O Mito do Usuário Produtor na Internet

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Rodolfo Arruda · Marília, SP
23/12/2006 · 132 · 7
 

A internet, como toda tecnologia revolucionária, possui em si mesma não apenas o efeito de criar entusiastas e visionários, mas também têm o poder de criar mitos e utopias a respeito de seu próprio destino. Não pretendo abordar sobre as realizações e as transformações que a web trouxe, mas sim comentar um pouco dos mitos que correm sobre ela. Um deles, que acho particularmente interessante, é a idéia de que todo o usuário comum vai se transformar num produtor de conteúdo na web. A idéia me surgiu a mente por conta da lembrança de um comercial da empresa brasileira de internet, IG, que colocava uma personagem (a qual simbolizava o usuário comum), num grande palco de teatro, como o centro do foco de luz e a estrela do espetáculo. O que parecia um piano, era na verdade um computador e as mensagens que a mulher digitava logo apareciam em destaque num telão imenso para toda a platéia do teatro. Enquanto ela digitava, todos aplaudiam. O comercial terminava, não me lembro ao certo, com uma mensagem mais ou menos assim: "agora na rede você tem o poder, você é a estrela".... Sem dúvida, um comercial bem feito, com uma mensagem forte, atual e bem de acordo com o que muita gente pensa. Porém, após um pequeno período de entusiasmo gerado pela bela produção da propaganda, as idéias chave que o comercial pretende transmitir começam a soar estranhas e sua falsidade vem à tona.

O debate a respeito deste assunto é realmente interessante e sem dúvida imenso. Não pretendo, de forma alguma, abordá-lo em sua completude. Vou simplificar vários pontos com minhas próprias percepções sobre o tema. Em primeiro lugar, do ponto de vista tecnológico, a internet realmente se desenvolveu de tal forma que seria viável pensar que qualquer usuário da rede teria condições de produzir seu próprio conteúdo e disponibilizá-lo na internet, em suas variadas formas, tais como textos, obras artísticas, notícias, informações, compartilhamento de conhecimento e por ai vai. Mas o contraponto deste mito de que isso pudesse acontecer, por conta da possibilidade aberta pelo avanço tecnológico, se desfaz com uma facilidade incrível quando notamos que a questão técnica é apenas um ponto, dentre vários, que compõem todo esse universo intelectual da produção cultural. Voltando ao exemplo da propaganda do IG, o que o comercial esqueceu (ou preferiu omitir) foi justamente a capacidade que esse usuário comum possui de produzir conteúdo significativo num meio tão hostil como o ciber-espaço. A idéia que ora exponho é simples: o ciber-espaço é hostil porque ele reúne (por sua própria capacidade tecnológica), uma quantidade inimaginável, gigantesca e sufocadora de dados e informações. Sabemos que numa situação na qual temos um excesso brutal de informações e referências misturadas, estamos numa circunstância igual ou pior do que de não dispor de nenhuma ou muito poucas referências a respeito. Daí dizermos que o ambiente virtual é hostil; ele sufoca pelo excesso de informação. Em seguida, facilmente entendemos a dificuldade que o usuário comum tem de produzir informação significativa neste contexto. Por significativa, entendemos simplesmente a capacidade deste dado o informação produzido não ser diluído e absorvido na multiplicidade infinita e anônima que o ambiente hostil da internet produz pelo seu volume de informação. Desta forma, a mensagem significativa, se pudesse funcionar, teria que ao menos encontrar acolhida no seu interlocutor prévio, fato que não ocorre após a sua inevitável diluição neste ambiente. E vejam, essa dificuldade não é tanto uma limitação do usuário comum, mas sim uma dificuldade gestada pela própria natureza do ciber-espaço (sua natureza hostil, acima discutida) muito difícil de ser superada pela grande maioria dos utilizadores comum. Falta de criatividade ou falta de interesse, ou falta de tempo e disponibilidade? Simplesmente não importa. Fica claro que é absolutamente inviável que todos os usuários se preocupem em estudar e se qualificar para produzir esse material. A princípio não há nenhuma motivação razoável para isso. Muito mais fácil e evidente que o usuário comum, ou se preferirmos agora, a massa consumidora de cultura continue atualizando todos os seus hábitos culturais diante da tela do computador conectado.

Voltando então ao exemplo do comercial, quais são as falsidades ali implícitas? Pelo que foi discutido logo acima, não fica muito difícil descobri-las. O primeiro erro é acreditar que esse usuário comum é capaz de despertar a atenção entusiasmada da platéia, tal como sugere a propaganda. Se o comercial realmente levasse a sério o próprio mito do usuário estrela, então não teríamos apenas um palco, nem tão somente um foco de luz. Seria sim uma parafernália de várias luzes, de tamanhos e cores diferentes e máquinas e usuários em planos, tamanhos e graus absolutamente assimétricos. Não diríamos que seria o caos, mas também não acreditamos que seja o caso de uma bela imagem a cativar os consumidores culturais adormecidos. O segundo erro foi sugerir que aquelas mensagens exibidas no telão, que correspondem às informações digitadas pela personagem no centro do palco, causariam uma admiração e um entusiasmo certeiro no público espectador. Ela erra não somente por atribuir uma capacidade que muitas vezes o usuário comum não possui (pode eventualmente possuir, mas sabemos que os talentosos nem sempre são a maioria), mas principalmente por acreditar que a platéia está disposta de forma estática e concentrada com um foco em um único lugar. O que a internet tem mostrado é exatamente o oposto disto. É praticamente impossível definir o que é o público usuário da rede, mas pelo menos podemos dizer algumas coisas que ele não é: homogêneo, passivo, determinado. Não se trata tanto de questionar a capacidade do usuário comum (sabemos mesmo que a sua riqueza é inquestionável), mas sim da viabilidade de que estas referências tenham circulação dentro do ambiente hostil e pasteurizador do ciber-espaço.

Talvez, preliminarmente, se não é esse usuário caricatural e ideológico igual ao do personagem do comercial da IG que irá trazer algo novo na rede, o que a experiência da internet tem ensinado é que ao menos um novo sujeito tem surgido com algumas chances de sobreviver e trazer algo diferencial no monopólio da informação, que são as Comunidades de Usuários. Inclusive, o desenvolvimento de tecnologias que viabilizam essas comunidades, os CMS (Sistemas Gerenciadores de Conteúdo) têm favorecido esse desenvolvimento. Ainda existem poucos estudos sobre esse fenômeno e certamente esse assunto demandaria outro ensaio para investigá-lo, mas pelo menos fica a impressão de que o caminho é por aí.

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apple
 

Sem falar na falta de tempo para produzir mesmo nas comuindades, né? Se ficam sabendo que deixo a minha "pós" de lado para ficar produzindo texto para Internet "dão na minha cara".

apple · Juiz de Fora, MG 23/12/2006 07:31
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Patrico
 

Concordo que o volume e a qualificação da informação geradas pelos usuários é sempre um pouco duvidosa. Já que, por exemplo, são poucos aqueles que tem formação para escrever textos jornalisticos ou técnicos. Não sei qual é a realidade que levastes em conta, mas com certeza se levada em conta a realidade brasileira o seu pensamento está bem fundamentado.
No entanto, vejo uma discordância, ou talvez um ponto que deixastes de pontuar, talvez por miopia ou por esquecimento. Tudo o que é pensado e produzido é conteúdo. Seja ele de baixa ou de boa qualidade ele não deixa de o ser. Então, tomo em conta que a Internet realmente permite a produção e o armazenamento da informação e a disponibiliza para todos. Mas não acredito que o internauta e produtor de conteúdo, diferentemente de um escritor como o senhor, queira produzir para a Web em si como um todo. O que isso quer dizer? Que O CGM de qual tanto se fala é selecto no seu receptor. Permite-se através dos sites de armazenamento que você distribua fotos ou textos entre amigos e conhecidos, distantes ou próximos.
Está ai então o grande mote de todo esse buxixo. Produzir e distribuir informação virtualmente sem barreiras geográficas, e permitir que todos aqueles que vc escolher tenha acesso as suas fotos, pensamentos e outras cositas.
Quer dizer então que a produção "para a massa" talvez não seja o interesse daquele que mais produz conteúdo, o usuário comum, mediano. E se não é o interesse, não há necessidade então de ser algo elaboradamente pensado, coerente e preciso em sua descrição técnica ou retórica.
Mas, boa perspectiva crítica:)

Patrico · São Paulo, SP 23/12/2006 09:16
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Rodolfo Arruda
 

Muito valioso os comentários de vocês dois. Concordo com a Criss que de forma rápida chama a atenção para uma curiosidade de que o meio acadêmico ainda ainda não recepcionou em toda a sua amplitude as capacidades implícitas na internet. E concordo com o Patrico que aponta uma pequena presunção do meu post, que é o fato de o meu texto considerar como conteúdo na rede apenas material cultural qualificado, tal como produções jornalísticas, técnicas, artísticas e demais. De fato, se abandonarmos essa visão minha do conteúdo qualificado, toda a minha argumentação se desmonta automaticamente. Com a contribuição de Patrico, poderíamos pensar então em manter o lugar de produtor do usuário comum, mas ao mesmo tempo teríamos que lidar então com uma imagem (na minha opinião) um pouco menos audaciosa da internet, na qual os materiais não sofrem de nenhuma exigência e não possuem nenhum compromisso com outros setores. Eu ainda creio que uma organização e uma estruturação são necessários para que a internet abandone sua posição secundária como produtora de conteúdo. Tudo bem que sob um olhar culturalista essa necessidade não preocupa, mas tb não acredito que a diversidade cultural por si mesma seja capaz de modificar algumas de nossas categorias e reverter o modo como classificamos as mensagens. O mais fácil, que é muito do que acontece hoje, é toda essa diferença aparecer como exótico e esse descomprometimento em relação ao usuário tem reforçado as imagens da internet como ferramenta de entretenimento. Ao final, o que fica é uma questão de escolha: tanto podemos escolher esse espaço mais aberto e menos ambicioso, quanto podemos pensar num empenho maior e talvez tivéssemos uma web que ocupasse outro lugar em nossas representações. Não existe escolha certa ou errada.

Rodolfo Arruda · Marília, SP 23/12/2006 19:03
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Sergio Lima
 

Olá Rodolfo!

A sua premissa, implícita no seu texto, é de que existe algo significativo para todos. E isto é falso! Todo usuário será produtor de conteúdo se ele encontrar um único leitor que, encontre na sua produção algo significativo.

A preimissa correta é que todos *podem* produzir conteúdo! Aquela idéia de que só quando milhões utilizam aquele conteúdo o tornam válido e significativo é que caducou!

Todo poder as pessoas implica que eu posso escrever conteúdo significativo para duas pessoas ou para milhões, e isso é *igualmente* bom!

Uma Era que caminha para o fim da massificação cultural!

Portanto, deste ponto de vista, o mito é real e factível


[]'s

Sergio Lima · Rio de Janeiro, RJ 24/2/2007 11:33
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Rodolfo Arruda
 

Olá Sérgio,

de fato esse ensaio é bastante preliminar e problemático. Resolvi disponibilizá-lo justamente para ter uma noção das reações dele e por onde ele poderia estar caminhando.

Bem, esta premissa falsa de que vc fala parece um pouco com o comentário do Patrico (logo acima) e como vcs podem ver eu não discordo de vcs...

Porém, eu acho que nós não estamos caminhando para o fim da massificação cultural ... minha aposta é que iremos transitar de uma cultura pasteurizadora para uma cultura de excesso...

Em breve vou estar postando outro ensaio onde tento explicar melhor isso...

Obrigado pelo comentário e abraço

Rodolfo Arruda · Marília, SP 24/2/2007 14:29
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Sergio Lima
 

Olá Fábio!

Sem dúvida, se já não estivermos vivendo a cultura do excesso. Esta overdose de informação, que acaba nos sufocando um pouco :-(

Vou ficar no aguardo do próximo ensaio!

Grande abraço pra ti também!

Sergio Lima · Rio de Janeiro, RJ 24/2/2007 20:20
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Rodolfo Arruda
 

Oh Sérgio,

vou comentar uma coisa... agora fui perceber que eu já era frequentador do seu "blogue" bem antes de vc comentar esse post aqui... fiquei contente por essa coincidência. Gosto bastante de seu trabalho e do modo como vc aborda os assuntos. Na medida do possível, se tiver interesse a gente pode pensar algumas coisas em parceria... nada demais que demande tempo ou muito trabalho, só pra descontrair... se tiver alguma idéia entre em contato... abraço

Rodolfo Arruda · Marília, SP 25/2/2007 00:57
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