“III Churrasco dos Nerds - Programa pra sexta!? Eu vou no Churrasco dos Nerds!!! Teremos vinte caixas de cerveja grátis lá”. Cartazes com estes dizeres podiam ser vistos espalhados pelas dependências do Centro de Eventos FIERGS, durante o 7º Fórum Internacional Software Livre, o FISL, em Porto Alegre. Infelizmente não pude comparecer ao churrasco, mas imagino que tenha sido bem interessante, assim como as pessoas que circulavam pelo fórum. Era possível encontrar gente de todos os tipos, de cabeludos com camisetas do Blind Guardian a executivos de terno e gravata. Mas todos estavam lá por um mesmo motivo: promover e discutir os rumos e usos de software livre, num evento já consagrado e que atraiu mais de cinco mil pessoas.
Paralelamente a isso, havia um povo interessado em mostrar que não apenas software pode ser livre. Cultura também. Entre os dias 19 e 22 de abril, aconteceu o Criei, Tive Como! – 1º Festival Multimídia de Cultura Livre, juntando cinema, vídeo, música, arte tecnologia e mídia colaborativa. Uma iniciativa do FISL, Creative Commons, Overmundo e Tangolomango, o Criei, Tive Como! trouxe a Porto Alegre artistas de diferentes áreas que produzem trabalhos de caráter livre, numa mistura no mínimo curiosa.
Projetando a liberdade
No intervalo entre palestras como O Papel da Universidade na Inclusão Digital e a Caravana da UNE e Google And Open Source, os capixabas do Cine Falcatrua troxeram a Mostra de Filme Livre (Mesmo), apresentando vídeos e filmes que permitem a livre distribuição e exibição sem fins lucrativos. O público pôde assistir a documentários, clipes e reciclagens de imagens de TV que abordam desde projetos totalmente experimentais a críticas sobre a concentração de poder midiático em poucas mãos. Tudo prezando a liberdade, sempre. “A gente fez um trabalho básico de curadoria na internet, tanto que na própria programação do evento tem a direção pros filmes na rede. Então, se você quiser, se você gostou do filme, vai e baixa. E como ele é livre, não tem nenhum problema judicial de tê-lo no seu computador”, aponta o Rodrigo Melo, um dos integrantes do Cine Falcatrua.
Gabriel Menotti, outro integrante do grupo, lembra que vários tipos de pessoas podem se beneficiar da liberdade de licenciamento: “A idéia é tentar articular como as pessoas que produzem vídeos caseiros usam a internet hoje em dia e como elas podem se utilizar desses mecanismos jurídicos pra facilitar o escoamento dos seus vídeos; como as pessoas que fazem vídeos profissionalmente podem usar esses mesmos mecanismos pra subsidiar a sua produção e também como as pessoas podem criar a partir da obra de outras pessoas, negociando com os vários tipos de licença que se pode ter atualmente”.
Qual o valor de uma obra?
Como alguém que licenciou mais da metade das faixas do seu último disco, o músico Totonho, líder da banda Totonho e Os Cabra, sabe bem o impacto que isso pode causar. O site dele na Trama é o mais visitado, justamente em função da curiosidade das pessoas em baixar as músicas. “Eu tenho oito músicas do disco licenciadas. Acho que essa é uma linguagem de negócios, em que você busca valorizar o seu produto através do poder de acessibilidade que dá a ele. E ao mesmo tempo você confia no seu taco, na qualidade da sua produção. Quem não confia é quem esconde o produto é quer vender ele fechado”, provoca o Totonho. E ainda dispara, sem receio: “Se a obra só vale 15 reais na prateleira, então ela não vale porra nenhuma”.
Tanto é verdade que no próximo CD a idéia do músico é licenciar antes mesmo de começar a gravar. Assim, nada mais lógico do que a sua presença no Criei, Tive Como!, apontando caminhos pra outros artistas. E torcendo por bons frutos daqui pra frente. “Foi um prêmio ter vindo pra cá. Eu espero que a partir de agora a gente possa conversar, trocar e construir um instrumento de diálogo pra nossa obra com perspectivas pro futuro”.
Todos pelo mesmo objetivo
A possibilidade de troca entre os artistas e profissionais de outras áreas é um dos maiores méritos do festival. Pelo menos é o que empolga o VJ pixel, responsável pela vinheta do Criei e pela abertura e imagens no show do BNegão e do Totonho e Os Cabra na sexta-feira, dia 21. “É legal estar no meio do FISL porque você vê muita gente que tem o mesmo objetivo, que quer divulgar o software livre, que acredita em liberdade de cultura, não só em liberdade. Esses programadores que estão aqui pensam “Eu quero que um monte de gente use o meu programa, por isso que eu tô liberando o uso e acho legal que a pessoa venha e modifique”. Então é muito importante que o Criei, Tive Como! esteja acontecendo dentro do FISL, porque aproxima esses dois grupos, de programadores e artistas. Ambos têm objetivos comuns. Isso é legal, todo mundo tá aqui pra isso: ajudar os outros. Todo mundo ganha com isso, ninguém perde ajudando ninguém”.
E essa preocupação cooperativa pode ser resumida na simplicidade da frase do Rodrigo, do Cine Falcatrua: “É livre porque é livre, porque é legal”. Legal como sentar no chão Centro de Eventos FIERGS e ver vários grupos de todo o Brasil e do exterior conversando com entusiasmo. Legal como sorrir tirando fotos com um pingüim gigante num stand de revista. Legal como participar de um evento que cresce a cada ano e de um festival que já estréia com grandes perspectivas. Seja falando de software ou de cultura, uma coisa é certa: o importante é ser livre.
Adorei, Edu! Só faltou falar do Dimitri com as artes digitais, no stand do Criei Tive Como!.
Vivian Caccuri · São Paulo, SP 24/4/2006 16:42
Acho importantíssimo que aconteçam eventos assim com a liberdade como tema e motivo, contudo temo pela aparentemente unânime adesão da galera-cultura-livre aos termos de liberdade propostos por licenças como CreativeCommons.
Um texto que escrevi com grilos e opiniões a respeito, "Música Brasileira: alguns direitos reservados", tá indo pra fila de votação daqui há pouco. Gostaria muito que a discussão fosse expandida, ou pelo menos desclassificada via argumentação.
Quase que eu falto no show do BNegão para ir nesse churrasco! Falando sério, o cartaz era bizarro, tipo com o Dilbert e o Wally num rodizio, sensacional
Lino · São Paulo, SP 26/4/2006 20:12
Bem lembrado, Lino.
Deve ter sido um sucesso o churrasco. Grande idéia do pessoal.
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