O papel dos stickers

Popstencil
1
Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG
6/3/2006 · 161 · 14
 

Um caos de papel compõe as ruas das cidades grandes. É um sem-número de panfletos, propagandas, cartazes, flyers e outras formas de lixo-celulose. O santinho político, a mãe-de-santo que promete a sorte, o corte de cabelo barato, a promoção de celular: o olhar passa sem notar, o papel é jogado fora, logo após ser breviamente consumido. Em meio ao desinteresse completo surge um personagem bem mais interessante: o sticker.

Cláudio Alcântara é um dos que está presente há mais tempo nas ruas da capital mineira. De observador interessado passou a atuar, desenvolvendo seu trabalho pessoal. Durante 15 anos viajou pelas capitais do país, fotografando pixações, desenhos e escritos de artistas anônimos. Logo sentiu a "coceira" e, além de fotografar, começou a realizar. "Eu não tinha técnica com o spray , então, passei a fazer tags com marcador, giz, látex e com xerox. Essa foi uma nova forma de me expressar. Passei a colar por onde andava e por todas as cidades que passava, lançando Xerel", conta. A personagem surgiu de um rabisco em um bloco de anotações, enquanto o autor falava ao telefone. "Fiz um desenho tosco, mas com uma expressão espontânea que me chamou atenção. Então, produzi alguns stickers e colei em vários lugares. A repercussão foi grande e ela acabou virando um ícone da cidade", explica.

Uma campanha (anti)publicitária se espalha por Belo Horizonte. A marca é a popstencil e o objetivo é utilizar o espaço urbano para atacar um de seus principais símbolos: o consumismo. É uma marca sem empresa, sede, empresários e até mesmo produtos. O apelo da sua campanha está na ironia e na paródia da publicidade. O meio para se chegar a isso é o adesivo. A escolha tem a ver com praticidade e a facilidade de disseminação da mensagem. Em 2005, o coletivo Sem Rosto lançou o documentário Anuncie aqui. O vídeo acompanha a atuação de alguns grupos de stickers e grafitti na reconfiguração do espaço publicitário e urbano da capital mineira.

Mas nem todo papel necessariamente veicula uma mensagem de contestação. É o caso do yellowdog. O seu dono, o designer gráfico Ricardo Portilho, explica: "É um meio bastante despretensioso que pode simplesmente desaparecer no meio da confusão urbana. E também é perecível, ou seja, nada que você fizer vai durar muito, a chuva, o sol, os anúncios de "compro ouro" ou de videntes vão chegar e cobrir tudo".

As referências do seu "cachorro" estão no diálogo com a comunicação visual encontrada na sinalização de tráfego. Ricardo começou o seu trabalho ainda em Minas Gerais. Hoje, mora na Holanda mas mantém contato com diversos grupos espalhados pelo mundo. Existe uma rede de troca de informações (e também de stickers) na internet. Por meio dessas conexões são organizados "ataques" às cidades. De acordo com o artista, os trabalhos brasileiros são bastante apreciados em outras terras. "A criatividade e a capacidade de trabalhar com materiais alternativos e reciclados são tipicamente brasileiras", aponta.

É apenas um adesivo pregado no muro?

"Na verdade, tudo se resume mesmo a isso. Quanto ao conteúdo, pode ser qualquer coisa: anti, pró, contra, a favor ou muito antes pelo contrário. No fim das contas é somente um meio, cada um coloca ali o que quiser", é o que pensa Ricardo.

A democratização da arte de rua chacoalha a separação entre artista e público. "Talvez isso aponte uma saída interessante para os meios: a coletividade e despretensão comercial em contraponto à autoria e à carreira profissional", sugere Alexis Azevedo. Ele é integrante do coletivo 403+1, que busca inspiração para o seus trabalhos no fluxo imagético do asfalto: semáforos, faixas de pedestres, placas de trânsito, esquinas. A rua é a inspiração e a tela, ao mesmo tempo. O grupo já atuou em conjunto com outros coletivos como o Pão com Durex e o Poro.

O site streetartblows gerou um debate interessante com uma série de stickers metalinguísticos. A mensagem "keep your art to yourself next time" ocupa os mesmos espaços urbanos e faz referência aos outros adesivos. O autor anônimo do questionamento é direto: "Ao mesmo tempo em que tem muita gente fazendo (street art), poucos estão fazendo bem."

"Como em qualquer atividade tem que ter treino e um estudo, não necessariamente acadêmico. Um bom trabalho não é realizado sem esforço e disciplina", explica Xerel, no ramo há quase uma década. É exatamente pela facilidade de fazer parte dela que a "cena" cresce. Ao contrário de expressões como o grafitti, por exemplo, o sticker não exige uma técnica muito apurada do autor. Muitos sequer confeccionam o próprio desenho. Fazem o download na internet, imprimem e seguem para as ruas para colar.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Yuno Silva
 

Sérgio, essa história tem que se espalhar/espelhar em todos os confins dessa terra. Realmente uma intervenção urbana criativa, inofensiva e reflexiva.

Yuno Silva · Natal, RN 8/3/2006 01:38
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Psychojoanes
 

Achei oportuno dizer sobre uma utilidade urbana desse 'desprezado objeto' - o papel, tão massificado.

Percebi na conclusão da matéria um fincada neste tipo de intervenção. Pois os 'estiquers' (ou adesiveiros), apesar de não possuirem técnica apurada, em sua maioria, representam o faça você mesmo. Não é por isso que todo mundo é preguiçoso e copia uma imagem na internet pra sair pregando algo

Psychojoanes · São Domingos do Prata, MG 8/3/2006 03:01
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Psychojoanes
 

O primordial ícone urbano do Curral-Del-Rey, o Vigia explicou bem a que veio na persona do peça-chave Xerel.

Psychojoanes · São Domingos do Prata, MG 8/3/2006 03:03
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Psychojoanes
 

Coletivos à parte, o 403+1 e o Popstencil mostraram suas propostas de maneira coerente. Ah, acho que o documentário 'Anuncie Aqui' merece uma matéria própria (e ficou meio fora de esquadro no texto, faltou um certo apuro).

Psychojoanes · São Domingos do Prata, MG 8/3/2006 03:03
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Psychojoanes
 

Foi a primeira vez que vi o criador do Cachorro Amarelo identificando-se numa reportagem, até então, ele tinha me dito algo sobre anonimato e tal.
No mais parabéns pela matéria e por esta nova proposta de discussão aqui na rede!

Psychojoanes · São Domingos do Prata, MG 8/3/2006 03:04
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Sergio Rosa
 

A "fincada" teve a intenção de gerar uma discussão sobre o "papel" dessa arte. Como a apontada no site Streetartblows. Acho que o que o Xerel fala explica bem. Qual é o limite entre o sticker como arte de rua e como mais uma poluição visual?

O "Anuncie Aqui" sem dúvida merece destaque maior, e terá. Mas o filme fala mais sobre o culture jamming, e daí os assuntos se misturariam e o foco no sti

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 8/3/2006 11:10
sua opinião: subir
Sergio Rosa
 

..cker se perderia (fim do comentario anterior)

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 8/3/2006 11:22
sua opinião: subir
alt.amb
 

de quem é o "masturbe seu ursinho" ?

alt.amb · Belo Horizonte, MG 10/3/2006 20:09
sua opinião: subir
J.
 

É um pouco complicado falar de restrições na arte urbana. Acho que por ser urbana, por estar exposta pra qualquer um, deve ser uma oportunidade de todos se expressarem. Sem precisar ser diplomado ou "estudado". Sem tantas regras...
Defendo o uso das ruas como uma galeria democrática.
Esse é um assunto que dá pano pra manga...se dá!
Boa matéria!!!

J. · Salvador, BA 13/3/2006 12:39
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Psychojoanes
 

Eu não entendi o contexto desta foto direito. A ligação dela com os entrevistados é mínima...

O "Masturbe seu Urso" é do Coletivo Culundria ( http://www.fotolog.com/culundriarmada )

Psychojoanes · São Domingos do Prata, MG 24/3/2006 02:05
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Sergio Rosa
 

Eu escolhi essa foto lá no site do Popstencil (um dos coletivos entrevistados). Como são vários os grupos citados e como só há espaço para uma foto por enquanto, resolvi escolher uma que não representasse nenhum em específico. Essa é a razão.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 24/3/2006 12:05
sua opinião: subir
joelson
 

tbm faço isso!!!!


www.fotolog.com/port_joelsomm

abraços!!

joelson · Criciúma, SC 4/4/2006 10:57
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
carioca in canada
 

Procuro colaboracoes para o site www.achei.ca, se estiver interessado escreva para a "redacao".
Obrigada!

carioca in canada · Rio de Janeiro, RJ 27/5/2006 23:22
sua opinião: subir
Paulo Sebin
 

Uau, adorei esse artigo. Mas da mesma forma que o Psychojoanes, não entendi o contexto da imagem. De qualquer forma, o texto é bom e deu para entender. Impressionante como o termo Stickers, os adesivos, está crescendo como forma de linguagem. Já tinha lido algo parecido na Folha de São Paulo.
- Moro em Londrina e trabalho na AdesivoWeb. Último trabalho de mídia com vídeo sobre como colar adesivo.

Paulo Sebin · Londrina, PR 4/9/2013 11:13
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados