Eu não concordo com as ideias de Adorno sobre indústria cultural.
Se você já conhece Adorno e é um fã dele, por favor, não se zangue. Eu não sou doutor ou PhD em comunicação. Também não sou formado em filosofia, sociologia ou antropologia. Sou um produtor independente. A ideia deste texto é bem simples: mostrar um ponto de vista de alguém que reflete sobre como muitas pessoas utilizam a noção de industrial cultural de Theodor Adorno para justificar atitudes equivocadas em tempos de economia criativa.
Este texto é dividido em quatro partes. Primeiro vou dizer quem é Adorno. Depois vou me apresentar. Feitas as apresentações, vou falar sobre a noção de indústria cultural de Adorno e por fim vou falar o motivo da minha discordância. Como trata-se de um texto rápido, tomarei como base a Wikipedia.
Segundo esta enciclopédia, “Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno (Frankfurt am Main, 11 de setembro de 1903 – Visp, 6 de agosto de 1969) foi um filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão. É um dos expoentes da chamada Escola de Frankfurt, juntamente com Max Horkheimer, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas e outros”.
Quem sou eu que me atrevo a discordar de Adorno? Eu sou Alexandre Barreto (Cachoeira do Sul, RS, 28 de Junho de 1972 – vivo até hoje). Estudei como muitas pessoas ensino fundamental, médio, fiz o curso de Técnico em Mecânica, estudei administração de empresas com ênfase em marketing na Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sou um dos expoentes da cena contemporânea da produção cultural brasileira a partir de 2003. Sou aluno do MBA em Gestão Cultural da Universidade Cândido Mendes.
Vejamos a noção de indústria cultural de Adorno.
No trecho “Elementos fundamentais de seu pensamento”, a Wikipedia descreve “(…)Uma das suas importantes obras, a Dialética do Esclarecimento, escrita em colaboração com Max Horkheimer durante a guerra, é uma crítica da razão instrumental, conceito fundamental deste último filósofo, ou, o que seria o mesmo, uma crítica, fundada em uma interpretação negativa do Iluminismo, de uma civilização técnica e da lógica cultural do sistema capitalista (que Adorno chama de "indústria cultural"). Também uma crítica à sociedade de mercado que não persegue outro fim que não o do progresso técnico”.
Façamos um zoom em uma outra parte deste texto da wikipedia, para entender um pouco mais o conceito de indústria cultural:
“O termo foi empregado pela primeira vez em 1947, quando da publicação da Dialética do Iluminismo, de Horkheimer e Adorno. Este último, numa série de conferências radiofônicas, pronunciadas em 1962, explicou que a expressão “indústria cultural” visa a substituir “cultura de massa”, pois esta induz ao engodo que satisfaz os interesses dos detentores dos veículos de comunicação de massa. Os defensores da expressão “cultura de massa” querem dar a entender que se trata de algo como uma cultura surgindo espontaneamente das próprias massas. Para Adorno, que diverge frontalmente dessa interpretação, a indústria cultural, ao aspirar à integração vertical de seus consumidores, não apenas adapta seus produtos ao consumo das massas, mas, em larga medida, determina o próprio consumo. Interessada nos homens apenas enquanto consumidores ou empregados, a indústria cultural reduz a humanidade, em seu conjunto, assim como cada um de seus elementos, às condições que representam seus interesses”.
Nestes dois pequenos parágrafos transcritos na íntegra, encontro a origem dos seguintes discursos equivocados em tempos de economia criativa: “meu trabalho não é comercial”, “minha arte não é um serviço”, “meu trabalho não é um produto”, “meu trabalho não visa lucro”.
Primeiro: Adorno faz uma interpretação somente negativa do sistema capitalista. Respeito ele. Mas eu não sou obrigado a querer ser inimigo do sistema capitalista, até porque a ideia de “sistema” traz a ideia de complexidade. O sistema capitalista tem falhas? Milhares de falhas. Mas não vivo mais em tempos de guerra fria, em que o mundo somente podia ser pensado por dois caminhos: capitalismo ou socialismo. Vivo num mundo em que a diversidade de caminhos e possibilidades é imensa. Vivo a era da complexidade. E quem desejar trabalhar com cultura de forma profissional terá que aprender a entender esta complexidade. Entender o sistema capitalista e como se colocar nele faz parte desta tarefa. Todos as pessoas que decidiram trabalhar somente com atividades criativas, em qualquer lugar do mundo, sabem do que eu estou falando.
Segundo: Adorno falou suas percepções sobre o mundo em 1947. Na época, ele inclusive considerou que o cinema e o rádio não poderiam ser considerados arte. É óbvio que muitas empresas que trabalham com cinema e televisão produzem, distribuem e comercializam conteúdos tendo como objetivo maior o comércio. Mas há muitas pessoa que trabalham com cinema, rádio, TV, jornal, etc de forma diferente. Aliás, há uma diversidade imensa de formas de trabalho no universo da cultura. E se você consultar um antropólogo ou um historiador, eles facilmente irão lhe explicar que o sistema de trabalho, a forma como se estrutura a economia de uma sociedade, fala muito sobre sua cultura. Logo, qualquer coisa que represente uma troca, remunerada ou não, tem o seu valor cultural.
Terceiro: na frase “(…) Interessada nos homens apenas enquanto consumidores ou empregados, a indústria cultural reduz a humanidade, em seu conjunto, assim como cada um de seus elementos, às condições que representam seus interesses” é possível entender por que muitas pessoas demonizam os meios de comunicação. Parece que todo mundo que trabalha com TV, rádio, mercado editorial, cadeia produtiva do entretenimento age somente em prol de interesses económicos. Muitos agem. E qual é o problema? Todo mundo age em prol dos seus interesses.
Sobre isso, o sociólogo José Carlos Durand esclarece no prefácio do livro “Economia da Cultura”, de Françoise Benhamou:
“(…) existe uma relutância institucionalizada em reconhecer que as práticas culturais e os bens e serviços que dela resultam sejam presididos por lógicas de interesse, inclusive e sobretudo o interesse económico”.
Tal relutância – mostra a sociologia – nada mais é do que expressão inconsciente de uma antiga e aristocrática reivindicação de prestígio baseada na crença de que o mundo das artes seria, em sua essência mais íntima, o reino do completo desinteresse. Sendo aristocrática, esta é uma postura socialmente excludente, em desacordo com o consenso político contemporâneo que toma a cultura como território por excelência de vivência da igualdade e da fraternidade. Daí que o princípio de “negação do económico” nas artes deva ser visto antes como entulho intelectual a ser enfrentado em nome da democracia do que como uma barreira contra a infiltração indevida do lucro no mundo sublime da estética – como fácil e costumeiramente é invocado”.
Eu não vejo problema nenhum que o meu trabalho seja comercial. Eu preciso de dinheiro para sobreviver. Eu não vejo nenhum problema que a arte de organizar, administrar e gerenciar que exerço seja percebida como um serviço. Eu não vejo nenhum problema no fato de meu trabalho também ser visto como produto ou visar lucro.
O meu trabalho é o produto do que escolhi fazer: trabalhar com o que eu acredito. Fazer o que eu gosto. Se Adorno escolheu o que gostava de fazer, sabe do que eu estou falando.
E assim o globo continua a girar... Sozinho, sozinho!
Saúde e Paz.
Caro, Alê Barreto acho engraçado alguém que fala que não é doutor mas está fazendo mestrado. Como você sabe MBA( mestre de negócio em administração) lhe dá um título em latu sensu. Você critica a Dialética do Esclarecimento. Mas leu o livro? Parece que não. è também de estranhar que um "expoente"- que nunca ninguém ouviu falar- da cena cultural contemporânea brasileira despreze a filosofia, a antropologia, a sociologia e etc. Você não precisa ser doutor mas para quem se diz que faz cultura tem a obrigação de conhecer pelo menos o básico da sociologia, da antropologia e da etc. não nenhuma relutância em saber que a Arte tem interesse econômico(lucro). Porém Arte não é mercadoria. Você diz que Adorno só vê o lado negativo do Capital. Qual é o lado positivo? o Capital é só bom para o Capitalista. Sugiro que você leia A Riqueza das Nações do Adam Smith e O Capital do Karl Marx. Você já viu Guernica? Você já leu Vinhas da Ira ou O Germinal? Você já viu Alpahaville? Vcê já leu Dom Quixote? Você já leu Shakeaspere? Já ouviu Chico Science? Você já ouviu Racionais? Você já leu as Troianas? Você já viu Zé Celso? Você já viu Henrique Diaz? Você já viu O Vertigem? Você já leu Drumond? Você já leu Darcy Ribeiro? Você já ouviu Jimi Hendrix? Você já ouviu Bob Marley? ocê já ouviu Titãs. Desde quando uma obra feita em uma determinada data não pode ser ainda válida ou não refletir a nossa atual sociedade? Caro, Alê Barreto apesar do seu ensino universitário, que você tanto apregoa, apesar de não ser doutor, vejo que não aprendeu nada. Infelizmente o seu pensar é limitado pelo canto da sereia capitalista. Que o cooptou para continuar fazendo o trabalho do mouro Otelo.
VANDE SP · São Paulo, SP 6/10/2011 21:52Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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