O livro-arbítrio e as canções que ele fez pra nós

Roberto Carlos em detalhes (Paulo César Araújo ? Editora Planeta)
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Paulo Bap · Recife, PE
17/7/2007 · 244 · 17
 

O episódio da interrupção das vendas do livro “Roberto Carlos em detalhes” (Paulo César Araújo – Editora Planeta), biografia não autorizada do cantor e compositor, tem gerado polêmicas, debates e comentários comparativos entre biografias autorizadas ou não. É comum a idéia de que as primeiras têm mais valor, pelo aval e acompanhamento que recebem do biografado, afinal, ninguém melhor do que você mesmo para saber detalhes de sua vida e contar a sua história. Analisando melhor, percebe-se que trazem, também, o vício de os autores só narrarem aspectos positivos do biografado, ao contrário das não autorizadas.

Em depoimento ao programa Fantástico, da Rede Globo, Roberto Carlos revelou que questiona, a princípio, o porquê de uma biografia não autorizada, quando ele está vivo e poderia tê-la autorizado. Ele mesmo deu a resposta, logo em seguida, quando, ao ser questionado se autorizaria a biografia, caso tivesse sido consultado, disse que não. Na mesma entrevista, afirmou que não sabe ainda o que vai fazer para se livrar do livro, mas que nunca disse que iria queimá-los (que bom, não pretende queimar sua biografia). Em sua já prometida versão autorizada, certamente, não vai constar esse episódio.

Ele não costuma se expor e é discreto, na medida do possível, sendo o direito à privacidade um dos argumentos que usou em sua defesa: “Há limite entre o que é de interesse público e o que é invasão de privacidade”, afirmou. Em se tratando de pessoas públicas, porém, tal limite é sutil. É fato que pouco vemos notícias pessoais dele na mídia, mas mesmo isso pode ser visto como controverso, pois, se por um lado sua segunda esposa, a atriz Myrian Rios, quase largou a carreira quando se casou com ele, por outro, sua relação com a última, Maria Rita, foi bastante explorada pela mídia, talvez à sua revelia, talvez por ele não se encontrar mais no auge da carreira...

Outro argumento que utiliza a seu favor é que houve uma conciliação, antes mesmo de uma decisão judicial, entre ele e a Editora Planeta. Nesse acordo, ficou decidido que a editora não mais publicaria a obra e recolheria os exemplares que já se encontrassem nas livrarias, entregando-os ao cantor que, por sua vez, abriria mão de possíveis indenizações. A versão do autor do livro para esse acordo é que não havia outra saída, numa briga entre forças desproporcionais, uma vez que sobre todas as leis ainda prevalece, em geral, a lei do mais forte (e acima desta, a Lady Laura). Os advogados da editora acharam bastante provável a hipótese de perda da ação, a qual implicaria em indenizações de alto valor.

Num último recurso, Paulo César Araújo propôs abrir mão de direitos autorais sobre a obra, para descartar possíveis acusações de interesses financeiros. Dançando conforme a música e mostrando não ter o rei na barriga (na mão, talvez), propôs, ainda, que Roberto Carlos especificasse que partes do texto do livro não aprovara, para que fossem retiradas ou modificadas, mas o cantor não aceitou, alegando que, isso sim, caracterizaria censura.

Na década de 80, por suas posições religiosas, Roberto apoiou a censura ao filme “Je vous salue Marie” (de Jean-Luc Godard), condenado pela igreja católica, cuja exibição foi proibida em vários países do mundo, inclusive no Brasil, no governo José Sarney. Tal censura gerou, à época, uma grande e polêmica discussão, que só aumentou o interesse pelo filme, fato que se repete agora, com o livro, que pode ser encontrado facilmente na internet, para download.

Ele é conservador, não se pode negar. Seus discos dos anos 70 são uma receita precisa e imutável de canções religiosas, românticas, composições de Isolda e Milton Carlos, Maurício Duboc e Carlos Colla, além das habituais parcerias com Erasmo Carlos. Bons tempos em que se esperava o lançamento do LP do “rei” ao final de cada ano, ocasião em que algumas rádios tocavam todas as suas faixas, em seqüência e em primeira mão, numa época em que a pirataria era limitada a fitas cassetes.

Difícil mudar, porém, num período em que surgiram seus melhores trabalhos, num estilo pós-jovem-guarda iniciado no final da década anterior, com pérolas como “As canções que você fez pra mim”, “As curvas da estrada de Santos” e “Sua estupidez”. Suas preocupações ecológicas também estiveram sempre presentes e bem representadas em seu trabalho, em canções como “O progresso”, “O ano passado” e “As baleias”.

Ainda que não goste de falar - ou que falem - de sua vida privada, Roberto Carlos sempre caprichou em canções que contam sua história. Difícil não gostar de “O divã”, “Traumas”, “As flores do jardim da nossa casa”, “Jovens tardes de domingo”, “Fera ferida”, “Aquela casa simples” ou das canções-tributo “Amigo”, “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” (para Caetano Veloso, à época de seu exílio em Londres), “Minha tia”, “Meu querido, meu velho, meu amigo” e “Lady Laura”. Num mundo carente de sensibilidade, sua mensagem é importante. Lendo ou não o livro, ouvindo ou não os discos, o fato é que ele sempre nos avisou: “Não adianta nem tentar me esquecer...”.

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carlos b
 

pois é, paulo, as canções de RC entraram pra lista daquelas "canções que você já assobiou um dia", na feliz expressão de mauricio pereira.
lamentável, porém, o episódio do embargo ao livro do Paulo César.
Que as pessoas interessadas vão ler (em versão impressa, eletrônica ou fotocopiada), isso é fato.
mas acho que seu texto pontua algumas dessas questões espinhosas que envolvem cultura, memória coletiva e poder.
Valeu!


carlos b · Maceió, AL 16/7/2007 19:25
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DaniCast
 

E aí, o livro caiu na rede em PDF e qualquer um tem como achá-lo, baixá-lo e lê-lo. A fama de Roberto Carlos nem se arranhou no processo. O maior prejudicado foi o autor do livro, que teve frustrado seu trabalho de anos de pesquisa (sem falar na frustração de fã, porque Paulo sempre se confessou fã). Viva Paulo, viva seu livro e viva a internet, que termina democratizando o que os meios tradicionais e a legislação antiga não conseguem democratizar.

DaniCast · São Paulo, SP 16/7/2007 19:28
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Ilhandarilha
 

O fato mais chocante no episódio da proibição do livro do Paulo César, não é o fato do Roberto entrar com uma ação para proibir o livro. Roberto, como vc disse, é um cara conservador e, convenhamos, tem lá seus surtos (o que não o torna menos genial). O mais estarrecedor é que um juiz (um cara que é regiamente pago para cumprir a lei), tenha acatado seu pedido e, ele sim, proibido o livro.
Paulo César é um historiador, pesquisou muito nos jornais e em documentos públicos para escrever a biografia do rei. Ao proibir o livro, não está sendo proibida também a história? Lamentável também a participação da Globo no episódio dessa censura descabida: a reportagem do Fantástico não teve sequer a preocupação de dar voz ao autor e à editora.

Ilhandarilha · Vitória, ES 16/7/2007 21:01
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Paulo Bap
 

Pois é, gente. O livro pode ser encontrado facilmente e não só na Internet: cá pra nós, acabei de vê-lo à venda num supermercado local, ou seja, ainda bem que a ordem do senhor juiz não tá sendo cumprida rigorosamente. E, bem lembradíssimo, a Globo não ouviu as demais partes naquela reportagem do Fantástico.

Paulo Bap · Recife, PE 16/7/2007 23:42
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Pedro de Oliveira
 

"a lei do mais forte (e acima desta, a Lady Laura)..." !!!

gostei muito, parabéns!

Pedro de Oliveira · Brasília, DF 17/7/2007 16:01
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Roberta Tum
 

Acho uma grande bobagem esta censura. Enfim.... também não sou fã do Roberto. Com esta atitude então.... sem comentários.

Roberta Tum · Palmas, TO 18/7/2007 19:07
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Adroaldo Bauer
 

Falem bem ou mal,
mas falem de mim.

Erasmo Carlos

A globo está meio em baixa mesmo. E saúdo isso com muito gosto.
O que pinta de revirado aqui na nossa janelinha pequena de gente que adora um papo sobre aquele janelão lá, não tá no gibi.

Não que avestruzes devam ser aplaudidos, mas a recorrente presença da vênus decaída e seus principais produtos de enganação nos postados é de alarmar quem tem a cultura do Brasil para descobrir, redescobrir e inventar...

Assoviei muito Roberto Carlos.
Fiz festa de arromba com Erasmo.
Teve também Gil, Caetano, Chico, Torquato, Tom Zé, Elis, Gonzaguinha, César Costa Filho, Belchior, Milton Nascimento, Mutantes, Secos e Molhados, Ney Lisboa, Fernando Ribeiro, Nélson Coelho de Castro, e tantos e tantas outras,,,

Porto Alegre, conforme o Censo 2000 do IBGE tem 180 mil pessoas com algum tipo de deficiência.

Para mim, Roberto Carlos passou a perna nos nossos direitos à informação e o direito brasileiro conservou o papel de conservar a ordem que reproduz a iniqüidade.

Dura Lex, Sed Lex, incomodados mudem a lei.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 18/7/2007 20:46
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Vinícius Faustini
 

E o teatro de horrores continua... Roberto Carlos julgado por um DOPS popular que acha um crime evitar que oportunistas disfarçados de fãs ganhem uma boa quantia às custas do maior patrimônio de uma pessoa - a imagem dele. Do outro, vem a imagem patética de Paulo César de Araújo, com carinha de cachorro pidão e um LP de RC nas mãos, posando de mártir da literatura brasileira.

Vinícius Faustini · Rio de Janeiro, RJ 18/7/2007 21:47
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Adroaldo Bauer
 

Departamento de Ordem Política e Social DOPS fosse popular não teríamos um rei erigido à opinião pública pela vênus, Vínícius.
Se vivestes a torpeza da criação da opinião pelos meios de massa da ditadura e os terrores da polícia política deves saber que se tratava de um tanto mais que a opinião livre que cada pessoa tem direito a expressar.
Não concordar com elas teu direito é.
Não confundir os demais de que a única opinião naquele tempo criou um mito palatável é obrigação de quem quer informar.
DOPS é morte tortura e crime de estado contra adversário político.
Com certeza não quisestes dizer que a divergência de opiniões aqui é próximo disso.
Afinal, estás opinando também, não é fato?

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 18/7/2007 22:17
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Mestre Jeronimo - JC
 

O Roberto eh 'rei'... e sempre serah uma majestada, na historia da MPB.
Conheci a baba dele, a Edite, lah em sampa, que morava na casa do meu amigo e professor de Contrabaixo, Guido Bianchi, idos de 81... e olha lah quem falasse mal dele, ela tinha todos os CDs dele na epoca autografado especialmente pra ela.
Bom, valeu o texto...

Mestre Jeronimo - JC · Austrália , WW 19/7/2007 00:22
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BETHA
 

PAULO,
gostei muito desse teu texto, entendo que há a biografia autorizada e a não autorizada, mas essas pessoas muito famosas só falam em privacidade quando são apontados aspectos negativos de suas vidas.
A censura deveria se precupar mais com as baboseiras que a mídia propaga todos os dias.
Abraços de Betha.

BETHA · Carnaíba, PE 19/7/2007 08:05
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FILIPE MAMEDE
 

Li em algum lugar que o juiz dessa causa, após o julgamento foi tirar fotos com o cantor; maior tietagem... Infelizmente é uma pena pro cara que escreveu. Ele dedicou bons anos na pesquisa e vale a ressalta que entrevistou pessoas muitos próximas ao Rei... Enfim... um pena.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 19/7/2007 08:55
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Vinícius Faustini
 

É fato, concordo, prezado Adroaldo. E é tortura você obrigar qualquer pessoa que seja, com qualquer título (alegórico ou não) que tenha a expor sua vida só porque tem notoriedade pública. Inúmeros articulistas e donos da verdade vieram com pedras e chumbo grosso nas palavras. O ataque ao Roberto só mostra que Tom Jobim estava coberto de razão: fazer sucesso no Brasil é ofensa pessoal.

Vinícius Faustini · Rio de Janeiro, RJ 19/7/2007 10:49
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Adroaldo Bauer
 

É do que se trata mesmo Vinícius.
A vida pública do artista é pública mesmo, a vida privada do artista uma razão do próprio sucesso do artista.
Perceba que o vestir de Roberto Carlos era griffe, como a coleção de carros do moço completava o tipo fora do palco, e era uma mensagem explícita ao consuma Roberto também fora do disco, do rádio e da tevê.
Ali era benvinda a curiosidade pública a erguer um ícone.
Hoje, no recato sexagenário, desde a fase pós-jovem guarda, Roberto quer que aquilo não tenha existido.
Arre!
Tá parecendo o sujeito aquele que falou: esqueçam tudo o que escrevi.
Ora Vinícius, a vida de qualquer rei, herdeiro ou feito, é sempre uma intensa curiosidade da plebe rude, assim não o fosse, a Inglaterra já teria deixado de existir, por um longo período serviu ao bom moço e o cantante disto muito serviu-se, não te parece?
O cordão sanitário que tentou impor é censura explícita ao que já havia sido livre e promovido até pela decaída vênus platinada.
Tipo, falem do meu rosto, dos meus cabelos, da minha roupa, da minha música, dos meus carros, que eu exibo, mas não falem de mim inteiro, porque sou outro agora.
Torno a repetir Erasmo, o também Carlos,
Falem bem ou mal, mas falem de mim

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 19/7/2007 11:13
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Mestre Jeronimo - JC
 

Adroaldo... falemos de VC.... parabens pelo jogo, disse tudo, e falou todas.

Axe'

Mestre Jeronimo - JC · Austrália , WW 19/7/2007 12:00
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Paulo Bap
 

Pessoal, agradeço aos que elogiaram o texto. Quanto à polêmica da proibição, penso que Roberto tem direito de não gostar do que escreveram sobre ele, mas censura não é a melhor forma de se resolver nada. Com seu prestígio, ele teria, como teve, facilmente, acesso aos meios de comunicação para se "defender". E concordo com Ilhandarilha, o mais grave é a posição do juiz, a quem verdadeiramente cabe julgar. Abraços a todos.

Paulo Bap · Recife, PE 20/7/2007 18:01
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Roberto Luis
 

Parabéns!
Pois é, Paulo: essa questão é bem polêmica. Adorei o segundo parágrafo do seu texto, principalmente a primeira parte.
Perdeu-se uma oportunidade de ganhar espaço na mídia com defesas super fundamentadas do rei, tendo como ponto de partida o próprio livro publicado, em troca de um sensacionalismo efêmero já esquecido, ficando as revelações/acusações passíveis de dúvida ou credibilidade, de acordo com o critério de quem leu os originais, largamente distribuídos na internet. Cadê a biografia autorizada?

Roberto Luis · Salvador, BA 8/1/2009 17:48
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