O ouvido de dentro

Marcus Assunção
A Sinfônica.
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Marcus Assunção · São João del Rei, MG
24/2/2007 · 138 · 3
 

O que faço, eu, Rodrigo Sampaio, 25? Cuido da boa música na bela e tricentenária São João del-Rei, cidade ritualística e musical. Imaginem-me, maestros. A andar pelo cais do rio com a aba do sobretudo cobrindo metade de meu rosto, em dia frio de inverno; a fazer com que sob minha batuta se erga o dia quente, no verão chuvoso. A religiosidade dessa cidade me encarna. Por outro lado, dentro de igrejas austeras, faço com que as flores se acomodem ao abrigo das narinas, das orelhas, das axilas dos santos. Desencarno esta cidade.

Deixarei o conservatório de música, voltarei a ser de carne e osso. Eu também sou dos jornais. Folheio o jornal, levanto-me, posto-me à janela e vejo a rua sinuosa, quando os lampiões estão quase acesos. Eu os vejo acesos. Em meio à algazarra do fim de tarde, o meu ouvido de dentro, expressão de Villa-Lobos ao compor com ele em ambientes barulhentos, ouve meus momentos felizes à frente desta casa, a resposta calorosa do público com longos e sonoros aplausos no pedido de bis. Meu ouvido de dentro já ouve a fechadura quando, ao virar a chave desta sede pela última vez, saberei que este corriqueiro gesto será o fim de um período de dois anos de muito trabalho, dedicação, lutas, conflitos, alegrias, emoções e, principalmente, a sensação do dever cumprido. Quanta saudade, minha querida Sociedade de Concertos Sinfônicos, ou simplesmente, “Sinfônica” de São João del-Rei.

Tudo começou em 1997, quando por idealismo, paixão e amor, o já saudoso professor Ary Rodrigues assumiu a presidência da Sinfônica. Nesta época, ainda jovem no meio musical de São João del-Rei, tornei-me membro do coro no naipe dos baixos. A sede se encontrava em situações precárias; a orquestra e coro, suponho que desarticulados, pois apesar de quatro anos de música no Conservatório Estadual nunca tinha ouvido falar da Sinfônica.

Começaram os trabalhos administrativos e musicais e aos poucos a sede ganhou um novo forro para seu salão principal. Foram retomados os ensaios do coro e orquestra. Nessa mesma época, ingressei na orquestra Lira Sanjoanense também no naipe dos baixos. (Minha iniciação musical aconteceu na Associação dos Coroinhas de Dom Bosco da Catedral do Pilar, onde aprendi flauta doce e participava do coro dos coroinhas).

No início era um casamento perfeito. Tudo era novidade e havia sempre o aprendizado. E a possibilidade da prática musical era o principal benefício daqueles tempos.

Fui aprimorando meus conhecimentos musicais dia-a-dia tanto nas orquestras quanto no Conservatório. Ingressei também no Bacharelado em Piano pela Universidade do Estado de Minas Gerais(UEMG), mas sempre com um pé aqui e outro em Belo Horizonte.

O tempo foi passando e sete anos após meu ingresso nas duas orquestras aconteceu um fato que marcou o início de uma trajetória curta e rica que viria a seguir.

Era início de 2003 e retomamos as atividades do coro e orquestra da Sinfônica para realizarmos o concerto de reabertura do Teatro Municipal . Nesta época, se não me falha a memória, assumi a função de preparar o coro por não ter quem fazê-lo. Apesar de novo e desafiador para quem não tinha experiência neste trabalho, assumi a tarefa e após o adiamento da reabertura do teatro(marcada para início de fevereiro), marcamos nossa primeira apresentação para o dia das mães na Igreja de São Francisco de Assis.

Naquele 11 de maio de 2003 foi despertada em mim a vontade de fazer algo mais. Ao ouvir a primeira parte do concerto que era só orquestral, pensei comigo mesmo, as coisas não estão no seu lugar. Tudo está embolado, confuso, e neste meio do caminho, a intenção musical perde-se também. Não é justo com os músicos que ali dedicam parte de seu tempo para manterem a tradição musical sanjoanense trabalharem aquelas peças daquela forma, pois as notas eram executadas, mas era preciso apenas limpar e pôr cada coisa no seu lugar; faltava ser especial, faltava ter algo mais.

Nesta mesma época comecei a ensaiar o coro da Lira Sanjoanense para a tradicional festa da Assunção de Nossa Senhora. E foi ali, na Catedral do Pilar, na missa solene do dia 15 de Agosto de 2003, que fiz minha primeira regência à frente de um coro e orquestra. Eu que um dia estive ao lado do altar ajudando as funções litúrgicas e durante estas funções apreciava as orquestras, subi lá em cima, no coro da igreja, com a batuta em mãos, pronto para o ecoar dos sons aos meus gestos. E como foi especial aquele dia...

O ouvido de fora me chama para a cidade. Os lampiões acesos na rua sinuosa, os velhos acolchoados conversando de braços cruzados, o garoto passando com o embrulho da padaria. Ignoro o jornal, folheio o jornal. Penso na cidade. Para mim, acima de tudo, acima de seus problemas, de suas cúpulas políticas, de suas cúpulas com cruzes que apontam o céu, tem essa riqueza e qualidade de um repertório próprio (do chamado Barroco Mineiro), tem a qualidade dos músicos que hoje residem em São João Del Rei, pois muitos que se aperfeiçoaram fora (com graduação em música, inclusive), hoje atuam aqui podendo devolver à cidade uma maior gama de conhecimentos adquiridos. Ademais, considero com prazer a vinda de músicos de outras paragens e que atuam na cidade graças ao vínculo empregatício no Conservatório ou na UFSJ.

Sim, temos três orquestras e quatro bandas oferecendo aos músicos da cidade um campo de atuação muito rico e diversificado, temos o Conservatório Estadual de Música, que possibilita o acesso da comunidade ao aprendizado musical gratuito a partir dos 6 anos de idade, e que hoje em dia possui cerca de 1500 alunos. Alvíssaras!, a criação do curso de música na UFSJ que ainda engatinha, mas que com certeza colherá muitos frutos.

As luzes dos lampiões ao longo da rua sinuosa, que vejo apagadas. Nenhum sinal dos velhos, crianças passam de bicicleta. Maestros, deixo a Sinfônica. É o fim, é o recomeço? Giro a chave, tranco a porta, fico sobre o degrau: o ouvido de dentro me diz que sim.

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SILVASSA
 

fabuloso...

SILVASSA · Salvador, BA 24/2/2007 08:37
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Rafael Campos
 

Belo texto da nossa São João del-Rei!
Abs!

Rafael Campos · Belo Horizonte, MG 24/2/2007 15:05
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Marcus Assunção
 

valeu moçada

Marcus Assunção · São João del Rei, MG 26/2/2007 18:37
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