O povo gosta é do pagode

Leandro HBL
Comunidade da Fazendinha em Salvador!
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Leandro HBL · Belo Horizonte, MG
25/9/2011 · 26 · 8
 

Terça feira pré carnaval em Salvador, o sol forte , beirando quarenta graus, bate nos cocos empilhados no chão de uma pequena frutaria onde pessoas se aglomeram.

Meninas em êxtase falam alto e preparam o celular para tirar foto, do outro lado da rua dezenas de motos, algumas que fazem entrega de gás, outras de moto-taxi concorrem com carros parados em cima da calçada.

O som que toca alto na porta mala de um Megane tunado faz todos cantarem em coro “OI, OI, OI, O O O O OI”, gritinhos de adolescentes se misturam as vozes da população que canta e um baile parece se formar fechando por completo a rua abarrotada de gente, no bairro de Fazenda Grande.

A“música do Boi” como ficou conhecido popularmente o maior sucesso do carnaval de Salvador em 2011, segundo a “rádio povão”, dominou a periferia e colocou a banda Black Style outra vez na preferencia dos soteropolitanos.

Como bons filhos da Fazenda Grande, foi lá que Robsão, vocalista do grupo, e os músicos do Black Style escolheram para gravar sua participação no documentário Gueto Digital .

A elite ainda torce o nariz, mas é o pagode baiano, ritmo tocado pela Black Style o mais novo fenômeno na Bahia e no nordeste.

Robsão causa estardalhaço ao chegar em um Fusion do ano, fruto da maré positiva que passam as bandas de pagode baiano , fazendo muitas vezes 3 shows em um único dia.

Seu visual, uma mescla entre o estilo dos funkeiros cariocas e os gangsta rappers norte-americano, já é copiado pelos adolescentes que sonham em um dia também comandarem seu próprio trio elétrico pelos circuitos do carnaval mais famoso do mundo.

O assédio feminino em cima de Robsão é algo digno de um galã da novela das 8, meninas choram na porta do trio elétrico para tentar falar com o cantor, em suas apresentações a segurança do palco sofre para evitar que as moças mais exaltadas subam no palco.

As músicas mais famosas sempre levam alguma letra de duplo sentido, entre as mais famosas “Me dá Patinha”, “Relaxa na Bica” e “Perereca Pisca” mostram um pouco da sensualidade explicita nas letras e que caem no gosto popular.

Essa característica acompanha o pagode baiano desde quando o movimento ganhou repercussão nacional com bandas como É o Tchan e Terra Samba, porém os atuais representantes do movimento pouco tem haver com os antigos representantes do “samba duro”.



NOVOS SONS

Sintetizadores, Djs, uma avalanche de tambores, guitarras pesadas e uma mistura de rap e rock and roll dão o tom no novo pagode baiano.

A substituição do cavaquinho pelas guitarras e os vocais estilo “rap” são características de grupos como Fantasmão e de seu ex-vocalista Ed City.

Ed City é sem dúvida um dos mais criativos artistas do cenário atual, responsável por uma mistura entre o kuduro angolano e o pagode baiano, conseguiu transformar em hit carnavalesco mais um ritmo africano.

O grupo Fantasmão não ficou desfalcado com a saída de Ed, Thierry Coringa assumiu os vocais e colocou toda a sua musicalidade a serviço da banda. Assim surgiram músicas que caíram na boca do povo como “É Tiro Zé!”, “Vai tomar pau” e “Ihá”.

O uso de samplers e a incorporação de novas tecnologias se associou aos tambores que não perderam espaço. A pegada eletrônica do início da música Rebolation que virou sucesso nacional é um dos maiores exemplos disso.

Com isso o que assistimos são verdadeiras orquestras com mais de 10 músicos por banda, em sua maioria jovens talentos com muita inventividade e vontade de experimentar.

Um som forte que muitas vezes lembra a mistura entre Antrax e Públic Enemy na música Bring the Noise e que cai para uma levada reggae com o swing baiano, não se assuste ao ver a banda de heavy metal Angra acusando o grupo Parangolé de plágio, os dois não estão mais tão distante musicalmente, esse é o novo pagode baiano.

A realidade nas letras

Tanto Thierry Coringa, como Ed City e Robsão, além de cantar as tradicionais letras de duplo sentido que tanto sucesso fazem, incorporam em suas composições uma crônica do que tem ocorrido nas periferias nordestinas.

Realidade dura da favela é uma das músicas que se tornaram famosas cantando a realidade de um povo sofrido, seu refrão “Gueto, preto, pedra morre ou vai pra cela, realidade dura da favela” mostra que o ritmo antes chamado de “bunda music” não merece mais esse rótulo fútil.

A letra de “Conceito” composta por Ed City parece um grito de revolta de um povo que há muito tempo sofre com o preconceito, em qualquer show a massa acompanha em uma só voz cantando: “sou filho de preto mereço respeito, quem mora no gueto não é ladrão”.

Outras músicas do pagode baiano se transformaram em verdadeiros hinos do “povo do gueto”como “Firme e Forte” e “Sou Periferia” do Psirico e “Favela” do Parangolé.

A violência e o aumento do consumo de droga também fizeram surgir pagodes tipo do funk proibidão carioca, como é o caso da música “Farinha” da banda Klak Bumm com o sugestivo refrão “pega o prato faz a linha, dá um tiro na farinha”, parte de realidade de uma das capitais mais violentas do Brasil.

O axé cai no pagode

O pagode vem influenciando e sendo influenciado por outros ritmos atualmente populares no Brasil.

O axé, que parece não estar em sua fase mais criativa, vai muitas vezes buscar nos grupos de pagode músicas para animar o carnaval.

Foi assim que a música “Lobo Mal” da desconhecida banda O Back se transformou no hit do carnaval de 2010 na voz de Ivete Sangalo, como havia ocorrido com “Toda Boa” do Psirico anos antes.

Saulo Fernandes da banda Eva também incorporou o pagode baiano em seu repertório e canta “Não vá que é Barril” do Fantasmão em todos seus shows.

Embora o pagode ainda sofra resistência para entrar no Circuito Barra-Ondina, com seus caríssimos camarotes e abadás voltados para os foliões do Sul e Sudeste, são as próprias bandas de axé que divulgam as músicas de pagode lá.

No Circuito Campo Grande, com blocos mais populares, são os artistas de pagode que levantam a multidão com preços mais acessíveis dos abadás e uma enorme pipoca que pula gratuitamente.

Pancadão e batidão

Fenômeno nacional, o funk carioca faz sucesso na Bahia de uma maneira diferente, são as bandas de pagode que divulgam o ritmo lá com uma roupagem “pagodeada”

O Black Style, que se divulga como uma banda de pagofunk, canta ao som dos seus tambores as músicas Abecedário da Alegria e Um pente é um pente dos cariocas da Cidade de Deus, Os Havaianos.

Já Ed City veio buscar inspiração no funk paulista de Cidade Tiradentes regravando Bonde da Juju da dupla Backdi e Bio G3.

A cantora Perlla gravou com o vocalista Thierry do Fantasmão a música Menina Linda, onde se misturam os tambores baianos com o tamborzão eletrônico.

Pra que CD?

Assim como o funk os artistas do funk, a principal renda dos artistas do pagode baiano são os shows.

Para encontrar um cd da maioria das bandas é preciso recorrer aos pirateiros ou conseguir um dos milhares de promocionais que são distribuídos pelas próprias bandas.

Os sites de downloads também são muito usados para divulgação das músicas, no maior deles, www.junniordocavaco.com.br é possível encontrar shows inteiros e as novidades musicais de cada banda.

Por essa facilidade em divulgar o trabalho bandas novas conseguem muitas vezes fazer sucesso de maneira rápida, como é o caso da banda Golaço, que com poucos meses de vida já emplacou o hit “Meta Mãe”.

Atrás desse sonho de fama rápida, são milhares os jovens na periferia soteropolitana que correm atrás formando bandas de pagode, como o caso do vocalista Elvis da banda Cabeça Cara que ajuda sua mãe sustentar a família vendendo salgados na praia e nas horas vagas ensaia com sua banda Cabeça Cara. Na praia para chamar a atenção para seus quitutes, turbina as vendas cantando os sucessos do pagode baiano.

O futuro do pagode

Para muitos o pagode baiano é o ritmo baiano mais promissor, já tendo sido citado positivamente diversas vezes por artistas como Caetano Veloso.

Talvez por ainda não formarem parte do “status quo” como as bandas de axé, com compromissos e filtros das gravadoras, marcas que as patrocinam e rádios, sua criatividade e irreverência nas letras aliada a liberdade de criação e experimentação musical fazem do pagode baiano o terreno mais fértil e mais alegre da música atualmente na Bahia. Longa vida e liberdade aos pagodeiros!

Por Leandro HBL e Renato Barreiros

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Hermano Vianna
 

valeu Leandro e Renato por essa panorâmica do pagode baiano - fico cada vez mais impressionado com as conexões entre as várias novas músicas das periferias brasileiras - por exemplo, a "casa das prima" está no sertanejo, no funk, no forró; não dá mais para separar o que é de quem - uma pergunta: em que pé está o documentário Gueto Digital?

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 24/9/2011 14:24
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rochaharp
 

O DESCASO COM A INFLUÊNCIA DA MÚSICA NA FORMAÇÃO DE UMA PESSOA...


Um relatório da ONG londrina afirma que milhares de crianças em todo o mundo são usadas como combatentes militares, pois, dizem que “elas são soldados ideais, já que não reclamam, não esperam pagamento e quando recebem ordem para matar, simplesmente cumprem”. Veja - http://www.youtube.com/watch?v=gpiiMVahrz0


A relação das crianças brasileiras com o conteúdo de muitos dos pagodes baianos e funks cariocas de hoje em dia são uma situação semelhante à das "crianças soldados" no vídeo acima.

aqui eu explico por quehttp://www.balcaodomusico.com.br/forum/topics/o-descaso-com-a-influ-ncia-da-m-sica-na-forma-o-de-uma-pessoa

rochaharp · Salvador, BA 27/9/2011 00:14
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rochaharp
 

Na minha postagem acima eu não publiquei o link correto. Segue agora - http://www.balcaodomusico.com.br/forum/topics/o-descaso-com-a-influ-ncia-da-m-sica-na-forma-o-de-uma-pessoa

rochaharp · Salvador, BA 27/9/2011 00:20
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andre stangl
 

tb curti.
e tem muita gente q critica o teor das letras, mas dança numa boa ao som de "sex machine"... rs

andre stangl · Salvador, BA 27/9/2011 08:19
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bbertolazzi
 

Muito raro encontrarmos um artigo como este , com bases sólidas, sem preconceitos e demonstrando uma visão ampla, abrangente sobre o cenário cultural atual.
Parei para refletir durante um bom tempo qdo lí: "não se assuste ao ver a banda de heavy metal Angra acusando o grupo Parangolé de plágio, os dois não estão mais tão distante musicalmente..."
Provocativo, mas faz muito sentido.
Parabéns aos autores!

bbertolazzi · São Paulo, SP 28/9/2011 10:22
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Abílio Neto
 

Muito bom artigo. Infelizmente não conheço nenhuma das músicas citadas. O Banco de Cultura do Overmundo ou mesmo o site 4shared.com poderiam ter abrigado uma ou duas músicas e assim o que foi escrito ficaria enriquecido.

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 28/9/2011 15:07
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Edu Borges
 

Meu Deus, quanta bobagem...

Edu Borges · Santo Amaro, BA 28/9/2011 19:55
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Leandro HBL
 

Para Hermano Vianna:

Muito de pé o documentário GUETO DIGITAL, temos a previsão de um festival também.

Já fizemos a pesquisa no Rio, Sp,e Salvador, BH será na semana que vem. Temos alguns promos aqui:

http://vimeo.com/channels/guetodigital

Leandro HBL · Belo Horizonte, MG 17/10/2011 15:32
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