Ainda era dia quando eu ia para casa por uma das principais avenidas da zona sul de Natal, Rio Grande do Norte, quando parei num sinal com minha moto 100 cilindradas. Um carro da polícia estava sobre a calçada e um policial com cara de poucos amigos me encarava. Sem achar que devia algo, olhei para ele, até que o PM me dirigiu um rugido, perguntando por que o farol da moto estava apagado. Notei que havia esbarrado no interruptor e ele ordenou que eu descesse da moto e apresentasse meus documentos. Não disfarcei a minha irritação contra aquele sujeito que ainda me perguntava se os meus óculos escuros eram de grau, já que a minha habilitação diz “apto com lentes”. “Os óculos são de grau sim, o senhor quer experimentar?”, provoquei. Minha atitude excitou o poder de “autoridade” do guarda que me disse que se eu me irritasse, ele apreenderia minha carteira de habilitação, já que, segundo ele, a luz apagada, mesmo inadvertidamente, lhe dava o direito para tal. Fui "liberado" e mais uma vez senti a raiva impotente que estes confrontos com a polícia (este não foi o primeiro) me provocam.
Alguns poucos quilômetros a frente, quase chegando à Vila de Ponta Negra, bairro onde moro, cruzo com uma procissão que, propositalmente, interrompe o trânsito, carregando dois toscos caixões com os corpos de um casal de jovens, mortos na noite anterior por causa de uma dívida com o tráfico de drogas. Não pude deixar de comparar a atitude do policial que, minutos antes, me abordava agressivamente por causa de um farol apagado e a permissividade da polícia em relação ao tráfico de drogas que vitima tantas pessoas nos bairros de Natal.
A relação da sociedade brasileira com a polícia autoritária me parece uma séria questão social a ser discutida. Mas acredito que tem sido varrida para baixo do tapete faz muito tempo. Em entrevista ao site ComCiência, Jacqueline Muniz, pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, lembra que “ao longo de quase 160 anos da história das organizações policiais no Brasil estas organizações estiveram voltadas para a proteção do Estado contra a sociedade. Em outras palavras, desde que foram criadas, até mais ou menos a década de 1970, elas foram, por força de lei, forçadas a abandonar o seu lugar de polícia em favor de um outro lugar, que é de instrumento de imposição da ordem vinda do Estado”. Se a polícia de hoje não defende diretamente um Estado, parece defender os seus próprios interesses, afastando-se cada vez mais da idéia de servir à população, e encarando a todos nós como potenciais suspeitos. Os faróis apagados são apenas uma desculpa para os PMs reforçarem a sua histórica condição de “autoridade”.
Jacqueline Muniz diz acreditar numa solução, já que outras polícias estão resolvendo este problema. Na prática, desconfio que esta mudança seja efetiva. 90% dos londrinos acreditam que os policiais realizam um trabalho "muito bom". Este trabalho irrepreensível não impediu o assassinato, em julho de 2005, do operário brasileiro Jean Charles de Menezes, 27 anos, num metrô de Londres, confundido com um terrorista porque estava com uma mochila. Um estudo de âmbito nacional feito nos Estados Unidos revelou que 73% dos americanos classificam o trabalho da polícia como "excelente" e "muito bom" (Wilson Huang e Michael Vaughn, Public Attitudes Toward the Police, 1996). Mas quem quiser assistir aos extras do DVD A Cor de um Crime (Freedomland, EUA, 2006) com a declaração de um policial norte-americano, que participa de um programa de bom relacionamento com a população em escolas, pode duvidar da pesquisa. Na entrevista, o sorridente representante da lei dos Estados Unidos aconselha as crianças à acatar o que os policiais dizem porque “nós sempre estamos certos, mesmo se estivermos errados, estaremos certos” e, nas entrelinhas, você será preso.
As pesquisas no Brasil vão em sentido diametralmente oposto às realizadas na Inglaterra e Estados Unidos. Em consulta à população entre os dias 3 e 4 de abril de 1997, o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE) concluiu que cerca de 70% dos brasileiros não confiam "nem um pouco" na polícia. A maioria acha que a qualidade dos serviços da polícia piorou ultimamente e 92% disseram ter medo que policiais possam fazer mal a algum de seus parentes. Talvez seja porque, como o policial norte-americano, a polícia brasileira sempre esteja com a razão.
Muito pertinente o assunto, uma boa oportunidade para discuti-lo. Certa vez, uma professora de ética me disse que a única saída para coibir o abuso da polícia é apelar para organismos internacionais de direitos humanos, pois no Brasil não há instância capaz.
André Dib · Recife, PE 11/3/2007 03:22
Nós medianos estamos entre
a violência dos policiais e dos bandidos
a moral dos padres e pecadores
o poder público e privado
o governo oficial e o paralelo
a educação e a cultura
estamos
fodidos
abraços esqueléticos
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