O pracinha Belmonte

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Romeu Martins · São José, SC
15/6/2006 · 113 · 3
 

A história do chargista brasileiro que irritou nazistas

"Charge!". Quando a ordem era gritada pelos comandantes em algum campo de batalha, a artilharia francesa entrava em ação e os canhões disparavam. O termo bélico foi tomado emprestado pelo mais combativo exemplo da união entre texto e desenhos que, quando bem empregado, faz tanto estrago quanto as tais balas de canhão. E durante a II Guerra houve um desses raros momentos, graças ao trabalho do chargista paulistano Belmonte (1896-1947) que do Brasil lançou carga contra todos os figurões do eixo: Hitler, Mussolini e Hirohito.

Belmonte, ou Benedito Carneiro Bastos Barreto, incomodou muita gente com suas charges. O embaixador do Japão no Brasil prestou queixa contra as citações ao imperador de seu país, afinal os japoneses tinham Hirohito como um deus. Da alemanha, outro ilustre leitor de Belmonte reclamou do tratamento dado a seu patrão. O famigerado ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, usou de sua principal arma, a Rádio de Berlim, para provocar o paulistano. "Ele ataca os alemães porque é muito bem pago pelos ingleses e americanos", teria declarado o homem do marketing nazista. A resposta cínica de Belmonte, entitulada "Obrigado Dr. Goebbels", nós reproduzimos abaixo.

Dando sua contribuição para incomodar a vida dos nazi-fascistas, Belmonte uniu forças com as centenas de pracinhas brasileiros que ajudaram os Aliados a derrubar as forças do Eixo. Contribuição dada mesmo que só disparando as balas de canhão metafóricas, o que deixou o trabalho do chargista no mesmo nível das crônicas de Rubem Braga, outro brasileiro genial que usou arte contra aviões, tanques e submarinos. E mesmo indo para guerra com o que parecia ser uma desvantagem das mais injustas, eles saíram da empreitada como vencedores.

Apesar dessa participação nas trincheiras da II Guerra, o chargista é mais lembrado por seu personagem Juca Pato, uma espécie de versão urbana do Jeca Tatu de Monteiro Lobato. Aliás, ao ilustrar os primeiros livros deste escritor, Belmonte foi o responsável pela imagem que os brasileiros tinham dos personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, só sendo superado pela estréia da versão televisiva da série. Ele também atuou como jornalista, escrevendo artigos e reportagens, e certa vez definiu desta forma tão precisa a nossa profissão:

"A nossa vida não é das piores. Nós dormimos tarde, levantamos cedo, estudamos quando não escrevemos, esprememos o cérebro até pingar a última idéia, somos malvistos pelos políticos, quase sempre perseguidos, às vezes assassinados, mas em compensação levamos uma vida de cachorro".

Não parece a imagem de um bem pago agente dos ingleses e dos americanos, certo?

No mundo, Belmonte ficou mais conhecido por suas charges, publicadas em periódicos como Judge (EUA), ABC (Inglaterra), Le Rire (França), Kladeradatsch (Alemanha) e Caras y Caretas (Argentina). Um lado seu bem menos citado foi o trabalho como quadrinista, fato que foi resgatado pelo n° 1 da Phenix (é essa mesmo a grafia), revista publicada pelo Clube dos Quadrinhos comemorando o centenário de nascimento de Belmonte, em 1996. Phenix traz uma análise extremamente minuciosa das 210 páginas de HQs que o artista publicou, entre 1933 e 1936, no jornal infantil A Gazetinha. Mas essa história fica para uma próxima parada.

"Obrigado Dr. Goebbels

A rádio de Berlim, a famosa D.N.B, onde pontifica o não menos famoso dr. Josef Goebbels, ministro da Propaganda, tem como norma indeclinável falar mal de personalidades muito importantes – Roosevelt, Churchill, Stálin, Eden, Getúlio, Aranha, enfim, de todos os estadistas que não concordam com a violência nazista, nem com o seus desesperado "lebensraun" [nota: "espaço vital"]. Enquanto a ofensiva aérea do marechal Goering vai de mal a pior e a ofensiva terrestre do chanceler Hitler está sendo desencadeada em vice-versa, o dr. Goebbels faz questão de manter em dia a ofensiva radiofônica, atacando por todos os lados, numa verborragia de melhor sorte.

Ainda há poucos dias, a famosa emissora do dr. Goebbels, num gesto que muito me honra, resolveu promover-me à personalidade importante e, numa de suas irradiações, mimeou-me com uma porção de desaforos. Não sei se o dr. Goebbels teve conhecimento de inhas 'charges' através das 'Folhas' ou via Estados Unidos, onde o 'Saturday Evening Post' reproduziu duas, ainda há pouco. De qualquer forma, o sr. ministro da Propaganda do Reich, mandando a sua locutora agredir-me com vários desaforos, fez de mim uma excelente propaganda em todo o mundo. Não posso pois deixar de consignar-lhe, aqui, os meus agradecimentos.

Danke herr doktor Goebbels"

Matéria originalmente publicada em www.omalaco.hpg.ig.com.br

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Edson Wander
 

Romeu, bela lembrança desse gênio esquecido das artes grafo-provocatórias. Se tivesse uns desses bem-traçados dele aí para acompanhar este texto ia ficar show. Tem não ?
Abraço,
EW


Edson Wander · Goiânia, GO 14/6/2006 13:17
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Romeu Martins
 

Ter eu tenho, mas eles não são compatíveis com o tamanho requerido pelo Overmundo... Na página que eu indico ao final do texto, há até uma reprodução daquela resposta cínica a Goebbels e algumas imagens do Juca Pato.

Romeu Martins · São José, SC 14/6/2006 13:51
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hugolt
 

Romeu, desculpe-me por fazer contato por aqui, mas é o desespero que me move! Perdi seu email. Escreva-me, por favor: hugolt2@yahoo.com.br (Obrigado!).

hugolt · São Paulo, SP 27/12/2006 09:15
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