O lirismo de Ominho: literatura para todos

adaptação minha de foto da comunidade sobre o poeta no Orkut
Poesia para todos os públicos é o que se encontra em "Ominho", de Sodré
1
Ériton Berçaco · Muqui, ES
6/8/2007 · 219 · 4
 

Quando elegi o livro Ominho, do escritor capixaba Paulo Roberto Sodré, como objeto de análise de um breve ensaio para a disciplina “Literatura infantil e juvenil”, do curso de graduação em Letras, nada sabia de sua temática e de como era elaborada sua estrutura formal. Já na primeira leitura, pude perceber a riqueza de suas figuras de linguagem e a forte contribuição estética para o campo literário. Logo, equivocadamente, deduzi: Ominho não é um livro para crianças, é complexo demais, certamente um leitor
inexperiente não alcançaria sua elaboração poética.

Cheguei a esboçar meu ensaio cujo título era: Ominho: uma história de homem pra homem. Sim, parecia-me um poema em prosa que, mesmo se tratando de uma publicação editorial voltada para um público infantil, não era senão, uma obra de “gente grande” que deveria ser compreendida por um leitor, digamos, maduro. Bastaram-me, portanto, dois “puxões de orelha” para que revisse minha impressão anterior acerca da obra analisada. O primeiro veio da própria professora da disciplina para a
qual eu deveria desenvolver o ensaio, “Literatura Infantil e Juvenil” - que, diga-se de passagem, já traz em si a polêmica dessa denominação.

O segundo, e talvez o mais provocante para minha percepção, veio quando da leitura de um ensaio sobre a recepção da literatura pelos públicos infantil e adulto, de Andréia Delmaschio, resultante de uma pesquisa com os dois públicos após as leituras de Ominho, de Paulo Sodré e de Livro sobre nada, de Manoel de Barros. No ensaio, Delmaschio fala de sua pesquisa e expõe as impressões acerca de seu estudo. Entre outras coisas, ela diz: “Ominho, pelo tratamento formal e profundidade temática, é capaz de agradar a leitores de idades variadas, sendo que para os menores sobressaem os aspectos formal e material”.

Não me contentava com tal constatação, o título do meu ensaio anteriormente elaborado me parecia muito pertinente, mas após outras leituras e, em definitivo, ao ler o que disse um menino de treze anos de idade, na pesquisa de Delmaschio, consegui me aproximar de algo que a ensaísta havia concluído: “... é possível construir obras literárias de valor destinadas ao público infantil sem cair no vício da linguagem puerilizante, da temática moral e didatizante.”. Certamente era no vício daquela linguagem que eu havia caído e com base nela traçado um caráter equivocado do livro de Sodré. Reconheci, portanto, que Ominho era uma história rica do ponto de vista formal - a maneira como o texto se apresenta, a distribuição das linhas, dos versos - e semântico - a capacidade de produzir sentido (s), significado (s) -, e que poderia ser apreciada por leitores de diferentes idades. Como disse o jovem leitor de treze anos “ele (Ominho) é de um estilo diferente, mostra a vida de uma criança que vê a vida como uma poesia”.

Este livro de Sodré foi o quinto volume de uma coleção voltada para o público infantil. No entanto, mesmo sendo abordada a infância de um menino - suas relações e sensações acerca da vida e da natureza - estas se dão sob o olhar de um homem, o sujeito poético - isto é, quem fala: a voz do poema -, que recorda momentos de sua infância e da presença materna, descrevendo-as à sua maneira, sem uma preocupação com a linguagem pueril, o que pode nos levar a caracterizar, equivocadamente, sua obra como uma escrita voltada a um público específico, no caso, o adulto. Uma evidência disso deve-se à riqueza metafórica e à construção poética bem elaborada, que sugerem uma leitura atenta, uma leitura que, preconceituosamente, julgamos ser exclusiva de um leitor mais criterioso, ou, amadurecido. Mas, uma vez desnudos de tal preconceito e diante do estudo da pesquisadora Delmaschio, pode-se constatar que a leitura de Ominho não exclui o leitor infantil. E, se a literatura, como afirma Antonio Candido “é o sonho acordado das civilizações”, deve-se admitir imaginar que é desse sonho que Ominho se põe texto, se edifica, para todo aquele que se coloca como seu leitor.

Citando a pesquisadora Glória Maria Pondé, em seu ensaio “Poesia para crianças: A mágica da eterna infância”, " a linguagem da poesia é econômica porque opera basicamente com imagens e símbolos, abolindo inclusive, nos tempos modernos, palavras de ligação e tudo o que é supérfluo, para maior identificação do leitor com a emoção do poeta".

Embora apresente cortes, a narrativa de Ominho segue uma certa ordem, que se não é a tradicional, encontrada nos contos de fadas, também não chega a ser aquela típica da linguagem dos sonhos, em que as situações e os espaços surgem sem obedecerem a uma sistemática, ou a uma ordem e coerência lógicas. Ao que parece, essa ordem, no livro de Sodré, seria a da memória de Ominho. Esta, a memória, é que torna vivas as lembranças de um tempo outro, e que, de algum modo, faz com que o sujeito lírico - ou o personagem que expõe seu ponto de vista no poema - não se desapegue de suas lembranças, nutrindo-se de cada recordação, de cada sussurro do passado que o remete à infância e que, também, por meio das sensações – gosto, cheiro, tato, visão, audição – traz a infância para o tempo atual. A não linearidade dos tempos verbais – ora os verbos estão no presente, ora no passado, num mesmo período – denuncia a confluência de tempos distintos na narrativa: o da infância e o da idade adulta.

Em Ominho, ao que parece, as recordações que tecem a teia poética têm origem no nascimento de Ominho, no colo de sua mãe, e segue por sua descoberta pelas coisas do mundo, que caracteriza “a passagem do tempo [...] sempre envolta do mergulho no imaginário, sendo simbolizada por imagens como a do riacho, que marcam o afastamento da mãe”.

Mamãe me colocava no colo
que me anoitecia em “era uma vez”

mamãe tinha dedos de avencas
perto de riacho

Essa relação do filho com a mãe aponta para a própria interação da linguagem poética de Ominho com a de textos tradicionais. Para iniciar sua poesia narrativa, Ominho foge do tradicional “era uma vez”, o que supõe uma possível ruptura e inovação formal, no que diz respeito à estrutura narrativa. Um abandono de uma velha estrutura, retomada apenas pela fala da mãe que o adormecia com tradicionais histórias infantis. Essa retomada do uso, embora de forma deslocada na estrutura do texto, parece não nos deixar esquecer da tradição dos contos de fadas, ao passo que brinca com isso; pois, ao lançar mão do “era uma vez”, ao fim do segundo verso do poema, o sujeito lírico utiliza a tradição para dizer que a abandonou. Num segundo momento, a referência aos tradicionais contos de fada é clara e reforça essa idéia de retomada da tradição como fonte da imaginação do eu lírico, por meio das histórias que a mãe lhe contava: “eu não sabia que joão e maria juntos/ tinham mapas de pão para os doces”. Esta é uma referência explícita ao conto dos Irmãos Grimm.

Se em um momento a mãe representa a tradição, em outro, paradoxalmente, é ela quem faz com que o menino enxergue o mundo com outros olhos e, por meio de um olhar
outro, tome decisões, como no verso em que diz

Sou cigano desde o dia
Em que mamãe disse
“os jardins estão no bico dos colibris,
Ominho!”

Jardins no bico dos colibris e não o contrário, assim como em outro verso em que diz “e o mundo está no passo dos ciganos”, em vez de os ciganos estarem submissos ao mundo. Essa imagem metonímica parece encantar Ominho, o que o faz apreciar o mundo e suas sensações com uma postura diversa da tradicional. Daí um leque de descobertas se descortina diante dos olhos do menino Ominho e, a partir delas, ele faz suas próprias escolhas:

eu não sabia que os cheiros diziam cores
[...]
o som da primavera com o verão
ilumina mais os montes

Por meio de figuras sinestésicas – cheiros que dizem cores, o som que ilumina os montes – Ominho constrói sua experiência com o mundo por meio das sensações. Ricas sensações com as quais orienta seu olhar e tece sua poesia.
Falando da especificidade de uma possível Literatura Infantil, segundo Glória Maria Pondé, “poucos textos mereceriam destaque, uma vez que a preocupação primordial dos seus autores não era a estética. Daí a classificação desse gênero como subliteratura”. Aqui, o autor subverte essa tendência tradicional nos contos infantis. A estética é algo de que se compõe sua poesia e que a torna rica em construções imagéticas. Assim, Ominho propõe outras alternativas para a literatura infantil e para seus leitores, pois, por meio da poesia, cria “novas linguagens” e respeita “o mundo da criança, que tem uma lógica particular e característica”.

Cresci quando ascendi estrelas
Com uma caixa de fósforos vazia.

Nesses versos, a linguagem ricamente figurada aponta para o momento de crescimento do menino por meio de suas descobertas, entre elas a de que as constelações têm luz própria, portanto basta uma caixa de fósforos vazia, ou melhor, não se necessita de nada para que todas as noites as estrelas se ascendam. Ascender estrelas também remete à possibilidade de o menino já ter suas próprias idéias e caminhar sozinho, sem a presença de um adulto para orientá-lo em suas decisões; ou que já projetava seus anseios pessoais e construía, assim, sua própria liberdade, sua luz própria, conseqüência de seu amadurecimento.

No texto em análise, as ilustrações, feitas pelo próprio autor, constituem uma obra à parte. Uma construção tão bem elaborada e artística quanto seu texto. Pensa-se, com base nisso, na tão discutida problemática da mera ilustração no livro infantil, e, como aborda Regina Werneck, em seu ensaio sobre “A Imagem nos livros infantis”, a questão não se deve canalizar no sentido de se “lutar contra os livros ilustrados e sim a favor de livros bem ilustrados, nos sentidos técnico, estético e estimulador do pensamento”. O recurso imagético que, se por um lado, busca reproduzir o texto escrito, por outro, recria um texto pictórico e conduz o leitor a divagar sobre imagens que propõem um mundo peculiar do sujeito poético e, ao mesmo tempo, provoca a projeção de outras imagens tão metafóricas e fantásticas quanto as que sugerem as contidas no livro.

Delmaschio, em seu ensaio anteriormente citado, já observara o posicionamento formal das imagens em Ominho, que vêm dispostas em páginas separadas das do texto escrito, o que nos sugere o trabalho ilustrativo como uma obra autônoma e paralela ao poema. Regina Zilberman, em A Literatura Infantil na Escola, diz que “o contato com a literatura infantil se faz inicialmente por seu ângulo sonoro: a criança ouve histórias narradas por adultos, podendo eventualmente acompanhá-las com os olhos na ilustração”. Neste poema, o título “Ominho”, e não “homenzinho”, reproduz a sonoridade da fala coloquial, popular, que pode representar tanto à infantil quanto à adulta. Essa escolha também aponta para uma fidelidade não apenas às recordações das situações e das imagens do sujeito lírico em sua infância, mas, sobretudo, aos recursos da variação lingüística comumente utilizada em situações informais, como as vivenciadas pelo sujeito, além, é claro, de remeter a uma linguagem intimista, voltada para as próprias sensações.

Essas opções – de léxico (escolha das palavras), da composição de imagens estéticas e ilustrativas, de recortes da memória, dos símbolos, e da própria escolha do título – na construção da obra, a tornam mais próxima da temática da infância, fase da vida em que os diminutivos, no caso do título, estão postos tanto na oralidade quanto na relação da criança pequena com o mundo “gigante” diante de seus olhos. Aproximam-na, também, do momento em que as descobertas de um mundo mágico se dão na medida em que a criança se apropria de alguns conhecimentos e, por meio da necessidade de novas descobertas, encontra suas próprias respostas e exige da relação com o outro – o adulto – uma explicação para suas indagações.

Assim, Ominho se apresenta como uma recomendável leitura, por se tratar de uma obra literária que foge à estrutura tradicional dos contos de fada e propõe uma nova linguagem para a literatura denominada “Infantil e Juvenil”. Sua obra está no universo literário para todos os leitores, de qualquer idade. Trata-se, sim, da história de um homenzinho que se volta para os momentos de sua infância, recordando as tradicionais histórias da mãe, sob o velho intróito do “Era uma vez...”, ao passo que constrói sua própria história sobre a novidade das descobertas do mundo “real” e do mundo imaginário recriado por ele.

Ominho é uma história para homenzinhos e homenzarrões.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Ilhandarilha
 

Ériton, texto lindo, rico e instigante. Parabéns pela leitura aprofundada e lírica da obra do Paulo Sodré. Me deu vontade de procurar o Ominho para ler... Qual é a editora?

Ilhandarilha · Vitória, ES 4/8/2007 10:05
sua opinião: subir
Ériton Berçaco
 

Olá, obrigado!
Bom, "Ominho" é da Fundação Ceciliano
Abel de Almeida. Está esgotado, mas você encontra na Biblioteca da Ufes. É um mimo. Rapidinho vc lê. O próprio Paulo me cedeu uma xerox, na época que o li, pois o livro integra o acervo de obras raras da Ufes e não pode sair da Biblioteca, mas pode ser consultado e, claro, lido.

Ériton Berçaco · Muqui, ES 4/8/2007 15:59
sua opinião: subir
Claudia Puget
 

nem senti falta do H, agora eu quero ler a História.
Ériton,comente mais contos, se Criticos de Arte fossem como vc. seria uma Escola fazer arte...
aguardo mais.

Claudia Puget · Muqui, ES 4/8/2007 16:04
sua opinião: subir
donanne
 

Ótimo texto, Ériton, como já esperava. Abraço.

donanne · Vitória, ES 6/8/2007 14:07
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados