O mano oficial

Arquivo pessoal/Divulgação
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Edson Wander · Goiânia, GO
14/4/2006 · 186 · 15
 

Ele entraria facilmente na lista das “personas non gratas” que habitam as letras de grupos como os Racionais MC´s ou Facção Central, mas está, digamos, do outro lado do balcão, e também fazendo rima. Conhecido no movimento hip hop goianiense como TC, o 1º sargento da PM Teodoro Cruz se auto-intitula “o único policial do Brasil que assume a causa hip hop”. TC é um dos precursores do movimento rap de Goiânia, que soma 25 anos. Radicado na periferia da capital, negro, cônscio do embate sócio-cultural em que está metido, TC no entanto nunca abandonou o barco de rapper, dançarino de break e produtor de shows de rappers anônimos e famosos na capital goiana. E o preço é alto, confessa ele, inclusive na corporação. “É uma pena, porque a PM sabe que quem abastece a periferia é o dono de carro importado”, diz Teodoro Cruz, que comanda blitz da Ronda Ostensiva Tática Metropolitana (Rotam) na região Metropolitana de Goiânia.

Em dezembro passado, TC fez um curso voltado para a elite da PM. Em Goiânia, concluiu com colegas de vários estados brasileiros o COR (Curso Operacional de Rotam). Foram 90 dias de aulas práticas e teóricas sobre operações de combate ao crime. “Fiz show de rap lá, dancei break e aproveitei a oportunidade para tentar limpar mais um pouquinho o preconceito existente contra a periferia e todas as suas manifestações artísticas”, disse um cansado TC ao Overmundo, quase perto da meia-noite de uma segunda-feira, por telefone de sua casa em Aparecida de Goiânia (cidade da região Metropolitana de Goiânia).

Teodoro Cruz se iniciou no hip hop liderando um grupo de 12 pessoas (entre rappers e dançarinos de break) que, a partir de 1983, começou a organizar apresentações de hip hop em Goiânia. As primeiras, relembra, ocorriam no Tênis Clube do Setor Coimbra (foi lá o primeiro concurso do gênero, vencido pelo grupo dele) e depois ganharam as ruas, a partir do coreto da Praça Cívica, no centro da capital. O grupo se chamava Selvagens Eletrorock (havia também os Cães de Rua), que foi dando origem a outros grupos. Com o tempo, o Eletrorock se desfez, “alguns se casaram, outros viraram pastores evangélicos”, diz. Só TC continuou.

E continua. Ele ainda faz rima, dança e organiza bailes. “Tô na correria, apesar da burocracia para ter apoios”, reclama o morador do Setor Mansões Paraíso, bairro periférico de Aparecida de Goiânia. Ele trouxe à cidade o rapper MV Bill e o grupo paulista Facção Central, “verdadeiros símbolos de humildade e compromisso com o hip hop”, elogia o grupo com quem voltou a negociar para novo show em Goiânia, provavelmente no mês de maio. TC chegou a gravar um CD, procurou rádios locais e não obteve apoio na divulgação. Nem assim desanima. “Tô com 39 anos, casado e pai de família, não tenho o gás de antes, mas minha origem e personalidade é de periferia e não tenho por que ter vergonha dos manos”, diz, convicto.

E o que o superior de TC teria a dizer desse, digamos, hobby inusitado dele? “Acho ótimo, o TC é um modelo para nós, excelente profissional e com a arte dele presta um serviço de cidadania à comunidade, ensinando as pessoas que é possível curtir arte sem se envolver com drogas”, diz o major Wellington Urzeda, comandante da Rotam em Goiânia. Questionado sobre a histórica rixa existente entre os rappers e a polícia, o comandante, que diz ser fã de rap gospel (é evangélico), acha que é uma relação "superada".

“Esses rappers que falam mal da polícia escrevem sobre um modelo de polícia do passado, é ranço da ditadura militar e fazem uma crítica não contra o PM mas sobre um sistema policial. Hoje, o PM já tem outra formação, mais humanista e voltada para a interação social. Agora, cada um canta o que quer, assim como existem os diferentes gostos [de gêneros] musicais, a temática dos artistas também é livre”, teoriza o policial. Segundo ele, o próprio rapper-PM TC seria um exemplo dessa mudança de postura da corporação. Para o chefe de um dos mais temidos destacamentos da PM em qualquer capital brasileira, Teodoro Cruz seria “um embaixador” da PM junto às comunidades. “Para nós é bom que ele faça este trabalho, todos os colegas o respeitam muito. Lá [na periferia], ele ajuda a desmistificar essa idéia de que a polícia militar é truculenta”, arrematou o comandante Urzeda.

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Pedro Rocha
 

Ae Edson, não sei como foi sua apuração, se conversou com o TC só por telefone e tal. O que eu acho é que a pauta é ótima, tanto pelo cara, quanto pelo que se pode levantar no caso.

O texto tem que ser melhor trabalhado, principalmente o conflito movimento hip hop e polícia.

As declarações do superior têm que ser discutidas, acho que não deveria acabar com o arremate dele. Dizer que a imagem da PM truculenta é ranço da ditadura militar é uma visão histórica que enterra e empurra pro passado as responsabilidades de hoje.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 11/4/2006 11:40
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Edson Wander
 

Caro Pedro,
Também acho que o assunto merece ser aprofundado e hoje não vejo meio melhor para fazer isso que não esse Overmundo aqui. Espero que a comunidade rapper brasileira e overmundana levem o assunto adiante. Quanto à minha apuração, ela se deu em várias conversas com TC (por telefone inclusive) e com o superior dele (esta só por telefone) e acabou no arremate dele porque o texto tem que acabar em algum ponto né não ? O texto parte da história do TC apenas como um ponta-pé do negócio. Debatamos então.
Grato e abraço,
EW

Edson Wander · Goiânia, GO 11/4/2006 18:09
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Valéria del Cueto
 

“o único policial do Brasil que assume a causa hip hop”...
Não é bem assim. Justiça seja feita, por exemplo, à parceria da PM de Minas Gerais com o Afroregae de Vigário Geral/RJ.

Valéria del Cueto · Rio de Janeiro, RJ 14/4/2006 13:58
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Felipe Vaz
 

Edson: genial, genial, genial.

até já ouvi falar de história de outros rappers policiais (o Cliquemusic noticiou um assim certa vez, se não me engano), mas o seu texto está maravilhoso.

acabar com esta distância que se criou entre polícia, povo e formadores de opinião deveria ser o sonho dourado de todo brasileiro, mesmo que não seja fácil.

não sei quanto à popularidade do TC, mas espero que ele tenha enorme sucesso.

valeu pela matéria de qualidade!

Felipe Vaz · Rio de Janeiro, RJ 14/4/2006 17:05
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Natacha Maranhão
 

Parabéns pela matéria, Edson! Super legal mesmo...
Só discordo do comandante quando diz que a rixa entre polícia e periferia é coisa do passado...o TC é uma raríssima exceção, infelizmente.
Mas que bom que tem ele fazendo esse trabalho bacana, que sirva de exemplo.
beijo pra você!

Natacha Maranhão · Teresina, PI 16/4/2006 16:09
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Dalsins
 

Maravilhoso ,demais essa matéria ,não é por que é policia que é desumano ...eu acho!!!

Dalsins · Campinas, SP 17/4/2006 01:33
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Pedro Rocha
 

Bem Edson Vander, o texto tem que acabar em algum lugar, e mais, justamente no ponto em que o autor decide para fechar sua construção retórica, semântica, sei lá o que, o ponto em que você fecha uma significado coerente ou abre para questionamentos, ou deixa um vazio... tem tantas opções. Ao meu ver, você optou por de fechar um significado coerente que é a de que a polícia não é bem assim. E ao mesmo tempo que fala isso parece que corrobora com as palavras do superior.

Por isso que eu falei que discordava da condução do texto acabar com o "arremate" (que é muito próximo do definitivo) do superior.

Mas o texto tem que acabar em algum ponto né e quem decide isso é o autor do dito cujo.

ps: a percepção do superior tem vários problemas, que vou desenvolver depois. Entre eles o corporativismo, que é tão comum entre os de cima da pirâmide hierárquica.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 17/4/2006 10:32
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Claudim
 

Passado??? sou rapper como o TC, até o conheço pessoalmente, e infelizmente o que acontece é que a Policia Militar é um dos maiores empregadores no estado, e a falta de emprego tem empurrado vário jovens a trilhar a carreira de policial. Com isso, o despreparo é ainda maior, onde a truculência é a forma que a Policia costuma trabalhar nas periferias, de ontem e de hoje também. A Policia ainda continua sendo sinonimo de violência e desrespeito a cidadania.

Claudim · Goiânia, GO 17/7/2006 14:36
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Claudim
 

Passado??? sou rapper como o TC, até o conheço pessoalmente, e infelizmente o que acontece é que a Policia Militar é um dos maiores empregadores no estado, e a falta de emprego tem empurrado vário jovens a trilhar a carreira de policial. Com isso, o despreparo é ainda maior, onde a truculência é a forma que a Policia costuma trabalhar nas periferias, de ontem e de hoje também. A Policia ainda continua sendo sinonimo de violência e desrespeito a cidadania.

Claudim · Goiânia, GO 17/7/2006 14:38
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Claudim
 

Passado??? sou rapper como o TC, até o conheço pessoalmente, e infelizmente o que acontece é que a Policia Militar é um dos maiores empregadores no estado, e a falta de emprego tem empurrado vário jovens a trilhar a carreira de policial. Com isso, o despreparo é ainda maior, onde a truculência é a forma que a Policia costuma trabalhar nas periferias, de ontem e de hoje também. A Policia ainda continua sendo sinonimo de violência e desrespeito a cidadania.

Claudim · Goiânia, GO 17/7/2006 18:37
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Roberto Maxwell
 

A materia esta bem legal, hein? Que tal o TC entrar no Overmundo e disponibilizar musicas dele para a gente ouvir? No mais, eu discordo dele quando diz que os rappers tem visao errada da PM. Ele parece ser uma excessao no mundo violento, homofobico e racista que eh a Policia Militar.

Roberto Maxwell · Japão , WW 16/11/2006 12:39
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DiogoFC
 

Pô, curti afu, tb acho q a 'pauta' merece ser mais explorada. Abrazo

DiogoFC · Criciúma, SC 28/11/2006 17:40
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Gustavo Gama
 

A relação entre "autoridade" e "cérebros pensantes" é sempre conturbada, mas o TC parece ser a união desses dois lados e isso é ótimo. Mas no geral a cena é essa: falou demais tá em perigo! Já passei por isso, já cantei em alguns eventos de hip hop e sempre fica uma sensação de medo quando existe a presença de alguma autoridade policial. Herança da ditadura? Os inúmeros relatos de abuso de poder policial dizem o contrário. Mas pelo menos a polícia local vai ter a oportunidade de aprender, ter um "cérebro pensante" entre os seus.

Gustavo Gama · São Paulo, SP 26/1/2007 17:53
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Claudim
 

Tomara q esse "aprendizado" não demore muito...
Qto mais o tempo passa, mais caro fica!
Enquanto isso, no planeta dos macacos...
www.myspace.com/testemunhaocular

Claudim · Goiânia, GO 30/1/2007 22:18
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sdcrid
 

e interessante os comentarios, a pm mudou muito, e tem que mudar ainda, vc conhecem sim pms que sao mais humanos e conversados, e digo que, muitos que entraram possuem uma mentalidade diferente da 'ditadura", o trato com as pessoas, nao pela lei, mas por policiais corretos serem de berço, concordo que ha pm por causa do dinheiro e nao por vocaçao. uma coisa eu digo, vagabundo e aquele que mete o ferro na tua cara te assalta e te esculacha, nestes o coro tem que comer, porem a grupos de rap´s fazem sua letras contras os truculentos, ha pm que curtem hip hop pq vieram da periferia, as drogas sao concequencias por alguns que querem dinheiro facil, o preconceito existe no brasil sob todas as formas, mas colocar que a pm e assim... digo que nao, tc nao e o unico nao porem e o que tem voz para cantar, muitos tem raiva da pm pq ja sofreram com alguns integrates, mas tb ja tiveram bons tratamentos por parte de outros,a pm e feite de brasileiros... abraços a todos e que questionem sobre minh opiniao

sdcrid · Belo Horizonte, MG 9/2/2008 17:53
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