O inquietante cinema de Ana Carolina

Videofilmes
Antonio Fagundes, Dina Sfat e Xuxa Lopes no longa Das Tripas Coração
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Tacilda Aquino · Goiânia, GO
29/10/2007 · 123 · 18
 

Um dos primeiros textos que postei no Overmundo falava de minha admiração pelo cinema de Ana Carolina e expunha mais precisamente minhas impressões sobre Mar de Rosas, que tinha assistido há 30 anos e naquele começo de ano (o texto é do dia 14 de janeiro de 2007), quando o filme acabava de ganhar o mercado nacional em DVD, lançado pela Videofilmes. Assisti Mar de Rosas no ano em que estava entrando na universidade: 1977. Em 1982, Ana Carolina levou às telas outro filme que transformaria Mar de Rosas no primeiro de uma trilogia. Das Tripas Coração provava que Ana Carolina gostava de batizar seus filmes com frases feitas e anos depois ela faria Sonho de Valsa. Sobre os títulos de seus filmes a cineasta afirma que a idéia sempre foi reelaborar o repertório básico deste “patrimônio afetivo comum”. Os três filmes abordam explicitamente a condição feminina, apesar de tratarem de personagens em cronologias diferentes. Enquanto Mar de Rosas mergulha na infância, Das Tripas Coração disseca a adolescência e Sonho de Valsa saboreia os prazeres da maturidade.

Se em Mar de Rosas o foco era a família, agora a escola e a igreja são os mecanismos sociais em debate. A história de Das Tripas Coração se passa em um colégio de freiras que está para fechar suas portas. A narrativa é construída a partir do sonho de um interventor que chega ao tradicional colégio para encerrar suas atividades e, nos cinco minutos em que aguarda a reunião decisiva, adormece e sonha com todas as mulheres, entre alunas, professoras e demais funcionárias, que percorrem os corredores da instituição.

O filme se desenrola durante esses poucos minutos de sonho, quando esse homem se vê no cotidiano frenético da escola, ou melhor, no que ele imagina ser o cotidiano com todas aquelas mulheres: professoras histéricas e invejosas, adolescentes rebeldes, descobrindo a sexualidade e vivendo em um ambiente opressor, ele próprio componente das relações de poder que se desenvolvem ali. Dina Sfat e Xuxa Lopes são as professoras; Myriam Muniz e Nair Bello são as dirigentes; Antônio Fagundes o interventor e o desejo personificado; Ney Latorraca o padre; Cristina Pereira a serviçal. Maria Padilha é uma das adolescentes.

A exemplo de Mar de Rosas, em Das Tripas Coração a cineasta se empenha em expressar as contradições femininas, fazendo do filme um jogo de espelho em que o desejo das internas é mediado pelo desejo do interventor, que por sua vez é mediado pela visão estética e crítica da cineasta que, diga-se de passagem, está longe de fazer tratados psicológicos como muitas obras com foco no feminino parecem ser.

O clima é exacerbado e delirante. O humor do filme beira ao surreal, para não dizer caótico. É impossível não se sentir incomodada com as imagens e cenas perturbadoras. Confesso que me senti assim nos anos 80 e também agora, revendo o filme em DVD. Há cenas inquietantes e marcantes como a da masturbação coletiva das alunas que comemoram cada orgasmo como se fosse um gol. Mas hoje entendo melhor as imagens que nem sempre estão em sintonia com os textos e diálogos e com o tom em que às vezes são ditos. Isto se explica com o fato da narrativa se passar dentro do sonho do interventor, que representa o desejo proibido das adolescentes.

Cristina Pereira – atriz símbolo do cinema de Ana, ao lado de Xuxa Lopes e Myriam Muniz –, que protagoniza Mar de Rosas, está novamente em cena, mas não como Betina. A Betina que “entre os mortos e feridos” de Mar de Rosas, conseguiu se salvar, parece aterrissar em Das Tripas Coração na personagem de Maria Padilha e também aqui sobrevive para “crescer e aparecer” em Sonho de Valsa, onde funciona como alter ego da diretora aos 30 anos.

Lembranças

Rever Das Tripas Coração é reviver experiências que marcaram minha vida em 1982. Na faculdade, depois de fazer um comentário “negativo” de um filme de Ingmar Bergman na aula de cinema e ouvir do professor – Hélio Furtado do Amaral – um “quem é você para falar mal de um dos maiores gênios do cinema?”, pensei seriamente em manter distância dos filmes. Mas a paixão pela sala escura foi maior. Ana Carolina contribuiu para o aprofundamento desta paixão. Das Tripas Coração também. Nos anos 70, a presença de mulheres por trás das câmeras era uma raridade no Brasil. E a mulherada da minha geração se sentia orgulhosa de ver Ana Carolina emergindo como uma cineasta vigorosa e radicalmente autoral que insistia em apresentar questões femininas que a sociedade via como tabu.

Lembro-me bem do desconforto de ver Cristina Pereira recebendo uma aula particular de sexo. E a cena de masturbação coletiva? Agora, revendo o filme, achei ironicamente hilárias as seqüências de Ney Latorraca, travestido de padre, urinando pelos cantos da escola. E altamente provocadora-- não mais chocante e ultrajante – como nos anos 80 –, a cena em que uma aluna resolve satisfazer suas necessidades na igreja, em frente ao altar e em plena missa, bem no meio do sermão, sob os aplausos e gritos das colegas. E eu, naquele tempo, ainda acreditava na Igreja Católica. A ponto de passar as manhãs de domingo na paróquia do meu bairro, ajudando na celebração das missas.

Outra coisa que sempre me chamou a atenção na filmografia de Ana Carolina foi o deslocamento semântico em que os clichês verbais ou visuais ganham novos sentidos ao mudar de contexto para enfatizar as características dos filmes, pautado por chavões, lugares-comuns e figuras de linguagem. Um exemplo: ao se sentir pego para Cristo, o interventor toma o lugar do próprio no crucifixo. É como se até Jesus se revoltasse diante de tanta lascívia que corre solta no colégio.

Sempre que penso em Mar de Rosas me lembro da frase que li há muitos anos em um pára-choque de caminhão: “De que adianta a vida ser um mar de rosas se eu não sei nadar?”. De Das Tripas Coração guardo lembranças como tentar explicar o significado para uma amiga americana que estava passando algum tempo no Brasil no início dos anos 80. Em vão. Somente anos mais tarde cheguei perto, usando “Fall over oneself”, que na verdade seria mais “fazer de tudo”.
E que tal Sonho de Valsa? Propaganda do bombom? Longe disso, principalmente quando se vê que o filme em questão mostra a heroína Teresa “entrando pelo cano”. --anos mais tarde me lembrei da cena assistindo Trainspotting, de Danny Boyle--, “engolindo sapo” e chegando ao “fundo do poço” – expressões retratadas em seu sentido literal pelas imagens no filme - para perceber que deve encontrar sua identidade antes de tudo, livre do amor idealizado que lhe foi projetado como o sentido de sua existência.

O filme serve ainda para matar a saudade de três grandes atrizes: Dina Sfat, Myriam Muniz e Nair Bello. A primeira morreu de câncer aos 50 anos, depois de firmar sua personalidade sempre densa, dramática e cheia de sutilezas em filmes como Jardim de Guerra, 1970; Tati, a Garota, 1973; Álbum de Família e Eros, o Deus do Amor, ambos de 1981; Das Tripas Coração, Tensão no Rio e O Homem do Pau Brasil, todos de 1982, sendo que neste último interpreta a pintora Tarsila do Amaral. Sem esquecer Macunaína, naturalmente.Myriam Muniz participou de três filmes dirigidos por Ana Carolina: Mar de Rosas (77), Das Tripas Coração (82) e, o mais recente, Amélia (2000). Ela morreu em 2004. Nair Bello, a grande humorista que faz o público rir como uma das dirigentes do colégio de Das Tripas Coração, faleceu em abril deste ano.
Recentemente assisti Amélia e devo confessar que minha admiração por esta excelente cineasta só aumentou ao longo dos anos. Pena que Ana Carolina filme tão pouco. Mas vale a pena se aventurar pela trilha nada batida dessa cineasta que soube desbravar o difícil mar do cinema brasileiro.



Filme:Das Tripas Coração
Direção: Ana Carolina
Fotografia: Antonio Luiz Mendes
Elenco: Dina Sfat, Antônio Fagundes, Xuxa Lopes, Ney Latorraca, Christiane Torloni, Nair Bello, Othon Bastos, Alvaro Freire, Stela Freitas.
Produção: Anibal Massaini Neto
Roteiro: Ana Carolina
Duração: 100 min.
Ano: 1982
Distribuidora: Videofilmes
Preço médio: 45 reais


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Rubenio Marcelo
 

Gostei demais. Obrigado, pelo convite.
Voltarei para votar.
Enquanto isso, vou ler novamente...

Rubenio Marcelo · Campo Grande, MS 26/10/2007 18:10
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Nivaldo Lemos
 

Tacilda, querida,
estou de saída, mas amo Ana Carolina. Na segunda, leio com calma e comento e voto. Obrigado pelo convite.

Bjs.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 26/10/2007 19:08
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Cintia Thome
 

Mar de Rosas. Cineasta de primeira grandeza. Lembrei-me de Dina, mulher guerreira a qual tive o a honra de conhecer quando morei no Rio num dia chuvoso, em um lugar sem luzes e nada global...Saudade. Cotidiano...que pena que foi uma vez.
Teu texto é bárbaro. Vou salvá-lo e ler com cuidado. Um abraço Tacilda.
.

Cintia Thome · São Paulo, SP 26/10/2007 19:56
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Saramar
 

Eu estou lendo, mas aos pedaços.
Venho depois que ler tudo.
Obrigada por essa aula.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 26/10/2007 22:41
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querida Tacilda:
É uma pena que você tenha problemas com a digitação pois o seu texto é não apenas excelente mas também contundente, embora eu sinta, pela seriedade com que segura o peão na unha, um pouco de falta não sei se de de humor ou de relaxamento. O fato é que você se mune de suas percepções e argumentos e, partindo no princípio, dá o recado até o final, sem maiores digressões, como num plano pré-traçado. Para um leigo em Ana Carolina, uma grande aula embora o volume de informações pudesse ser melhor dosado.
Sentimento paradoxal eu experimentei quando você cita o filme mais recente da cineasta sem comentá-lo. Eu, que acabo de reclamar do volume de informações, fiquei curioso em saber porque, tendo visto Amélia você deva "confessar que minha admiração por esta excelente cineasta só aumentou ao longo dos anos".
Creio que "O humor do filme beira o surreal" e não "O humor do filme beira ao surreal"

beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 27/10/2007 01:18
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Roberta Tum
 

Tacilda,
mergulhei na sua aula de cinema, e memórias da década de 80 num fôlego só. Quando puder quero ver o filme, se não por tudo que vc disse, pelo menos para matar as saudades de Dina Sfat, grande musa da TV brasileira (é de lá que me lembro dela).
Não tinha estas referências sobre o cinema nacional, nem conhecia Ana Carolina. Agradecida pelo convite e pelo texto!
Abraço!

Roberta Tum · Palmas, TO 28/10/2007 16:27
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Sinvaline
 

Oi Tacilda votado com muito prazer, amei o texto, coisas novas pra mim.
obrigada
sinvaline

Sinvaline · Uruaçu, GO 29/10/2007 11:06
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Nivaldo Lemos
 

Tacilda,
voltei para ler, votar e dizer-lhe que a matéria está excelente e resume de maneira bastante lúcida a pequena e genial filmografia de Ana Carolina. Como você, também fiquei extremamente perturbado com o cinema de Ana Carolina, especialmente com os filmes Mar de Rosas (o primeiro que vi) e Das Tripas Coração. Ambos fazem - a partir da reinterpretação dos clichês 'masculinos' do universo feminino - uma releitura da condição da mulher em nossa sociedade autoritária, machista e repressora - especialmente no que se refere à sexualidade, à família e à religião. E, como você bem lembrou, faz isso com toques de humor ácido e crítico que muitas vezes beira o non sense. Amo o cinema de Ana Carolina, que - ao lado de Tizuka Yamasaki - reputo das maiores cineastas brasileiras e só lamento também que filme tão pouco. Parabéns pelo texto crítico e muito bem escrito.

Um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 29/10/2007 11:53
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Cida Almeida
 

Tacildinha, que bom ler você novamente! Tomara que apareça mais por aqui. Saudade das suas palavras entrelaçadas aos filmes que vejo, sempre trazendo aquele detalhe que não fui capaz de perceber. Assisti muitos filmes levada pelo seu olhar crítico. Nós, os leitores goianos, continuamos na expectativa de que volte logo à crítica de cinema.

Beijo grande!

Cida Almeida · Goiânia, GO 29/10/2007 13:05
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Tacilda Aquino
 

Pois é Joca, você tem razão quando diz: “é que você se mune de suas percepções e argumentos e, partindo no princípio, dá o recado até o final, sem maiores digressões”. Isto é resultado de quase 30 anos fazendo crítica de cinema para jornal e escrevendo textos jornalísticos nos quais o que menos importava era como o filme atingia a crítica quando ela se travestia de mera espectadora.
Sobre Amélia, vou me redimir fazendo um comentário aqui tão logo possa. Não o fiz desta vez porque como você pode ver o texto, falando de Mar de Rosas e especialmente de Das Tripas Coração, ficou enorme. E eu nem falei que meu filme predileto de Ana Carolina é Sonho de Valsa. Mas esta é uma outra história...

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 29/10/2007 13:42
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Tacilda Aquino
 

Roberta, se tiver chance, veja mesmo. Tenho certeza que você vai gostar. Obrigada pelo comentário carinhoso.
Nivaldo, suas considerações sobre o cinema de Ana Carolina não podiam ser pertinentes. Os filmes que ela realizou são instigantes e trazem um olhar feminino e provocador que questiona a onipotência masculina da época, mesmo falando da histeria das mulheres e os distúrbios psicológicos que as elas exprimiam quando confrontadas às regras e aos valores sociais que exigiam de todos um comportamento padronizado.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 29/10/2007 21:40
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querida Tacilda:
Desculpe, meu bem, mas creio que vc queria dizer que as considerações do Nivaldo não podiam ser mais pertinentes"
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 29/10/2007 23:27
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Tacilda Aquino
 

Joca, você tem razão. Como sempre. Obrigada pela correção.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 30/10/2007 07:22
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Cecilia de Paiva
 


cinema instiga ver, falar e saber mais dos muitos trabalhos bons, pioneiros. gostei da dica e vale apreciar o dvd.

Cecilia de Paiva · Campo Grande, MS 30/10/2007 16:53
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Ilhandarilha
 

Confesso que não compartilho muito com vc essa admiração por Ana Carolina em das Tripas Coração. Embora adooore Amélia, acho a Ana alegórica demais pra mim. Mas seu texto instiga a rever Das Tripas e ver Mar de Rosas.

Ilhandarilha · Vitória, ES 31/10/2007 10:38
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Nivaldo Lemos
 

Tacilda,
voltei para votar.
Bjs

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 31/10/2007 10:43
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Guilherme de Faria
 

Parabéns pela matéria oportuna sobre essa grande cineasta que sempre admirei. Ana Carolina é o que se pode chamar de "mulher gênio", uma das poucas que atingiu esse patamar no cinema. A força e originalidade de sua obra formam um corpo homogêneo e coerente afirmando uma visão feminina de mundo perturbadora e inusitada, incluindo inclusive um senso de humor alucinante e até um tanto surrealista. Sou apaixonado por ela há muito tempo, como sou mais recentemente por outra mulher-gênio, a poetisa Alma Welt.

Guilherme de Faria · São Paulo, SP 6/6/2008 06:26
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Tacilda Aquino
 

Guilherme, Ana Carolina é mesmo genial. Que bom que você gostou do meu comentário.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 10/6/2008 09:16
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