo de ano, né? :)
Liv, é mesmo? Esta associação de moradores já foi mais cascuda... Mas que bom! Viva o carnaval!
Foi lindo. Muitas emoções e boas lembranças desse dia!
Lua Maria Sinoti · Rio de Janeiro, RJ 27/2/2009 18:24texto muito legal, mas gente, depois do que el rey fez em relação a sua biografia minha admiração por ele caiu uns 99%
Evandro Bonfim · Rio de Janeiro, RJ 2/3/2009 12:40Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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