- Quem foi assistir ao espetáculo do Circo Picolino no Centro de Cultura João Gilberto? – pergunta Leonardo, na altura de seus 18 anos de vida - seis de NAEND’A.
Na manhã de uma segunda-feira de abril, vozes dissonantes se espalharam pelo círculo formado por cerca de 30 crianças e adolescentes da periferia de Juazeiro-BA. Clériston, 12 anos, é o mais agitado. Com seus seis anos de oficina, ele sonha em adentrar um circo profissional.
- Sabe por que eu queria que vocês fossem assistir a este espetáculo? Para vocês verem uma coisa que eles têm e vocês precisam ter. Agora, me respondam: o que é que eles têm e vocês precisam?
As vozes dissonantes prosseguem, como se não fosse possível ficar inerte a uma pergunta como esta:
- Salto mortal – tenta um dos aprendizes.
- Não. Não é isso...
- Concentração.
- Ta chegando...
- Perder o medo.
- É por aí...
- Perder a vergonha.
- É quase isso...
Com o título de “Cenas cotidianas”, o Circo Picolino montou em Juazeiro uma apresentação baseada no dia-a-dia de uma escola de circo numa grande cidade. Acordar, escovar os dentes, lavar o rosto, trocar de roupa, pegar ônibus cheio e ensaiar são cenas que, numa apresentação circense, adquirem uma dimensão mágica.
“Coisas” que, medidas as proporções, também fazem parte do cotidiano dos mais de 200 meninos e meninas participantes das oficinas de circo, percussão, balé, dança popular, teatro, filarmônica, artes plásticas e capoeira oferecidas pelo Núcleo de Arte-Educação Nego D’Água. E de pensar que tudo isto surgiu sob uma cobertura de lona...
Estávamos no ano de 2002, quando a fundação cultural trouxe para Juazeiro um projeto de Arte-Educação que envolvia cinco Organizações Não-Governamentais de Salvador, entre elas o Circo Picolino. Durante três dias, as lonas do circo montadas para acolher as oficinas de sensibilização foram testemunhas de um momento inesquecível: a germinação do NAEND’A.
Uma semente jogada em solo fértil. A partir de um corpo em estado de vida latente, aqueles dias assistiram ao processo inicial do crescimento de uma planta, que Márcio Ângelo, primeiro coordenador do Núcleo, se recorda como se fosse ontem:
- Dentro das cinco ONG’s tinha um grupo pedagógico que discutia a criação de um Núcleo de Arte-Educação na cidade. A gente já tinha o projeto filosófico de descentralizar a cultura em Juazeiro, mas não sabíamos como. Foi aí que ficamos sabendo que a Arte-Educação fazia parte desta política que queríamos implementar.
Arte-Educação?
Leonardo, que há três anos é oficineiro de circo, ainda não se sente à vontade com esta palavrinha mágica: Arte-Educação.
- Por enquanto, eu tento multiplicar na arte, por que na educação... Eu ainda estou tentando me formar como arte-educador de circo.
A impressão é que, no NAEND’A, a Arte-Educação é parte de um processo que vem sendo construído e reconstruído cotidianamente. Como princípio fundamental do Núcleo, há a necessidade de uma compreensão da Arte-Educação em seus diversos sentidos: filosófico, sociológico, educacional, político, ambiental e cultural. Eis um desafio constante para uma realidade rica e complexa.
Atual coordenador do NAEND’A, Adegivaldo vê nesta metodologia a possibilidade da formação de cidadãos críticos, atores sociais na comunidade em que vivem. Algo que se alinha com a opinião de Elzirene, pedagoga e arte-educadora de artes plásticas. Para ela, a linguagem artística é um veículo:
- O nosso objetivo maior não é formar artistas, mas sim oferecer às crianças e adolescentes dos bairros próximos uma formação voltada para a questão da cidadania, consciência ambiental, valorização da cultura popular...
A maior parte destas crianças e adolescentes que hoje têm a oportunidade de preencher o turno oposto à sala de aula com oficinas criativas são de localidades que há pouco tempo eram vistas como à margem da sociedade juazeirense. Entretanto, já é possível vislumbrar uma nova percepção social.
Isto porque além de despertar nas crianças e adolescentes dos bairros próximos a ânsia de querer ir além dos 150 metros quadrados do espaço de oficinas, a presença do NAEND’A tem incitado a formação de um público cativo nos eventos culturais da cidade.
O bairro do Kidé, sede do NAEND’A, já é uma referência cultural em Juazeiro. Antigamente dizia-se, ao se referir àquela faixa de terra afastada do centro: "Eu vou para o que der e vier". Daí ficou: Kidé. Hoje ninguém duvida do que se pode encontrar na Rua das Algarobas ou do que a Rua das Algarobas pode encontrar...
Não por acaso, a pergunta feita por Leonardo na primeira linha deste texto faz muito sentido. A maioria das pessoas presentes no Centro de Cultura João Gilberto para o espetáculo do Circo Picolino era proveniente do Kidé. A distância física, neste caso, foi compensada pela proximidade afetiva. Leonardo continua:
- Por que eu perguntei o que é que eles têm e vocês precisam? Não é questão da habilidade de dominar um malabaris com seis ou sete bolinhas ou andar no monociclo de dois ou três metros não. Se vocês se dedicarem a isto, melhor ainda. Só que hoje eu quero é que vocês comecem a falar e ouvir, respeitar uns aos outros, ajudar todo mundo, em casa, na rua, na escola... Não esqueçam que quem vai dar aula de circo mais tarde serão vocês.
Detalhe: Por falta de financiadores para as atividades desenvolvidas no NEND'A, todas as pessoas que facilitam as oito oficinas oferecidas pelo Núcleo trabalham voluntariamente.
Excelente texto, muito bem escrito, sobre um projeto da mais alta relevância para a região.
Mauricio Caleiro · São Paulo, SP 27/4/2008 03:12
Luís, agora entendo sua leveza e generosidade. que absurdo um projeto desse porte nãocontar com financiamneto suficiente.
Você viu que a Lei Rouanet está sendo repensada?
Os avaliadores pedem, por exemplo, uma autorização do Machado de Assis para um projeto de comemoração do aniversário da morte dele. rsrs.
Arte e Educação pra todos.
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