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O mundo da criança nem sempre existiu

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Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS
4/5/2007 · 130 · 12
 

A infância é uma construção histórica. O mundo da criança nem sempre existiu, afirma Dias Pereira em uma sua publicação no sítio de resumos shvoong.Por muito tempo não houve separação entre o mundo infantil e o mundo adulto, estes se resumiam em apenas um.
Desta forma a criança não era detentora de direitos específicos as suas individualidades. (Não confundir sentimento da infância com o amor e carinho dos pais para com os filhos.)
No período Renascentista "nasce" o sentimento da infância, porém este sentimento não era uniforme e homogêneo.
Salienta-se que, na maioria das vezes, o sentimento da infância estava "reservado" às elites, que dispunham dos meios necessários para garantir tratamento diferenciado com saúde, educação e cuidados para com os seus filhos.
A classe pobre não podia gozar deste sentimento, haja vista que necessitava que seus filhos, tão logo conseguissem se mover sozinhos, os ajudassem nas tarefas e no trabalho.
Kramer (1995) nos aponta que a inserção social diversa da criança impõe diferentes concepções de infância.
Assim, é impossível universalizar este conceito.
"Sendo essa inserção social diversa, é impróprio ou inadequado supor a existência de uma população infantil homogênea, ao invés de se perceber diferentes populações infantis com processos desiguais de socialização."
No Brasil também havia um paradoxo entre a infância dos filhos das elites e a infância da criança pobre.
Neste trabalho abordo especificamente o paradoxo entre a criança branca e a criança negra.
A criança negra sofreu as mais duras penas impostas pelo sistema escravista.
Ela não era sujeito de direitos e, por vezes, nem mesmo de piedade. Eram vítimas da mortalidade infantil devido às precárias condições a que eram submetidas pelos seus donos.
Tinham o seu "direito" de amamentar cerceado, pois, em muitos casos, suas mães eram alugadas ou cedidas para servirem de ama-de-leite para crianças brancas. Tão logo se tornassem "úteis" eram obrigadas a começar efetivamente o trabalho compulsório.
As negrinhas e os negrinhos eram brinquedinhos para as crianças brancas e até mesmo para o adulto.
A situação mudou quase nada com a promulgação da Lei do Ventre Livre, que estabelecia que seriam livres os filhos dos trabalhadores escravizados nascidos no Brasil a partir da data de sua promulgação.
Art. 1o: Os filhos da mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei, serão considerados de condição livre.
§1o: Os ditos filhos menores ficarão em poder e sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos.
...
Porém esses cuidados não existiam, a criança continuava acorrentada ao sistema escravista, pois não há como ser livre com pais escravizados.
Ainda por cima, a criança livre tinha que trabalhar para o senhor até os 21 anos, para pagar a sua libertação.
Esta lei também era responsável pela desestruturação da família negra, pois quando as mães eram vendidas somente os filhos "beneficiários" desta lei podiam acompanhá-la.
...
A abolição oficial da escravatura pouco, ou quase nada, mudou na vida das meninas e meninos negros. Estes continuaram sendo os parias da sociedade, "cidadãos" sem voz, impedidos de usufruir a infância.

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Roberta Tum
 

Parabéns! Não tinha essas informações sobre a institucionalização da infância. Gostei!

Roberta Tum · Palmas, TO 3/5/2007 15:45
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Adroaldo Bauer
 

Agradecido.
Pois também eu não as tinha. Da lei inclusive já conhecia comentários diversos sobre ela. Tem até um aqui pelo Overmundo, da Juliaura, parece-me.
A percepção de que a criança sempre ajudou pais nas lides é antiga, mas a de que o mundo infantil simplesmente não se constituíra, ainda que em um exemplo local apenas, desvela um universo fantástico, não te parece, Roberta?
Por esta razão postei, ainda que só um resumo.
Aqui no sul, numa destas trovas de galpão, uma vez ouvi um peão dizer o seguinte: não me vai tirar a criança da roça com essa fala de que o ofício dela é brincar... se cair da carroça, já pega na enxada!

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 3/5/2007 15:54
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FILIPE MAMEDE
 

Assunto delicado, " o mundo da criança (pobre) nem sempre existiu" e nem existe. Infelizmente, frases como essa daí, ainda serão entoadas aos quatro cantos. Um abraço Adroaldo.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 4/5/2007 10:58
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Egeu Laus
 

Pelo que soube, a infância foi uma invenção da indústria de roupas... (depois brinquedos, depois remédios, depois babás, e agora Vans (peruas segundo os paulistas) e terapeutas...)

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 4/5/2007 23:23
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Adroaldo Bauer
 

O mundo dado pelo mundo possível não é um fato irreversível, Egeu.
A instrumentalização do popular, do diferente, para pasteurização e estereotipação pelo mercado tem sido a constante do desenvolvimento e, de certo modo, do fortalecimento do capitalismo. O consumidor, como qualquer ser humano, sonha com algo além da rotina, para quebrar a angústia da repetição cotidiana do sofrimento.
É assim que funciona a socialização compensatória, quando surgem as flores de plástico e as jóias de vidro, em substituição às rosas e aos diamantes.
A infância, nos dizem os que a estudam, ainda assim é um estágio do desenvolvimento do ser humano, quando a consciência da realidade é constituída também da fantasia, do lúdico e, até, do singelo, do belo ilusório.
Não se vá dizer que ela não seja necessária porque não possa ser fruída enquanto tal.
Não se vá pensar que o estado infantil deva ser substituído pelo racional adulto que de homenzinhos e mulherzinhas o mundo está repleto, não é fato?
Crianças inteiras, cujo ofício principal seja o brinquedo e a fantasia, podem ressocializar o adulto, inclusive do ponto de vista do respeito à vida em paz e para o bem.
Isto é o que, penso, o artigo quis informar sobre a ausência de infância entre as crianças negras, primeiro escravas, hoje pobres em maioria.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 5/5/2007 09:00
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Egeu Laus
 

Desculpe o comentário, Adroaldo, foi só uma brincadeira sem graça, fazendo um contraponto com as crianças de classe média...
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 6/5/2007 01:20
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Adroaldo Bauer
 

Não se desculpe Egeu.
O comentário que fizestes desafiou-me e animou a encontrar ainda mais razões para ter publicado aquele texto, que é só um resumo, embora o autor não cite onde encontrar mais do que escreve a respeito, se escreveu.
Abraço pra ti também.



Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 6/5/2007 14:52
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Ize
 

Olá Adroaldo, navegando agora pelo overmundo achei esse texto que vc escreveu, cuja temática me é mto familiar. Caso vc ainda esteja interessado em saber mais sobre a "invenção" do sentimento de infância, o livro "A história social da criança e da família", do historiador francês Phillipe Ariès (Editora Zahar) é super legal. Ele chega a essa tese, de que o sentimento de infância é uma produção do final do século XVII, início do XVIII, a partir do exame de pinturas (por ex. o quadro As meninas de Velazquez) , antigos diários de família, testamentos e lápides de túmulos. Embora sua tese seja muito discutida, por estudos que mostram que esse sentimento foi forjado no contexto medieval do ocidente, a pesquisa dele, ao apontar que a concepção de infãncia é determinada histórica, social e culturalmente, contribuiu muito para uma maior compreensão da questão da criança no presente, colocando por terra o mito da infância única. Essa obra foi fundamental à compreensão do paradoxo para o qual vc chama atenção. Sobre a lei que vc cita, tem um artigo intitulado "Abandono de crianças negras no Rio de Janeiro", de Lana Lima e Renato Venâncio, que toca especificamente nisso. O artigo está no livro "História da criança no Brasil", organizado por Mary del Priore (Editora Contexto) que tem outros artigos excelentes, como "Pedofilia e Pederastia no Brasil Antigo", de Luiz Mott, "O Filho da Escrava", de Katia Mattoso.
Aproveito para agradecer pelos bons momentos que seus escritos têm me proporcionado.
Um grande abraço

Ize · Rio de Janeiro, RJ 24/6/2007 22:56
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Adroaldo Bauer
 

Ize,
Muitíssimo interessantes tuas indicações. Orientadoras e objetivas. Vamos aproveitá-las, sim.
Sobre As meninas, de Velazquez tem ainda aquela cautela do pintor já da corte e incensado desafiado a produzir os retratos das herdeiras.
Eram feias elas e ele o pintor do belo.
Saída de mestre, põe-se em cena e as coloca em frente ao espelho na tela.
Que o espelho diga a verdade e o mestre não perca a fleugma nem o conceito junto ao rei.
Agradeço tuas generosas palavras sobre meus escritos aqui postados.
Abraço forte.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 25/6/2007 09:32
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Ize
 

Adroaldo, esse overmundo é um perigo. A gente entra de fininho, assim como quem num quer nada e não consegue mais sair. Estava lendo uma dissertação, que aliás ia lhe interessar, a vc que é afeito às artes da palavra. Cansei, passei por aqui e, pronto, encontrei essa sua explicação pr"As Meninas que é o máximo!!! Nunca ninguém tinha me falado sobre isso. Não tenho muito tempo agora pra ficar por aqui, mas depois vou digitar pra vc um pedaço de um texto que uma amiga minha escreveu sobre a estética do belo, tomando Velazquez como apoio.
Abraço

Ize · Rio de Janeiro, RJ 25/6/2007 10:53
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Adroaldo Bauer
 

Ô Ize,
As crianças aqui em casa pegam no meu pé e dizem que overmundo é pior que cachaça, mas preferem que eu saia de olho vermelho daqui do que entre em uma garrafa.
Aliás, prefiro vinho cabernet, digo a elas.
Quem cria assim essas crianças desaforadas... sem medo de adulto, pode?
Quanto ao que falei d'As Meninas, também nunca lera a respeito, ouvi em uma palestra sobre a arte em 2000, ainda no milênio passado, e por essas infelicidades da vida, não registrei o nome do autor da fala precisa sobre as relações de poder e cultura.
Uma jóia raríssima, eu arriscaria, ainda mais em um tempo que para perder a cabeça ou queimar em fogueiras nem carecia de ser festa junina ou beber quentão - rsrsrs.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 25/6/2007 11:15
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Ize
 

Já tô eu aqui novamente pra mais dois dedinhos de prosa...Coisa boa, meu deus. O chato é que eu só fico conversando prá lá e prá e meu karma só descendo. Sobre as crianças, vc tem razão: já não se faz, melhor, já não fazemos mais crianças como as que nossos pais faziam, né rsrsrsrsrs E o vinhozinho hem, aí no Sul então...
Abraço grande

Ize · Rio de Janeiro, RJ 25/6/2007 15:07
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