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O jornalismo e a decisão destemperada do STF

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Flávio Herculano · Palmas, TO
1/7/2009 · 6 · 4
 

Opinião, cada um tem a sua. E como vivemos em uma democracia, todos podem expressá-la, num papo de botequim, na fila do banco, em rodas de amigos, no encontro com o vizinho à porta de casa e também por meio de artigos de jornal, spams, blogs, do Twitter, do YouTube ou de qualquer outra ferramenta. O que não se pode é confundir esta difusão da opinião com a prática do jornalismo.

Ao derrubar a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão, o Supremo Tribunal Federal misturou alhos com bugalhos, justificando que, com a medida, está preservando a liberdade de expressão, um direito constitucional. Com o mínimo de discernimento, podemos constatar que o julgamento do STF foi pra lá de mal ajambrado, errando neste que seria o mérito da decisão.

Ora, as excelências do STF deram seu parecer sem refletir sobre a base do jornalismo, que é a isenção, chamada em nosso jargão profissional de “objetividade”. Nós jornalistas trabalhamos com a apuração de fatos, buscando pela verdade, ouvindo versões e opiniões – as alheias, não publicando as nossas próprias – e submetendo os textos à linha editorial que é estabelecida pelo dono do jornal de acordo com seus interesses financeiros ou políticos. Portanto, entre todos os cidadãos, contraditoriamente, o jornalista é quem menos expressa seus pensamentos.

Assim, o STF, ao estabelecer que qualquer um pode exercer a profissão de jornalista, não ampliou nem mesmo garantiu as condições para as pessoas se expressarem. Quem antes podia exercer este direito, continua podendo. Quem procurar pela livre expressão no jornalismo jamais encontrará.

Ao invés de benefícios, a decisão do STF só trouxe prejuízos à sociedade.

Num mundo que prima pela profissionalização, adquirida em cursos superiores e de pós-graduação, o STF vem a público estimular o amadorismo, dizendo que para ser jornalista basta “chegar fazendo”, sem um nível mínimo de estudo, sem o conhecimento sobre o formato de cada mídia, sem a formação humanística e sem o debate dos ambientes universitários sobre a ética e a legislação que regem o jornalismo.

Claro, o mercado pauta a si mesmo e os bons veículos de comunicação, comprometidos com a qualidade da informação, vão continuar buscando por profissionais diplomados e experientes. Porém, a decisão do STF dá total liberdade para que os jornais picaretas (e eles são muitos) contratem (a baixos salários) e explorem estudantes de jornalismo e (o que é pior) curiosos - o que, até agora, só acontecia ilegalmente, por debaixo dos panos.

Para a nossa classe profissional, o pior prejuízo é que se arrefecem as lutas por melhores salários e por melhores condições de trabalho. Para a sociedade, as perdas são piores.

Com a decisão do STF, o interesse financeiros dos donos de jornal podem se sobrepor livremente à qualidade da informação - o que compromete especialmente mercados de comunicação como o daqui do Tocantins, onde existem poucos anunciantes da iniciativa privada e onde centenas de pequenos jornais vivem na dependência das verbas publicitárias do poder público, cujos pagamentos vivem em atraso desde os tempos da criação do Estado. Aqui no Tocantins, como em outros estados e cidades de economia frágil, a auto-regulamentação do mercado tende a comprometer a qualidade da informação, com todos os riscos que isto implica.

Ministro Gilmar Mendes, as questões relacionadas ao exercício do jornalismo são um pouco mais densas do que você julga. A profissão de jornalista não pode ser comparada com a de cozinheiro. Uma notícia mal elaborada ou com temperos em excesso pode causar muito mais mal estar que um prato que passou do ponto.

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Higor Assis
 

É isso e muito mais Flávio, muito mais ...

Higor Assis · São Paulo, SP 1/7/2009 12:05
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victorvapf
 

Eu acho que foi uma decisão acertada do STF... Precisamos mais de qualidade... De que vale um diploma se num Jornal Nacional as noticias são relegadas a segundo plano dando prioridades as estatisticas e as publicidades da Casa da Banha?
Acho que o jornalismo e uma coisa nata, como a pintura a poesia... Quando agrada e atinge os objetivos, ninguem pergunta se tem diploma ou nao...

victorvapf · Belo Horizonte, MG 2/7/2009 16:41
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Amarildo Barbosa
 

Flávio seu texto é tão consistente que vou enviar a todos os meus contatos. O "victorvapf" de Belo Horizonte justifica a posição favorável à decisão do STF com argumentos que corroboram sua ignorância em relação ao assunto.

Amarildo Barbosa · Salvador, BA 2/7/2009 21:53
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Flávio Herculano
 

Victorvapf,

Não vejo qualquer aproximação entre jornalismo, pintura e poesia. Jornalismo não se faz para fruição estética, mas para informar o cidadão. Não escrevemos por estar inspirados a falar de um tema. Corremos atrás do que é notícia. Ao contrário de poetas e pintores, batemos cartão de ponto e recebemos, a cada dia, uma extensa pauta de trabalho a ser cumprida.

Se o jornalismo já não está sendo praticado corretamente (segundo sua crítica), imagina quando estiver sendo feito por inúmeros amadores.

Flávio Herculano · Palmas, TO 3/7/2009 11:24
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