Imagine jogar sinuca dentro de um autêntico salão do início do século XX, nas mesas onde jogaram os grandes mestres, bebendo cerveja gelada e apreciando uma das mais belas vistas do centro. Este paraíso da boemia carioca fica na praça Tiradentes, endereço dos Bilhares Guanabara e Guarany.
Começamos nossa viagem pelo Rio Antigo no Salão Guarany, o mais antigo da cidade com os seus 111 anos, ainda em pleno funcionamento. O nosso Guia nesse universo da sinuca é o próprio dono do salão, gerente e faz-tudo, Francisco José dos Santos Leal, o Chico, que nos contou um pouco da história do lugar e do jogo no Rio de Janeiro.
“A época de ouro da sinuca no Rio foi nas décadas de 50, 60. A casa ficava tão cheia que enquanto o sujeito aguardava a sua vez para jogar, cortava o cabelo e fazia as unhas dentro do próprio salão”, apontando para o mezanino onde funcionava a barbearia.
Naquela época havia no centro da cidade aproximadamente 25 salões, a grande maioria com licença para funcionar como barbearia e manicure.
“Era comum ver senhores entrando a uma da tarde e saindo à noite, com a barba aparada e unhas feitas, prontos para a boêmia”.
O salão Guarany conta com oito mesas oficiais, na maior parte do tempo disponíveis. “A mais nova aqui tem 60 anos. Ainda tenho mais quatro desmontadas que também são dessa época”.
Visitar o Bilhares Guarany é dar um mergulho no Rio antigo, não é à toa que o salão serve de cenário para filmes, como o documentário Meu tempo é hoje sobre Paulinho da Viola, e recentemente para o filme de Ricardo Van Steen, Noel - poeta da vila, sobre a vida do eterno Noel Rosa.
“Durante um momento de sua vida, Noel morou perto da praça Tiradentes e gostava muito de freqüentar sinucas. A história que os jogadores antigos contam é que ele jogou muito no salão. As probabilidades são grandes, por isso a equipe de filmagem achou bom filmar por aqui.”
Do outro lado da praça está o Bilhares Guanabara, administrado pelo advogado José Moreira, que tem a fama de xerife gente boa no salão.
O salão do Seu Zé é provavelmente um dos mais bonitos do Rio, com a famosa varandinha com vista para a praça Tiradentes - perfeita para esses dias de verão - e com 16 mesas impecáveis, o salão é ponto de encontro de mestres do taco como Jairzinho, que costumam ensinar àqueles que querem aprender os segredos do jogo.
Entre as personalidades que já freqüentaram o Guanabara estão muitos artistas, do calibre de Zé Ketty, Ataulfo Alves e Mário Lago, que após as suas apresentações iam se divertir no salão. “Mario Lago tinha sua turma, gostava daqui. Mas não jogava muito bem não”, relembra o aposentado Benito dos Santos que há 58 anos joga no salão.
Quando comprou o salão na década de 80 a jogatina tomava conta do lugar, era comum ver gente apostando e criando confusão. A polícia, segundo Moreira, chegava a prender 20 pessoas em um mesmo dia no local. “Levei cinco anos pra expulsar os pilantras daqui”.
Assim como o Chico do Guarany, Seu Zé afirma que a sinuca não é um negócio rentável: “Eu só coloco dinheiro aqui, não tiro”. Já Chico diz que se arrepende de ter investido no salão, afirmação que se contrapõe ao seu entusiasmo quando fala sobre sinuca, e sobre o Guarany.
O amor a sinuca fez com que o dois, mesmo com toda as dificuldades, preservassem parte da alma de um Rio Antigo que já não volta mais.
Os dois salões ficam abertos de segunda a sábado, de meio-dia até a saída do último cliente. Boas tacadas
Serviço:
Bilhares Guarany, praça Tiradentes, 87, Centro Preço: R$8,40 até às 18:00 após R$10,80
Bilhares Guanabara- Rua Pedro I, 7, Centro. Preço: R$ 12
Beleza Rodrigo. Aliás a história cultural da Praça Tiradentes ainda está para ser contada. A música popular, notadamente o samba, passou por ali e pelos salões de sinuca do centro do Rio.
Como sugestão acho que você deveria dar uma linha em branco dividindo alguns parágrafos para "arejar" mais a matéria. Sabes o preço da hora da mesa no Guarany? Grande abraço.
valeu pelo toque Egeu. É isso ai, não apenas o samba mas todos os artistas da RRRRRádio Nacional frequentavam os salões, como tb os políticos da época que o Rio era a capital. Um Passeio que eu recomendo para todos os amigos, que gostem de sinuca ou não. A vista desses dois salões para a praça Tiradentes é como voltar no tempo de um Rio Antigo que o tempo levou. abraços
Rodrigo Nogueira · Rio de Janeiro, RJ 16/1/2007 17:59
beleza, Rodrigo! a primeira publicação no Overmundo a gente nunca esquece! rsrsrsrs - uma sugestão: você poderia colocar dicas sobre as várias sinucas no Guia do Rio - abraço!
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 18/1/2007 15:09
É isso aí, Rodrigo! Ótima matéria!
O título me remeteu ao filme homônimo baseado em Malagueta, Perus e Bacanaço, do saudoso João Antonio - boas lembranças guardo das sinucas do Rio. Tem uma boa na Lapa - boa, eu digo, é assim bem caída, mas do jeito que os bons jogadores procuram (eu não sou um deles, claro).
Obrigado Fábio. O título foi uma homenagem ao filme do Maurice Capovilla de 1977. O elenco conta com Lima Duarte, Gianfrancesco Guarnieri e Maurício do Valle interpretando os malandros e ainda tem a participação especial da lenda da Sinuca Walfrido Rodrigues dos Santos, o Carne frita mostrando a sua categoria na mesa. Ótimo filme, aliás temos poucos filmes sobre sinuca no Brasil, uma pena.
A sinuca que você fala não seria a Sinuca da Lapa, na rua Riachuelo?
É esse filme mesmo, Rodrigo, só me escapou na hora a ficha técnica. ;-)
Não sei se é essa a sinuca; é uma perto dos Arcos, quase em frente a um posto de gasolina. Será essa?
Olá, Rodrigo: um prazer receber seu comentário e também saber que vc é um grande leitor de Borges. Também sou fã dele e tenho quase todos os seus livros que são para mim uma inesgotável fonte de leitura, afinal como ele próprio dizia devemos estar constantemente relendo os mesmos livros.
um grande abraço e que delícia o seu texto, evocando uma parte da história da boemia carioca nas décadas de 1950 e 1960.
Essa sinuca não existe mais Fábio. Ficava na rua do Raichuelo quase nos Arcos (o posto de gasolina ainda está lá)
Mas tem outra perto do outro lado da rua...
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