Tropa de Elite tomou de assalto todas as mesas de conversa do paÃs, com repercussões inclusive na grande mÃdia internacional antes mesmo de ser pirateado por lá. Entretanto, o debate em geral está focado nos apaixonados julgamentos das muitas denúncias formuladas pelos autores do livro Elite da Tropa, que atrofiam ou hipertrofiam o filme dirigido por José Padilha e seu personagem capitão Nascimento, elevado à condição de herói nacional. Para decifrar um fenômeno que transcende a esfera artÃstica para intervir no cotidiano real é preciso analisar seu discurso.
O primeiro diferencial dessa ficção bastante baseada na realidade é sua importância temática. Abranger razoavelmente no espaço de um filme o problema número um da nação já é um enorme desafio. Adicionar com profundidade os problemas dois e três, e ainda manter-se dentro dos limites comerciais de duas horas de exibição, é virtualmente impossÃvel.
Primeiro, Tropa de Elite mapeia do soldado ao coronel, da polÃcia civil até a elite da polÃcia militar, a tragédia estrutural da insegurança pública brasileira. Segundo, flagra o problema da corrupção focado no nÃvel das ruas de algumas favelas e bairros afluentes do Rio de Janeiro: comércio de drogas, compra de segurança polÃcial e também de sua tolerância com pequenos delitos. E terceiro, interrelaciona os atores da desigualdade social desde a escola primária do morro até a sala da faculdade de Direito mais cara da Zona Sul carioca.
Esses panoramas, bastante ambiciosos, são traçados a partir das vivências do ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) do Rio Rodrigo Pimentel (que teve a iniciativa de procurar o diretor José Padilha e é co-autor dessa adaptação para o cinema), do ex-capitão da PolÃcia Militar André Batista (também ex-Bope) e de Luiz Eduardo Soares, antropólogo, ex-secretário nacional de Segurança Pública com livros sobre o tema, registradas em Elite da Tropa.
Contudo, autoridade, conhecimento e boa estruturação de um tema não bastam para capturar no ar um grande e difuso anseio comum (que é o combustÃvel de qualquer sucesso) e respondê-lo. Para seduzir esse anseio, não bastam boas respostas formais. É preciso descobrir novas "janelas“, pontos de observação inquietantemente diferentes de tudo aquilo que vinha sendo conversado pela sociedade.
As novidades são basicamente três, com diferentes potenciais de polêmica. A menos explosiva decorre basicamente de uma descrição detalhada dos mecanismos de corrupção presentes desde as bases estratégicas da atuação policial, que é o levantamento estatÃstico. Segundo o filme, esse é deturpado pelas altas patentes. É afirmado que a guerra do tráfico nas favelas do Rio seria mapeável se as estatÃsticas não fossem maquiadas. (A repetida descontextualização de números e fatos na imprensa passa ao público a impressão de que o problema não teria solução. Fica implÃcito em um debate dentro do filme o despreparo das reportagens ou a falta de coragem das redações.) Ainda nesse ponto, o filme acrescenta que os recursos para um controle eficiente do problema já existem, mas estão deslocados para a proteção de restaurantes, clubes e bordéis em troca de propina.
A segunda é uma bofetada nos consumidores de drogas das classes média e alta, que estatisticamente são os mais volumosos, incluindo o público universitário, diretamente responsabilizados pela morte de crianças e outros inocentes nos morros em razão do tráfico de maconha, cocaÃna, etc. Já foram feitas campanhas alertando que comprar objetos roubados é incentivar o roubo e essa ficha parece já ter caÃdo pelo menos para a parte melhor educada dos consumidores brasileiros. A ficha no caso da compra de drogas ainda não caiu.
A terceira é uma das cenas mais fortes do filme, quando uma manifestação pela paz é violentamente interrompida pelo policial que cobra aos socos e pontapés de um estudante traficante a morte de outro policial. Os outros manifestantes também são acusados de hipocrisia quando o policial afirma que essas iniciativas só acontecem quando morre gente rica e quase nunca quando a vÃtima é um favelado, ainda menos um policial. Esse fato estatÃstico abre portas para outros questionamentos. A permissividade de ONGs que fazem pactos com traficantes para agir nos morros também é denunciada por quem arrisca a própria vida quando o lobo resolve retomar sua condição natural. Sem livrar a cara de ninguém, o filme nos convida a rever a demonização generalizada da polÃcia.
As acusações de fascismo contra o filme partiram de artigos e entrevistas de integrantes das classes média e alta e em geral de orientação esquerdista (especialmente preocupados com a heroização do capitão Nascimento). Seria possÃvel refutar os primeiros afirmando que reagem seguindo um espÃrito de corpo, mal-disfarçada solidariedade para com seus colegas e vizinhos, que seriam sim bem-intencionados em suas iniciativas em favor da paz e, se consumidores muito eventuais de um baseado ou uma carreirinha, incapazes de comprá-los de uma criança. A posição dos segundos poderia ser descreditada com o fato de que a redemocratização do Brasil trouxe um afrouxamento perigoso da segurança pública, uma tolerância que se poderia chamar de católica dos centro-esquerdistas, que temem ser confundidos com autoritários e são avessos à tarefa de impor a ordem. Essas respostas flagram raÃzes importantes do debate, mas têm o defeito de entrincheirar ainda mais o conflito de classes e o diálogo entre facções polÃticas, além de não responder à acusação inicial.
O pivô das acusações de fascismo é a prática policial de espancamentos e formas rápidas de tortura para induzir confissões e delações no filme. Dentro do estado de direito, isso é evidentemente ilegal. Mas as situações vividas pelo capitão Nascimento se passam num ambiente de ações e armas de guerra. Nesse caso, como diz a epÃgrafe do filme, o comportamento humano não responde ao caráter individual da pessoa em questão (ou seja, ao respeito que ela tenha pelo estado de direito), mas à sua circunstância. E de fato a guerra não conhece cidadãos, mas apenas mortos ou sobreviventes. E aqui se revela um componente chave para a surpreendente lógica geral do filme: a tortura não está a serviço da corrupção, mas do combate a ela e ao tráfico. (Há quem afirme ser insustentável a posição de Nascimento com o argumento de que a tortura está sempre a serviço da corrupção. Esse julgamento ignora uma vasta literatura de guerra.) No centro da guerra, mesmo que se deseje fugir dela, é preciso escolher um lado. A não ser eventualmente para crianças e vovós, bandeiras brancas não são uma alternativa.
O roteiro assinado pelo ex-capitão Rodrigo Pimentel, por Bráulio Mantovani (também roteirista de Cidade de Deus) e pelo diretor José Padilha preencheu um requisito essencial de toda grande obra (que é criar um personagem mÃtico) e vem encabeçar um movimento (inclusive estético) de filmes dedicados ao maior problema brasileiro. Se um grande sucesso traduz o anseio de uma época, o capitão Nascimento é o emblema de um cansaço generalizado com o gangsterismo que ainda impera no comando do capitalismo brasileiro. Mais de 230 anos depois, o fenômeno das românticas casacas azuis, que na Europa estilizavam os sofrimentos de jovens enamorados pelo personagem Werther, é revivido aqui nas filas de moços ansiosos por uma farda militar preta e tatuagens de faca na caveira. Se, como o personagem de Goethe, também encontrarem a morte, que pelo menos essa não venha por suicÃdio.
ai ai .. sempre a mesma mesmice :P ... denúncias sociais malvestidas numa ficção cinematográfica que apenas faz entorpecer o espectador. Não creio que necessitamos do cinema, ou de qualquer arte para tal, os jornais estão aÃ, os manifestos e etc... o que faltou ao Padilha foi mostrar sua cara frente à toda problemática. Estudantes universitários usuários de drogas são hipócritas aos gritarem pela paz? Ora, pois, o que nos faz pensar que os conflitos entre traficantes e policias seja uma guerra? A intensidade brutal? O número de mortes? Conflitos de interesses? Guerra? A ponto de uma tropa utilizar-se de tais estratégias e lidar com favelados como se fossem todos terroristas? Seria mesmo uma guerra? Acho que está na hora de repensarmos o canhão de tudo isso ... a legalização das drogas ... negar-se a isso sim, é hipocrisia ...
Danielle Ribeiro · São Paulo, SP 24/10/2007 13:20Amigo Higor, falei no suicÃdio não só porque o Werther opta por ele, mas porque o Ãndice de suicÃdio entre jovens recém chegados a um quartel é muito grande. Não sei responder a sua pergunta, mas se pudesse, escolheria aquela do amante octagenário assassinado por ciúmes. Concordo com o diretor de cinema e teatro Fassbinder: "A vida é muito preciosa, mesmo neste exato momento." Abraço
Marcelo Oliveira da Silva · Porto Alegre, RS 24/10/2007 13:35Danielle, mesmice pode estar em muitos lugares, mas nunca num filme brasileiro que duas semanas depois do lançamento oficial alcança 4 milhões de pessoas. Também não vejo entorpecimento algum: o filme está sendo debatido em virtualmente todas as publicações, tvs, rádios e mesas do paÃs. Não acompanhei todas as entrevistas do Padilha, mas li algumas e acho que ele botou sim a cara pra bater. Não, não acho que nenhum autor seja obrigado a isso. Pra isso tem a obra e acho que até seria melhor se os autores se negassem a entrar no debate sobre suas obras. Criar e cifrar são habilidades muito diferentes de criticas e decifrar. Hipocrisia: acho sim que quem se manifesta contra os roubos e compra peças roubadas é em primeiro lugar um hipócrita. E a droga é componente central na pacificação das metrópoles brasileiras. Se é guerra? Bem, se num conflito há anos recorrente são usadas armas e ações de guerra, se nele morre gente como numa guerra civil, me parece lógica a resposta. Concordo contigo sobre a necessidade de repensar tudo isso e também na necessidade de se planejar a legalização da maconha. Ajudaria a diminuir o tráfico. Sobre as outras drogas eu também sou a favor do debate, mas não tenho ainda uma posição.
Marcelo Oliveira da Silva · Porto Alegre, RS 24/10/2007 13:55
Oi Marcelo, vejo que Padilha tem penado mais em colocar sua obra como autêntica arte e não apenas filme de entretenimento. Não apenas pelo fato de ser o filme criticado por fascismo, do qual me isento de comentar, pois tais atrubuições são relativas num filme que se propunha inicialmente ser um documentário. Mas absoluta é a certeza que tal filme é entorpecente de entretenimento, tanto quanto foi Cidade de Deus, e muitos desses filmes que extrapolam na velocidae e intensidade das cenas de violência para entorpecer o espectador. Os grandes cineastas, como Bunuel e Eisenstein, usavam poética para minimizar os efeitos narcóticos das cenas de violência e permitir ao espectador um mÃnimo de reflexão DURANTE o filme, além de se posicionarem a respeito. Como filme de entretenimento, e não de arte, tropa de elite não trás nada de novo e de diferente do que há nos jornais, apenas se ressalta pelo poder de atingir em cheio nossas emoções.
Também acho que um policial que se utiliza de estratégias de guerra, mata e tortura, é hipócrita ao protestar o protesto dos estudantes. E se tudo é hipocrisia, então nada é hipocrisia.
Existe uma lei nesse paÃs que coÃbe algo que é incoibÃvel no meu entendimento. Talvez essa seja a hiprocrisia mãe de todas as outras.
Faço glórias ao nosso debate .. sempre muito produtivo .. beijos
Mas será caros amigos, que o filme queria trazer algo de novo ?
Será que o marketing feito antes do lançamento com os dvd's piratas, que por sinal os produtores abriram mão e organizaram essa festa toda, para posteriormente tem o boom de espectadores para dar nome ao produto ofertado.
Os jornai... não eles não mostram que hoje se mata mais que na época da ditadura militar, que estes polÃciais são mais corruptos que outrora e que as pessoas usam como meio e não como fim para determinar sua condição.
Ontém foi a festa do prêmio Vladimir Herzog de direitos humanos, lá sim tinha ótimos trabalho da imprensa e que a maioria não são dos grandes veiculos...
É justamente esse o meu grito Higor! Essa disseminação do pensamento de marketing que tem assolado toda arte e retirado seu caratér, não apenas intelectual ou ideológico, mas humanitário também. Nesse sentido acho que os filmes, como obras de arte, têm de trazer algo de novo. pois hoje em dia está tudo muito igual nas telinhas do cinema, não se cria mais nada, apenas se produz em cima de uma fórmula primordial e, de vez enquando, se faz valer tais estratégias de venda. Cadê a arte? .. Não vejo mais ...
Quanto ao jornal, é uma grande discussão também. Existe uma gritante diferença entre o jornalismo impresso e o televisivo, o que daria mais páginas e páginas de debate. Tive conhecimento do Prêmio Vladmir Herzog, passou na cultura e teve colocação em alguns veÃculos eletrônicos e impressos.
Quanto à legalização das drogas, para o Marcelo, gostaria de perguntar se é possÃvel dizer que morre mais gente pelo uso das drogas ou pelo tráfico? ... Será que isso é mesmo uma guerra? .. Ou apenas uma hipocrisia legislativa?
beijos, caros amigos ;-)
Danielle, respondendo o teu comentário anterior, também lamento muito a sangüera toda (inclusive as de mentirinha, nas telas) que nos cerca por todos os lados e mÃdias. Como você, também sou admirador de Buñuel e Eisenstein. Eles merecem muito mais retrospectivas e atenção de novos artistas, mas ambos começaram antes da Segunda Guerra. Os milicos daquela época ficaram absolutamente chocados quando em 1939 as polÃcias e exércitos estrearam a prática de atirar também em civis – a tal “guerra total†que o Hitler verbalizou e o general Franco iniciou na Espanha.
A decadência moral da nossa civilização ocidental ganhou um enorme impulso depois dessa novidade e depois disso foi só ladeira abaixo. O último capÃtulo do descaramento desse horror é a tortura oficializada, sem direito a julgamento e fica tudo por isso mesmo, como é o caso dos talibãs e iraquianos prisioneiros dos EUA em Guantánamo. (Em volume, são atos pequenos. O que assusta é vai contra todas as constituições e convenções internacionais, o mundo inteiro sabe, e no entanto fica por isso mesmo.)
Em resumo: os tempos são outros. Acho muitÃssimo difÃcil que qualquer ficção em escala industrial (tv e cinema) capture a atenção de tanta gente nos dias de hoje sem explicitar essa decadência sangrenta quase generalizada do ser humano atual.
Quanto aos jornais: o Higor tem razão quando diz que apenas as mÃdias independentes não têm o rabo preso com os grandes interesses econômicos e polÃticos. Quando você diz que o filme não traz nada de diferente do que está nos jornais, eu só posso concordar se você estiver falando desses independentes.
De resto, não há um grande jornal, uma grande revista, um grande noticiário de tv e rádio que contextualize o problema como o Tropa de Elite faz. (Até por que quase ninguém teria saco pra ler sobre a violência pelo espaço de duas horas. Só com mÃdia audio-visual se consegue isso.)
Citei o que julgo contribuições importantes do filme pro debate: tem o assunto de mapear os pontos mais freqüentes do crime e sugerir a concentração neles (ao invés de proteger restaurante caro), tem uma visão diferente sobre a demonização generalizada da polÃcia (é mais fácil culpar o peixe pequeno), tem o assunto de FINALMENTE acusar a hipocrisia de quem prega paz e compra produto traficado, etc. Não é nada pop fazer isso, mas é necessário.
Há imperfeições? Há. Mas também há pontos de observação relativamente novos, ou que pelo menos não haviam sido formulados tão claramente antes. E tão importante quanto o que se diz é a maneira como se diz.
O que temos pra ler e ouvir nas manchetes e capas da grande mÃdia é uma enxurrada de sangue e números desconexos – estes sim só servem pra entorpecer e amedrontar o público.
E viva o debate! Beijos aos dois!
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