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O medo da corda de caranquejo

Banda Vitrola São Jorge
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Alexandre Grecco · Fortaleza, CE
7/10/2009 · 57 · 6
 

Desde o movimento “cabaçal”, em final dos anos 90, a música cearense não apresenta um cenário tão promissor de música independente. Parece que existe uma completude de ritmos que vão compondo novos caminhos, ocupando novos espaços e com isso trazendo mais público. Esse novo movimento não tem nome, talvez nem precise de nomes, é reflexo da necessidade de liberdade, pois se difere das tendências estéticas dos vizinhos pernambucanos, que tem um cenário político que mantém a cultura pernambucana sempre viva e mutatória. Aqui é diferente, pouco incentivo, os editais dos órgãos de cultura são pontuais e nunca exibem um valor minimamente satisfatório e, além disso, a indústria do forró ocupa quase todos os espaços midiáticos e classes sociais, embora isso possa ser a grande saída para o cenário independente.

Lado A Lado B

O forró metalizado para a elite “cultural” de Fortaleza, é uma espécie de câncer que consome as cabeças ocas dos jovens fortalezenses, pois ocupa desde a classe baixa até as classes mais altas da casta cearense, agrada a todos, por quê? Existem várias hipóteses, mas o que parece mais provável é que a mistura do forró tradicional, aliado as guitarras, baterias, baixos, dançarinas e letras que são verdadeiras crônicas da classe média, fora o investimento em marketing de guerrilha, são segredos desse sucesso avassalador e efêmero. As bandas de forró pululam nas rádios, porém os sucessos são curtos e a novela logo acaba e a música do momento passa a ser a outra, da outra novela.

Existe um ponto afirmativo nessa indústria, ela é brasileira, as músicas que ocupam 80% da programação das rádios cearenses são todas feitas por músicos locais, o que gera emprego. No que isso pode favorecer o cenário independente é ainda obscuro, tortuoso, mas existe um pequeno fio de raciocínio lógico: nada é absoluto, e assim como a indústria gera os desejos ela gera as necessidades. Enquanto o forró ocupa espaços, outros espaços ficam ociosos e novos públicos, mesmo marginalizados vão se formando e precisando de algo diferente, é nesse momento que novos músicos e bandas vão aparecendo, na exclusão que a indústria gera: esse é o Lado B. Nada disso é novo, o “underground” sempre foi isso.

Regionalização Global

Depois do movimento “Manguebeat” surgiu no Brasil uma espécie de culto a regionalização que se tornou mais densa depois da eleição do presidente Lula. Existem aspectos perigosos nessa ultra-regionalização, como a glamuralização da pobreza e o xiitismo cultural, entidades que permeiam esse cenário e se manifestam sempre que há uma brecha. Esse é um dos maiores desafios que essa nova safra vem enfrentando. Regionalizar o global ou globalizar o regional? Ambos são a mesma coisa? Esse enfrentamento com questões da contemporaneidade são latentes nas novas expressões musicais que estão ocupando os teatros e outros espaços de sociabilidade etílica. A saída não existe, o vital é o conhecimento sobre a questão e, sobretudo, o bom gosto.

Inclusive um fator que vem me chamando atenção nos últimos anos é esse eterno resgate de coisas. Tudo está sendo revisitado e resgatado. O samba na esquina - que nunca morreu - agora está sendo “revisitado”, redescoberto, como se fosse algo que esperasse a classe média se apropriar para de fato, ser valorizado. Exemplo disso é o Raimundo dos Queijos, Samba do Zé Bezerra, Pagode da Mocinha, alguns desses lugares tem mais de 20 anos de história, e só agora estão sendo de fato visitados. Esses territórios estão sendo globalizados por serem regionais demais.

Chinelo de couro

Dentro dos questionamentos quanto à convivência com a indústria e a criação artística em relação ao tempo; onde a música tem caráter de verdade, de nascimento espontâneo? Esses movimentos de música dita regional me levam a um questionamento: até que ponto essas bandas representam, com verdade, aquilo que cantam? Existe uma banda, do cenário local, que é influenciada pelo “cabaçal” mesmo, usa o coco, maracatu e etc... É uma banda que levanta pontos interessantes da cultura nordestina, a regionalização que esteticamente é mais global que maioria das bandas de rock cearenses, porém, ela apresenta dificuldades, e a maior delas é a cultura “chinelo de couro”, no qual maioria das novas bandas do cenário independente da musica nordestina tem enfrentado dificuldades.

O chinelo de couro é a necessidade de regionalizar e defender politicamente essa regionalização, como se fosse um aspecto ideológico, até aí tudo bem, mas como negar a globalização, o universo plugado em que estamos inseridos, não adianta fugirmos pra dentro, na verdade é trazer de dentro a verdade. Acho que todos conhecem a história de um rapaz que chegou à casa do Ariano Suassuna – mestre da cultura chinelo de couro – com uma musica diferente, um maracatu misturado com rock, um maracatu que se utiliza de guitarra, baixo, bateria... Suassuna achou ridículo, pois acreditava que o maracatu sempre deveria estar ali firme, sem modificações estéticas. O guri se mandou dali chateado, mas algum tempo depois Chico Science tava fundindo a cabeça de todo mundo.

Não estou, de modo algum, achando que falta a verdade nesse novo cenário, mas que a busca dela, deve ser a principal preocupação das novas bandas autorais que estão surgindo no cenário cearense. Bandas como Fulô da Aurora, Samba de Rosas – composto apenas por mulheres -, Breculê, Sambahempclube, Água de Quartinha, Vitrola São Jorge, vem apresentando um consistência musical e repertório autoral relevante com muita criatividade nas formações. Fora eles é importante lembrar músicos como o Felipe Cazoux, Daniel Medina... Basta saber se vão cair na rede do pescador e acabar pendurados numa corda de caranquejo, onde um fica pisando na cabeça do outro.

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Viktor Chagas
 

Opa, Alexandre,
Que crítica boa!!!
Queria entender melhor qual a relação que você faz entre o movimento "cabaçal" e a cena independente de hoje. É pura ignorância minha mesmo, não conheço o "cabaçal" e fiquei bem curioso.
Que venham mais resenhas e que as bandas pintem por aqui, no Overmundo, também! :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 6/10/2009 22:55
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Alexandre Grecco
 

O "Cabaçal" surgiu no início dos anos 2000. Na verdade eram bandas que misturavam o universo contemporâneo (pop) com elementos da cultura cearense, como as bandas cabaçais tradicionais, que utilizam pífanos, zabumbas, sanfonas, alfaias: era a velha proposta: O "antigo" e o "novo"! Na época a carência de chico science no cenário provocou esses movimentos. Digamos que é o Manguebeat cearense... Indico pesquisa em bandas como Jumenta Parida, Dona Zefinha, Soul Zé e Dr. Raiz. Particularmente acho bem interessante a mistura, mas o momento pedia demais isso, hoje, no cenário atual, tem gente desconcertando do tempo, pouquíssimos, mas tem e, muitos ainda, embrionários. A cena promete Viktor... Forte Abraço!

Alexandre Grecco · Fortaleza, CE 6/10/2009 23:10
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Magno Córdova
 

Olá, Alexandre.
Gostei de ler seu texto. Na verdade, tenho muito interesse pela música do Ceará, de uma maneira geral. E penso que você informou sobre a cena musical cearense sob um ponto vista que venho tentando entender, aquele que diz respeito ao predomínio midiático da música associada ao forró. De toda forma, gostaria de saber se o trabalho do poeta Marcus Dias (tanto em parceria com o Isaac Cândido quanto principalmente, ao meu ver, com o Pantico Rocha) faz parte, em sua opinião, do "cenário promissor" da música cearense aludida no início do seu texto.
Veleu, Alexandre

Magno Córdova · Rio de Janeiro, RJ 9/10/2009 00:02
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Orisvaldo Tanniy
 

Gostei e votei.Abraços...

Orisvaldo Tanniy · Teresina, PI 9/10/2009 09:38
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Orisvaldo Tanniy
 

Belo texto. Votado.Abraços...

Orisvaldo Tanniy · Teresina, PI 9/10/2009 09:42
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Alexandre Grecco
 

Magno, acredito que o Marcus Dias ainda não está nessa perspectiva que falo no texto. Isaac Cândido também está um pouco fora do cenário, hoje, atua mais como um movimentador cultural, através do seu trabalho na Funcet (ou secult-for se não me engano) e o Pantico não é uma figura comum no cenário, já ganhou o mundo, toca com Lenine, enfim... Mas tem outros nomes muito bons, Babi Guedes, Osvaldo Zarco, Hardy (esse é fera), entre outros.

Alexandre Grecco · Fortaleza, CE 9/10/2009 11:45
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