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O Preconceito Lingüístico

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Dislexia
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fagnrcampello@hotmail.com · Salvador, BA
17/6/2008 · 70 · 3
 

Introdução
Antes de 1500, o Brasil era uma terra de vários donos, de várias tribos, de vários dialetos. Com a chegada do homem branco, em 1500, e a conseqüente colonização, escravidão, imigração de povos, a terra tupiniquim adotou uma língua própria, o português, ou “brasilês”.
Para ser formado o idioma português, foram necessários a influencia de nove famílias lingüísticas: latim, indo-européia, itálica, românica, românica-ocidental, galo-ibérica, ibero-românica, ibero-ocidental, galaico-portuguesa.
No Brasil, o tupi (mas precisamente o tupinambá, uma língua do litoral brasileiro) foi usado como língua geral na colônia ao lado do idioma português. Com o processo de escravidão no país a língua falada na colônia recebeu uma nova roupagem. A influencia africana no Brasil veio com o Iorubá, falado por negros vindos da Nigéria e do Quimbundo angolano. No século XIX imigrantes europeus chegaram ao país e proporcionaram novas contribuições no idioma. Franceses, italianos, alemães, espanhóis e japoneses fizeram com que o regionalismo e a diversidade nas pronuncias se aflorasse. A distância entre as variantes portuguesas e brasileiras do português aumentou em razão dos avanços tecnológicos do período: não existindo um procedimento unificado para a incorporação de novos termos à língua, certas palavras passaram a ter formas diferentes nos dois países (comboio/trem, autocarro/ônibus, pedágio/portagem).
A priori, a língua falada no Brasil é denominada de Língua Portuguesa, oriunda dos colonizadores portugueses. Porem, o período de colonização do Brasil propiciou a vinda de povos de terras distantes, culturas diferentes fazendo assim uma sincronia de seus dialetos com o idioma do colonizador e dos povos aqui antes encontrados, os índios.
O idioma português do Brasil contem palavras que no idioma da terrinha não existe, como: mandioca, abacaxi, tatu (palavras de origem indígena), caruru, caçula, samba (nomes originários do Iorubá e do quimbundo angolano) dentre outras palavras.
É importante salientar às diversas pronúncias, fonetismo, da Língua Portuguesa do Brasil, nas diversas regiões do país. Isso gera uma polêmica sobre quem realmente fala o português corretamente. Essa polemica gera um preconceito denominado, preconceito lingüístico, na qual este artigo tratará este assunto, baseando no livro de Marcos Bagno e nas pesquisas de campo desenvolvidas por nossa equipe.

O Preconceito Lingüístico
As pessoas do Rio de Janeiro ao pronunciar a consonte “s” em palavras como posto, casta, história libera o som da consoante “x” (fala-se poxto, caxta, hixtoria). O português do Maranhão é falado semelhante ao de Portugal. Os paulistanos e mineiros falam com bastante afinco o som da consoante “r”. Essas variações do português leva a uma discussão, provocação em qual lugar melhor se fala melhor o português. E isso gera o “Preconceito Lingüistico”. Mas o que é preconceito lingüístico?
“Preconceito lingüístico é uma forma de preconceito a determinadas variedades lingüísticas.” (Wikipédia, a enciclopédia livre, pt.wikipedia.org)
O preconceito lingüístico é visto com vigor quando uma pessoa diz uma palavra que foge da gramática normativa da língua portuguesa e imediatamente é corrigida de acordo com essa gramática. O que é correto, vassoura ou bassoura?. Depende do contexto, da regionalização vivido, etc.
Para alguns lingüistas, os chamados erros gramaticais não existem nas línguas naturais, salvo por patologias de ordem cognitiva. Ainda assim, segundo os lingüistas que são favoráveis a tese do preconceito lingüístico, a noção correta imposta pelo ensino tradicional da gramática normativa origina um preconceito contra as variedades na padrão.
Quem primeiro apresentou uma visão libertaria do marxismo foi o sociólogo Nildo Viana¹, um dos brasileiros mais influentes com relação à epistemologia. Para Viana a linguagem é um fenômeno social e está ligada ao processo de dominação, tal como, o sistema escolar, que é a fonte da “dominação lingüística”.
“A ligação indissolúvel entre linguagem, escrita e educação com os processos de dominação, é a parte de preconceito lingüístico, pois a língua escrita veiculada pela escola se torna a língua padrão, e esta, a norma geral que todos devem seguir, mas o seu modelo se encontra entre os setores privilegiados e dominantes da sociedade.” (Viana, Nildo; Educação, linguagem e preconceito lingüístico Wikipedia, a enciclopédia livre; pt.wikipedia.org)
Na Inglaterra por exemplo, a lingüista Deborah Cameron², autora do livro “Verbal Hygiene” fez sua obra propondo ouvir as pessoas de seu país que se importam sobre as questões lingüísticas e que não apenas falam seu idioma, mas que são apaixonadas por ele. Cameron começou sua obra citando o jornal “The Sun”, que diz: “Tradições inglesas do passado estão sob ameaça.”
1 Com formação em Sociologia e Filosofia, sendo graduado, mestre e doutor em Sociologia e Especialista e Mestre em Filosofia, Nildo Viana é um dos pensadores brasileiros mais prolíficos na contemporaneidade.
2. É uma feminista inglesa, professora de linguagem e comunicação da Faculdade de Worcester e da Universidade de Oxford


A reportagem focava que alguns ingleses denominados “anaroks”, saiam às ruas para panfletar que a língua estava sendo descaracterizada, arruinada pela mídia em geral.
Nos Estados Unidos da América, por exemplo, não existe uma academia reguladora dos assuntos lingüísticos, porém existem pessoas que, como no Brasil, Inglaterra, dentre outros tomam pra si essa função sendo elas conhecidas como “language mavens”.
O fato é que o preconceito lingüístico existe. Os críticos da tese do preconceito lingüístico argumentam que a tese em si, se apontada na íntegra, resultaria em um descrédito das normas gramaticais que por sua vez levaria a dificuldade das pessoas na comunicação em um futuro próximo.
O uso da linguagem tem sido sempre marcado por intolerância e preconceito. Porém, a intolerância lingüística consegue ser mais mascarada que o preconceito. É muito comum você encontrar pessoas tentando corrigir outras em um português “à sua maneira”. Qual é o correto “olha gente” ou “oxente”?
“A variação é constitutiva das línguas humanas, ocorrendo em todos os níveis. Ela sempre existiu e sempre existirá independentemente de qualquer ação normativa. Assim quando se fala em “Língua Portuguesa” está se falando de uma unidade que se constitui variedades.” (Parâmetros Curriculares Nacionais, Língua Portuguesa 5ª a 8ª series, p.29.)
É importante salientar que o português falado no Brasil tem uma histórica relação de mistura de idiomas e dialetos. Os povos que formaram essa nação transcreveram um pouco de sua história com uma herança lingüística.
O Maranhão, o Pará e o Rio de Janeiro são tidos como os estados em que mais bem é empregado o idioma português. Marcos Bagno em seu livro “Preconceito Linguistico” explica ponto a ponto o por que desse critério avaliativo.
“Acontece, porém, que os defensores desse mito não se dão conta de que ao utilizarem o critério prescritivista de correção para sustentá-lo se esquecem de que os mesmos maranhenses que dizem “tu és, tu vais, tu foste, tu quiseste”, também dizem: Esse é um bom livro para ti leres.” (Bagno, Marcos, Preconceito Linguistico o que é, como se faz, 44ª edição, p.47)
E ainda:
“Toda variedade lingüística atende às necessidades da comunidade de seres humanos que a empregam. Quando deixar de atender, ela inevitavelmente sofrerá transformações para se adequar as novas necessidades.” (Id)
Em uma apresentação de vídeo da equipe composta por Amine Leitão, Viviane Martins, Célia Fonseca e Jéssica Barros, 1º semestre de jornalismo das Faculdades Dois de Julho, sobre o Preconceito Lingüístico, norma culta e variação lingüística, o professor Ivan Espinheira do Colégio Sacramentinas de Salvador afirmou que o brasileiro falava mal o português, porem era muito criativo. Em sua entrevista o professor deu a entender que conhecia a tese do preconceito lingüístico mas não praticava. Este professor literalmente, em sua academia, não deve ter assimilado bem as variações lingüísticas como: Variação histórica, variação geográfica, variação estatística, variação social. As diferentes modalidades de variação lingüística não existem isoladamente, havendo um interelacionamento entre ela. Como exemplo disso, uma variante geográfica pode ser vista também como variante social, quando se tratar da migração regional no país.
“O conhecimento do padrão de prestigio pode ser fator de mobilidade social para um individuo pertencente a uma classe menos favorecida.” (Camacho, R. (1988), A variação lingüística, In: Subsidios à proposta curricular de língua portuguesa do 1º e 2º graus. Secretaria de Saúde de São Paulo, p. 29.)
A intolerância lingüística está fortemente relacionada como outras formas de intolerância (a raça, religiosa, sexual, política), mas é examinada, porém, também nas particularidades e especificidades própria da linguagem.
Para amenizar um pouco essa intolerância, lingüistas brasileiros, segundo Marcos Bagno, vem sofrendo ataques contra qualquer tentativa de democratização do saber e da sociedade. Os gramáticos que são contra a teoria do preconceito lingüístico acusam os estudiosos da linguagem de defenderem o não-ensino das formas padronizadas, levando a uma crise lingüística.
“Achar que a língua está em “crise” e que para superar essa “crise” é necessário sustentar a doutrina gramatical sem submetê-la a uma crítica serena e bem fundada, é a meu ver, uma atitude que só pode ter duas explicações: “a ignorância cientifica” (pessoa que nunca ouviu falar na lingüística) ou “desonestidade intelectual” (finge que não conhece a lingüística)” (Bagno, Marcos, Preconceito Linguistico, 44ª edição, p.152.)
Porém, lingüistas como José Maria e Silva em seu artigo “O mito do Preconceito Lingüístico” afirma que o sociolinguista Marcos Bagno deveria ter sua licença caçada.
“É possível se conceber uma mente mais tacanha, mais abjeta, mais materialista, mais obececada em poder e dinheiro do que essa de Marcos Bagno?” (e Silva, J.M, O mito do preconceito lingüístico,http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=166)
José Maria em seu artigo afaz ainda uma inferência a sociolingüística afirmando que lingüistas que aderem essa tese são incapazes de alcançar o rigor da ciência.
"Muitos alunos de letras, por deficiência cognitiva, aderem a ela. Incapazes de alcançar o rigor da ciência, contentam-se em macaqueá-la. Daí o enorme sucesso que qualquer autor minimamente alfabetizado faz entre essa gente da pseudolingüística --- que não é outra coisa a marxolingüística praticada pela nova geração de professores das faculdades de letras. Pelo fato de escrever inegavelmente bem, algo cada vez mais raro nas academias, o jovem Marcos Bagno tornou-se uma Marilena Chauí de calças --- faz, em letras, o mesmo sucesso que ela faz em filosofia. Os dois têm em comum a eloqüência, o confusionismo e uma indisfarçável vocação para a charlatanice intelectual." (Id)
O fato é que o preconceito lingüístico existe. Alguns defendem a manutenção o português padrão, da gramática normativa como a única forma correta de se usar o português; outros acreditam que o português do Brasil é somente diferente e que se deve considerar as variantes como uma forma correta também de se usar o português.
Conclusão
O nosso trabalho foi baseado no livro Preconceito Lingüístico o que é, como se faz, do sociolingüista Barcos Bagno. Fizemos algumas pesquisas de campo buscando com pessoas nas ruas as diversas formas de se expressão. Percebemos que algumas palavras da língua portuguesa eram ditas de uma forma completamente diferente do que nós, componentes da equipe falamos.
Antes de fazermos o trabalho tínhamos uma visão quase unânime que a nossa forma de falar era correta, sendo que muitas das vezes, corrigíamos as pessoas e de forma crítica e às vezes pejorativa sorriamos da forma de expressão de algumas pessoas.
As peça teatral, 7 Conto estrelada pelo baiano Luis Miranda, cujo personagem Dona Edith era uma mulher da favela que fez um livro que se chama “Como educar seu filho na favela” tratava de uma mulher que fala um português dito “errôneo”. A platéia sorria daquele ato.
Depois de ter lido o livro de Marcos Bagno vimos que aquele português não era errado, mas sim diferente de uma norma padrão imposta em nossas escolas.
Assistindo o programa “Sai de Baixo” deparamos com um personagem chamado Magda Antibes, que sempre soltava palavras de um português dito errado. Percebemos também que aquele português não era errado, mas sim diferente.
Convivendo com uma colega de sala, chamada Celia Fonseca, natural do Estado de Minas Gerais, fomos percebendo que o ato dela dizer algumas palavras expressando algumas consoantes com mais afinco não fazia dela estar falando errado, mas sim, pelo fato do regionalismo e suas variações ela tinha um modo diferente de expressar o seu português.
O trabalho nos propiciou uma visão mais ampla do que é o português falado no Brasil. Temos um idioma, na teoria igual ao do idioma mãe, porem na pratica completamente diferente. As varias imigrações que aconteceram em nosso país propiciou um sincretismo lingüístico com a Língua Portuguesa e diversas outros idiomas.
Percebemos que somos privilegiados em termos uma língua capaz de atender a todos em seu contexto e que diferentes ou não, o nosso português é único e é o português do Brasil, com suas diferentes etnias.

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Jacques
 

Aí Fangr...teu primeiro voto foi meu! E me orgulho disso. Palavra foi feita para dizer, disse, salvo engando, Graciliano Ramos (ou outro bom escritor qualquer). Rodei bastante o mundo. Já vivi por períodos mais ou menos longos em 8 cidades e 3 países diferentes. Falo várias línguas e uma das coisas que mais gosto de fazer é agregar ao meu português palavras e jeitos de falar que fui garimpando por aí. Vou rodando e me apropriando das expressões, dos sotaques, dos cantares, dos chiados, das declinações que me agradam. O único critério que uso é o da minha estética muito individual. Se eu gosto eu pego. Se não gosto eu largo. O resultado é uma mistura que não é de lugar nenhum... ou melhor...que é do lugar que é a minha cabeça. Volta e meia alguém pergunta de onde eu sou...eu sorrio e conto minha história...ou não conto. Depende!

Jacques · Rio de Janeiro, RJ 15/6/2008 21:04
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Regina - poesia em volta
 

Um artigo como este deveria já estar na capa do site. Espero que chegue logo. Uma análise sintética, e que merecemos acompanhar. Inclusão social e língua portuguesa, ou "brasileiro", devem andar juntas, a necessidade de se comunicar é essencial para o ser humano. Abraços

Regina - poesia em volta · Volta Redonda, RJ 17/6/2008 09:05
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MarcilioMedeiros
 

Penso que é plenamente possível a coexistência da norma culta e dos diversos falares coloquiais. Cada qual cumpre um papel específico. Eu sempre busco adaptar a fala ao meu interlocutor, afinal o objetivo é buscar uma comunicação plena com o outro.
No entanto, vejo um tipo de preconceito muito mais arraigado na sociedade brasileira. Trata-se do preconceito lingüístico intra ou interregional. Na verdade, isso é apenas uma faceta de outros preconceitos, econômicos, sociais, culturais etc. Nordestinos de algumas áreas, por exemplo, são ironizados e criticados por falarem "tio" (ao invés de "tchio"), que é a forma original do "t" das línguas neolatinas (francês, italiano, espanhol, português). Das que conheço, apenas o italiano tem o fonema "tch" representado por "cc" e não pelo "t".
Querer que todas as regiões falem uma língua sem acentos regionais é empobrecer a diversidade lingüística nacional, que é patrimônio cultural imaterial do povo brasileiro. Isto é preconceito, simplório e ignorante (como, aliás, são todos os preconceitos).
Ótimo você ter fomentado essa discussão.
Abs,

MarcilioMedeiros · Aracaju, SE 17/6/2008 12:09
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