Quando arrombaram a porta de seu barraco, ele, catador de cera de velas e flores mortas em cemitérios, estava também morto há meses. Aquela cena, garganta aberta a faca e dez anos de pot-pourris de flores secas para outrem, alastrou seu perfume - era perfume? - por todo o bairro. Com o texto intitulado O catador, Artur Farrapo talvez tenha chegado - embora sem intenção - à essência da publicação marginal que o editou.
A revista Sirrose, que chega a sua sexta edição no próximo mês, em três anos de estrada, saiu da clausura forçada de uma nova geração de escritores, perambulando pelas ruas com seus textos guardados rente aos sovacos - era perfume? -, sem possibilidade de publicação. Depois de anos de projetos sem repercussão, veio a idéia do fanzine: na capa, um erro ortográfico; no miolo, palavras errando entre o apenas chulo e o de fato, maldito. Seja qual for seu juízo sobre a arte dos caras, o cheiro se alastrou, sem pedir licença.
Hoje, a Sirrose está presente em shows de rock, com intervenções poéticas; recebe textos de autores do Paraná, de Pernambuco, do Ceará e até de um gringo de Chicago; publica quadrinhos; edita artesanalmente alguns livros de seus integrantes; já editou um livro infantil de um menino de 12 anos; invade saraus de gente graúda da literatura com uma polêmica e embriagada inconveniência; é convidada para eventos em universidades e, este ano, participa pela segunda vez do Congresso de Escritores Latino-Americanos, realizado em Letícia, na Colômbia.
"Todo mundo achou que ia parar na quinta (edição)", afirma o escritor Márcio Santana, um dos fundadores da revista, "diziam que era modismo, que não tinha qualidade literária", completa, mas Márcio tem a consciência de que todo novo movimento causa um certo estranhamento. A cada edição, a Sirrose separa a última página para publicar críticas dos leitores - que mandam mensagens para o e-mail revistasirrose@bol.com.br -, expondo claramente a divisão de opiniões que provoca. Polemizar é uma das prerrogativas do grupo. "A cidade precisa dessa irreverência. Chega dessa literatura sisuda, de gabinete, feita por advogados acomodados", dispara o escritor.
Vem dando certo, pois a revista já conseguiu incomodar cânones da literatura amazonense. De acordo com Márcio, um dos poetas do Clube da Madrugada - que ele não quis identificar - mandou uma mensagem em que dizia: "A Sirrose é o chulé da literatura". Para quem não conhece, o Clube da Madrugada foi um movimento primordialmente literário que tirou o atraso de 30 anos da literatura do Amazonas, finalmente inserindo a liberdade Modernista por aqui, em meados dos anos 50. A maior parte desses autores ainda está viva e acabou formando uma espécie de panelinha editorial que impede a renovação artística que o Clube tanto pregou em sua juventude.
Conquistas
Parecia coisa da época da Ditadura. A primeira notícia sobre a Sirrose a veicular na mídia manauara saiu nas páginas policiais do jornal A Crítica, em outubro de 2003. O pessoal fez uma tiragem de 100 cópias da primeira edição e começou a percorrer escolas da rede pública para divulgar a publicação e convidar os alunos para o lançamento, que seria realizado na Praça do Congresso. Acabaram detidos no Primeiro Distrito Policial. O diretor do Colégio Brasileiro achou o conteúdo impróprio e pediu que o grupo se retirasse do local. Os sirróticos resistiram e a polícia foi acionada.
Após pagarem uma multa, os escritores tiveram que bancar outras 100 cópias, porque a polícia deu sumiço no material. O fato é que o lançamento aconteceu na Praça do Congresso, conforme o previsto, sobre uma Kombi cedida pelo Sindicato dos Metalúrgicos, onde os autores fizeram leituras de alguns dos textos. A partir daí, o negócio começou a crescer. O segundo número já saiu com 200 cópias e mais autores da terra. No terceiro, começou o intercâmbio com escritores de outros estados e a Sirrose deu início a mais uma empreitada audaciosa: a publicação de livros de seus integrantes.
Na terceira edição, a revista bancou a tiragem de 200 exemplares de Obituário de Tanatos, um livro de poemas de Marcos Ney, outro de seus fundadores. "Nós percebemos que as pessoas que participavam da revista tinham seus trabalhos engavetados e decidimos publicá-los paralelamente", explica Márcio, que revela que é a própria Sirrose que fornece o material para a gráfica.
No quarto número, foi a vez de Márcio publicar o romance A fuga, conquistando um maior espaço na mídia, com resenhas publicadas em cadernos culturais da cidade. A quinta edição já saiu com 500 cópias, mas os dois livros que seriam publicados - O admirável mundo cão, de Artur Farrapo; e Contos das vidas pregressas, de Amarildo Maciel - acabaram não saindo. Hoje, entretanto, já estão prontos, e serão lançados com o número seis da revista.
Nesse meio tempo, entretanto, a Sirrose lançou um livro infantil de um garoto de 12 anos, morador do bairro Terra Nova. Márcio conta que durante as andanças do grupo pelas escolas públicas, acabou descobrindo o talento de Daniel Souza, que estava com Daniel e o terceiro homem de Jade prontinho. A obra foi lançada na própria escola do menino, durante um evento da Caravana Literária, projeto dos escritores Tenório Telles, Aldísio Filgueiras e Dori Carvalho, que percorre escolas com palestras e recitais.
A sexta edição, programada para o próximo mês, vem com dois livros, como fora dito anteriormente, tiragem de 500 exemplares, mais páginas - hoje a Sirrose possui mais de 50 colaboradores, segundo Márcio - e três poemas inéditos do escritor paulista Glauco Mattoso. O preço da cópia será de R$ 5,00.
muito legal poder ler sobre a produção de manaus - com perspectiva histórica e tudo mais. vc pode colocar o contato pra adquirir as publicações? abs
André Maleronka · São Paulo, SP 5/3/2006 09:16Humm, fiquei curiosa. Depois vc me diz como eu faço pra comprar?
Natacha Maranhão · Teresina, PI 5/3/2006 11:15Acho que passaram uns malditos errinhos ortográficos: o Mattoso do Glauco deve ter dois "t"&059; o "outrém" no primeiro parágrafo precisa de acento, e acho que "pot-pourri" não tem ou "u". Só não sei se o pot-pourri deveria ser itálico, será? No mais a matéria tá ótima! Genial!
Felipe Vaz · Rio de Janeiro, RJ 5/3/2006 12:03
oi Felipe: outrem não tem acento - pot-pourri realmente nao tem o u no pout - botei dois tt no Mattoso
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 5/3/2006 14:56ops, que vergonha eu tentando inventar problema no texto correto de outrem...
Felipe Vaz · Rio de Janeiro, RJ 5/3/2006 16:05
andre e natacha, não sei se o pessoal da revista manda cópias para outros estados, mas o contato da sirrose é revistasirrose@bol.com.br. o nome do editor é márcio santana.
abraços
A Literatura Brasileira precisa desse tipo de iniciativa. Concordo quando vocês dizem que os revolucionários de ontem são os conservadores de hoje. A nova safra de intelectuais do nosso país deve ter como um bom exemplo de referência ideológica esse jornal.
Parabéns pelo trabalho e boa sorte.
que texto bem escrito, cara! Faça outros, faça mais!
patricia · São Paulo, SP 31/3/2006 00:59Acho a revista de vocês muito do caralho e esse texto foi bem elaborado.Gostaria de mandar algumas poesias minhas,garanto que vão se indentificar com a revista.Me indiquem por favor,como faço para envia-las(mandem o endereço da revista para faz.parte.do.meu.show@hotmail.com).Obrigada pela atenção.
beija-flor · Manaus, AM 18/4/2006 20:37Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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