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O outro lado da vida

Helena Aragão
Cloves dá entrevista no lançamento do livro No Olho da Rua
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Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
22/5/2008 · 203 · 19
 

“Na minha infância, minha mãe ensinou-me que devíamos pedir perdão aos mendigos. Nessa época, muitos deles batiam à nossa porta. (...) Quando não tínhamos o que oferecer, devíamos pedir “perdoe-me”. (...) Trinta anos depois tive de buscar uma explicação para dar a meu filho quando ele me perguntou por que eu mentia para os pedintes: eu dissera a algumas crianças, num sinal de trânsito na Barra da Tijuca, que não tinha os trocados que eles me pediam. Eu havia, ao longo do tempo, substituído o “perdoe-me” de antes pelo “estou sem trocado” de agora. Foi justamente por essa época, em que meus pensamentos se dividiam entre as lições de minha mãe e as de meu filho, que fui surpreendido com um convite para coordenar a Fazenda Modelo, um dos maiores abrigos para mendigos do mundo. Esta é uma tentativa de narrar meu encontro com esta fazenda e suas conseqüências; o encontro comigo mesmo e com aquele menino que, de algum modo, continua a sentir a necessidade de pedir perdão”.

Este contundente depoimento do médico Marcelo Antonio da Cunha ilustra a contracapa de “No olho da rua”, livro em que relata as experiências e histórias vivenciadas ao longo de três anos à frente da Fazenda Modelo (leia um trecho aqui). Na última terça-feira, no lançamento-seminário organizado pela Editora Nova Fronteira realizado no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, o que sobressaía era exatamente o desconforto e a perplexidade da classe média diante dos abundantes pedintes nas ruas. Se na parte da manhã foi discutida a dimensão política da questão, à tarde o foco estava na arte e no seu potencial para desnudar estigmas e mudar vidas. Tanto as de gente “da rua” quanto as dos artistas que resolveram fazer alguma coisa com sua perplexidade. Daí a idéia de colocar na mesma mesa ex-moradores de rua que se destacaram como artistas, ex-funcionários e gente como o cineasta Marcos Prado (de 'Estamira') e Luciano Rocco, editor da Revista Ocas e os fotógrafos André Valentim e Marco Terranova (autores, respectivamente, do ensaio fotográfico e do documentário sobre a Fazenda Modelo).

A fala de Terranova, aliás, aproximou-se da de Marcelo Antonio ao se remeter à infância e mostrar como, no fundo, passamos a vida em busca de respostas para a situação de indigência. “Quando tinha 15 anos, perguntei a um mendigo se podia fotografá-lo e ele disse não. Quando perguntei por que, ele disse: 'Porque *não* é a única coisa que tenho'. Ele me deu uma grande lição ali, mostrou que uma palavra pode representar respeito e que quem trabalha com imagem tem uma responsabilidade muito grande”. Valentim foi pela mesma linha. “Alguns moradores resistiam no começo, outros pediam para ser registrados em determinadas roupas e situações. Quis usar a fotografia para mostrar a dignidade dessas pessoas, fazer o público não desviar o olhar daquilo que em geral não queremos ver.”

Interessante ele falar em olhar. É uma coisa que sempre chama atenção nos mendigos. Em geral, parecem trazer um tipo de sabedoria que só a rua sabe dar. Isso se confirmou ao ver Barnabé, Cloves e Memorina, todos ex-mendigos, sentados à mesa junto com os artistas “profissionais”. Memorina é cega, mas a rigor não destoava dos outros dois, que também olhavam para o vazio, para algum ponto fixo da deslumbrante sala antiga do FCC, enquanto ouviam os participantes falarem. Com o microfone à mão, Cloves e Barnabé optaram por recitar, cantar ou falar coisas que remetiam mais a um fluxo de consciência do que a um relato. Memorina, por sua vez, fez uma fala forte e eloqüente, que mostra como a relação com os sentidos podem ultrapassar a barreira do banal:

“Quando o doutor Marcelo chegou no alojamento para me fotografar, sei lá, não achava que pertencia mais a este mundo. Chorei e me escondi com o lençol. Ele respeitou. Depois apareceu dizendo que ia formar um coral. Nunca tive a idéia de cantar. Mas acabei participando. Aí comecei a ter outros pensamentos. Eu estava me desenterrando daquele buraco em que estava. Aquilo foi me despertando. Me transformei em outra pessoa e passei a viver outra vida.”

Não à toa, mais tarde Memorina se deixou fotografar.

Interrompida pela emoção, Memorina deu lugar à fala de Beatriz Resende, diretora do FCC e professora de literatura. Ela aproveitou esta história da senhora para relembrar as fotos que recuperou do antigo hospício, que funcionava exatamente ali, onde mais tarde seria abrigada a Universidade do Brasil (atual UFRJ). Dentre tantas imagens de crianças e alcóolatras, chamava atenção a de uma senhora, cujo diagnóstico se limitava ao genérico rótulo de “histeria”, que sempre aparecia com as mãos escondendo o rosto. Exemplo de resquício de dignidade (“a única coisa que tenho”) que completou com propriedade as falas de Terranova, Valentim e Memorina.

Por trás do cartão postal

Beatriz ainda aproveitou para contextualizar aquele seminário no tempo e no espaço: “Hoje, treze de maio, é simbólico por ser o dia da abolição, mas também o aniversário de Lima Barreto, escritor que pesquiso há anos e que morreu neste prédio, quando ele era um hospício. Encontrei as fotos ao buscar o último documento de internação dele aqui. Foi aí que tive a clareza do sentido deste prédio tão grande, que hoje chega a comportar uma universidade, ter sido construído para abrigar desajustados. Vendo as fotos, entendi que não era bem um hospício, mas sim um espaço para recolher os indesejados do Rio de Janeiro de cartão postal.”

De fato, certas coisas não mudaram.

A Fazenda Modelo também era enorme. Foi criada em 1947, mas virou abrigo em 1984. A idéia era funcionar como uma fazenda de verdade, com plantação, criação de animais e atividades ao ar livre, buscando integração e auto-sustentabilidade. Quando Marcelo chegou à direção, em 1999, viu que o caminho tinha sido totalmente desvirtuado. O espaço virou um depositário de seres humanos sem qualquer perspectiva, que recebia cada vez mais gente retirada das ruas (do pretenso cartão postal) e encaminhada por um ônibus apelidado de “cata-tralha” ou “mendigão”. No decorrer das páginas, vamos tomando conhecimento da variedade de histórias, muitas delas surpreendentes, de gente que já teve família, bens, trabalho e que, como num piscar de olhos, perdeu o rumo. E, no fim da linha, encontrou a Fazenda Modelo.

Em alguns momentos, de tão desalentador, o relato chega a lembrar a degradação humana de 'Ensaio sobre a cegueira', de José Saramago. Bandidos, agiotas, traficantes, prostitutas, todo tipo de gente se misturava naquele espaço. Famílias inteiras moravam ou se formavam por lá, a ponto de se estenderem por gerações no local. Curiosamente, dentre as estatísticas com números alarmantes, a prática de suicídio não se destacava. “Talvez seja isso que os diferencie de outras pessoas em crise: querer continuar vivos. Têm um estranho apego pela vida”, conta o autor.

Ao longo de suas conversas com os moradores, Marcelo foi tentando entender como se dava o rompimento daquela frágil linha que separava os dois mundos, o de casa e o da rua. “O que percebi é que é muito fácil passar para 'o outro lado da vida'”, relata ele no livro. “Difícil é sair dele.” Exemplo disso é a trajetória de Barnabé. Músico que tinha conquistado algum prestígio em São Paulo com o nome artístico Ébano, ele se desvirtuou de alguma forma a partir da separação da mulher. Acabou na FM sem dar pistas de paradeiro. Vinte anos depois de seu sumiço, um produtor musical ligou cogitando que pudesse estar lá. Isso resultou no reencontro com a família. Mesmo assim, Barnabé acabou voltando para o abrigo. “Tinha ficado muito difícil, depois de sua vivência na rua, readaptar-se ao convívio familiar”, conta Marcelo no livro. “Jair e Ébano tinham morrido definitivamente. Ele agora pertencia ao mundo da rua, e era assim que preferia viver.”

Antes de ser descoberta sua identidade, Barnabé já tinha dado amostras de sua musicalidade na rotina da Fazenda e compôs várias canções sobre a vida nas ruas que viraram verdadeiros hits por lá. Da mesma forma espontânea, Cloves fez de seu quarto no abrigo uma verdadeira instalação, com móbiles, papel machê e luzes. Sua obra chamou tanta atenção que Marcelo resolveu chamar um especialista – em artes, e não em psiquiatria – para avaliar. Resultado: depois de participar de algumas exposições no Rio, Cloves foi um dos nomes selecionados para a Bienal de São Paulo.

Daí a fazenda começou a dar frutos em outras culturas, para além da horta, das plantas medicinais, dos porcos. Oficinas de artes passaram a fazer parte da rotina. “Descobrimos um galpão enorme, cheio de lixo. Àquela altura já éramos uma gangue e limpamos aquilo, ocupamos com peças e filmes e começamos a atrair até gente do entorno”, conta Dinah Oliveira, responsável pelas aulas de teatro. As peças, com histórias relacionadas às experências dos moradores de rua, eram impactantes – como pode ser conferido em trechos do documentário sobre a Fazenda. Como Cloves, outros internos se destacaram por seu talento, o que fazia os funcionários ficarem ainda mais cismados com os rumos que certas vidas acabam tomando.

Mas afinal, qual é o real valor dessas iniciativas artísticas num lugar onde a dignidade era artigo a ser buscado? Em um dos capítulos finais, Marcelo começa a descrever o processo de desconstrução da Fazenda Modelo, que deixou de funcionar em 2003 após um longo período de transferência dos abrigados para lugares mais preparados para recebê-los (portadores de deficiência em instituições especializadas, idosos em asilos, famílias em casas pagas por auxílio-moradia etc.). Diante da dificuldade da "desconstrução", ele conta que passou a se questionar tanto sobre a validade de todo aquele esforço que em certos momentos achava até o trabalho artístico com cara de verniz, maquiagem dentro de uma realidade sem perspectiva. Mas ao longo do livro, percebe-se que essa visão pessimista não tem vez quando o diretor relata alguns episódios envolvendo as atividades culturais.

Dentro de um ambiente inóspito e carente de tudo como aquele, a arte poderia até ser considerada inútil. Mas afinal, o que é útil? Difícil responder. Mas exemplos sempre podem ajudar. Em uma encenação de incêndio, Cristina, uma das internas da platéia, ficou tão nervosa que começou a ajudar a remover as pessoas do galpão, aos prantos. Sua atuação foi tão forte que as pessoas chegaram a ficar na dúvida se era uma atriz ou não. Descobriu-se, depois, que ela tinha testemunhado um incêndio real na fazenda, anos antes, daí a reação exacerbada. Depois do episódio, ela acabou entrando de cabeça no teatro. Marcelo conta: “Uma vez perguntei-lhe se o teatro tinha mudado algo na sua vida e ela respondeu: 'Me fez acontecer'. Antes dele, segundo ela, nada na sua vida fazia sentido. Com o tempo, Cristina recuperou a guarda dos filhos, conseguiu auxílio-moradia e alugou uma casa nas proximidades da fazenda. Mas ia freqüentemente ao abrigo para os ensaios e as apresentações. Não abandonou a vida de atriz.”

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Cida Almeida · Goiânia, GO 20/5/2008 11:29
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Elcio Machado · Ubatuba, SP 23/5/2008 09:25
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FILIPE MAMEDE · Natal, RN 23/5/2008 09:49
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Luiz Carlos Garrocho · Belo Horizonte, MG 23/5/2008 17:27
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Coluna do Domingos · Aurora, CE 2/10/2008 11:48
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lilica123 · Duque de Caxias, RJ 23/12/2008 02:20
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