O Prêmio Tim é míope?

Murilo Tinoco
Dominguinhos: exceção em noite de mesmice
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Edson Wander · Goiânia, GO
10/6/2008 · 274 · 13
 

Estive no último dia 28 de maio na solenidade do Prêmio Tim, no Rio de Janeiro. Foi no decadente Theatro Municipal (precisa mesmo da reforma que se anuncia na fachada). Era a sexta edição do evento e fui a convite da assessoria do prêmio para o jornal goiano O Popular.

Não sei se o caro leitor sabe, mas 99,99% das viagens dos repórteres dos jornais do país são bancadas pelos interessados nas coberturas. Cobertura de todo tipo, de festivais a lançamento de carro, anúncios de investimentos empresariais etc, pautas de turismo então é um escândalo. E o mais doído disso é que às vezes os colegas não dizem isso aos seus leitores. Mas é justo observar que alguns jornais (especialmente os do eixo Rio-SP) não deram muita pelota ao Prêmio Tim dessa vez.

Em que pese a correria que costuma ser essas viagens, gosto de aproveitá-las para rever grandes figuras do ofício, como o sapiente Zé Teles, jornalista musical de longa jornada no recifense Jornal do Commercio. Aliás, não entendo por quê esse cabra não virou chefe por lá ainda... Quis visitar os colegas coordenadores desse Overmundo também mas, sorry, não deu.

Pois bem. Já exponho de cara o único momento brilhante que vi no prêmio: a homenagem a Dominguinhos. Além de justa e acertada (aliás, essas homenagens têm sido a única coisa elogiável no prêmio ao longo dos anos), o show dele com super-banda comandada por Rildo Hora e convidados foi bacana, mesmo com a feia derrapada de Zezé Di Camargo e Luciano na letra e no desafino de A Vida do Viajante (de Dominguinhos com Hervê Cordovil) e da pouca voz do impagável Genival Lacerda. O vaxame dos irmãos pop-sertanejos foi devidamente limpado do especial que foi ao ar no domingo seguinte na TV Globo.

Mas o que me mais me chamou atenção na coisa toda foi perceber como um prêmio que se pretende importante para a música popular do país conforma-se em figurar como mero palco de celebridades e vitrine da mesmice. Não consigo mensurar se a produção do prêmio é míope ou espertalhona. Escrevi para o jornal que o Prêmio Tim não é para principiantes. Sucessor do Prêmio Sharp idealizado pelo empresário José Maurício Machiline (que segue à frente da nova versão), o prêmio da empresa de telefonia é voltado basicamente para condecorar nomes conhecidíssimos e atrelados ao que resta da grande indústria brasileira da música. É, portanto, missa para convertidos, com direito a muitos e gratuitos confetes.

Basta conferir os premiados deste ano para perceber isso (não vi o resultado final publicado no site oficial - www.portaistim.com.br - mas uma buscadinha qualquer no São Google o mostra). Os principais prêmios foram de novo endereçados a discos revisionistas de longas carreiras de medalhões, que pouco ou nada têm produzido de relevante artisticamente nos últimos anos. É sintomático que o finado e grande violonista Baden Powell ainda apareça como destaque num prêmio de 2008 e com um disco lançado há anos (foi o Melhor Solista da categoria Instrumental com o álbum Baden Plays Vinicius).

Confusão de critérios e modalidades estipuladas no prêmio aumentam essa impressão. Jorge Benjor está num incompreensível título de Melhor Cantor de Pop/Rock com um disco reeditado dos primórdios de sua carreira. E o que dizer de duas categorias para mostrar a mesma coisa e abrigar os de sempre? (Canção e Canção Popular). Ivete Sangalo vira a Melhor Cantora de “Regional”. Assim, bons e desconhecidos artistas entram apenas como azarões (como o gaúcho Vitor Ramil que faturou como Melhor Cantor no Voto Popular) e tudo o que não está no eixo Rio-São Paulo vira "regional" no prêmio. Talvez seja o que explique dar (mais um...) título a Ivete e confinar um trabalho universal como o do pernambucano Siba no gueto regional.

Em entrevistas na semana da premiação, José Maurício Machiline disse que o prêmio recebeu 15% mais de inscrições em relação à edição anterior e creditou o aumento à crescente participação dos chamados independentes. Primeiro é discutível se são mesmo independentes ou se são artistas de gravadoras pequenas e medias que trabalham no mesmo modus operandi das grandes. E depois é só observar bem quem ganhou as mais importantes honrarias do certame para ver que nem foram esses "independentes" a que se refere Machline os mais agraciados.

No final das contas, saí alimentando de novo o enigma do biscoito: não se sabe se os figurões precisam do prêmio ou se é o prêmio que busca luz nos figurões. Se for a segunda opção, acho um desperdício de gente e grana. Nesse aspecto, a administradora de cartões gasta mehor o dinheiro dela no Prêmio Visa. E a própria Tim gasta melhor também no Tim Festival. Ou não né? Se essas iniciativas buscarem leis de incentivo para se realizar, nem é dinheiro das empresas que entra na jogada, é o nosso mesmo... Não sei, há que checar essa informação.

Por fim, acho que vale aqui listar os nomes do corpo de jurados do prêmio neste ano: Ana Costa, Antonio Carlos Miguel, Amora Pêra, Bernardo Araújo, Bi Ribeiro, Carol Saboia, Charles Gavin, Da Gama, Daúde, Davi Moraes, Dé Palmeira, Donatinho, Dudu Falcão, Itamar Assiere, José Maurício Machline, Lauro Lisboa, Lucinha Lins, Marcelo Camelo, Marcelo Janot e Nelson Gobi.

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Helena Aragão
 

Sobre o enigma do biscoito: acredito que as duas coisas, mas sobretudo a segunda. Devem achar que geram menos mídia se não tiverem figuras onipresentes como a Ivete (nada contra ela, aliás).
Aqui no Rio a cobertura de capa do Segundo Caderno gerou estranhamento no box sobre coisas que "desafinaram" no prêmio: um dos itens dizia algo como "a premiação de melhor cantor pelo voto popular para Vitor Ramil. Vitor quem?" Estranho pacas num caderno que já fez matérias e resenhas (positivas, inclusive) sobre o compositor gaúcho... Deu a impressão que a gracinha foi obra de alguém de fora, não dos repórteres de música (quero crer que sim).
Ah, e lamentável você não ter dado um alô por aqui. :) Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 6/6/2008 19:23
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Saramar
 

De tudo que você contou, a impressão que fica é que o tal festival é menor que sua propaganda.
A indagação final do que você escreveu, para mim, é retórica. E compreendo bem porque.
Uns alimentam outros e outros alimentam uns. Não há como negar essa realidade.
Você foi muito gentil, digo, profissional em sua análise.
Pena que o festival que analisa não se pareça com você.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 7/6/2008 01:17
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Andre Pessego
 

Edson só posso dizer que aprendi muito com a tua publicação.
Pessoalmente e onde atuo temos defendido, brigado, chingado, gritado mesmo ser as Leis de Incentivo à Cultura, na verdade fonte de enriquecimento ilícito.
um abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 9/6/2008 19:05
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Andre Pessego
 

Fiquei contente, estou aradinte em ver Dominguinhos, bonito, aliás muito bonito de paletó, gravata e chapeu de couro, por sinal novo.
abraço

Andre Pessego · São Paulo, SP 9/6/2008 19:06
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Pedro Rivero
 

É amigo, no nosso país as coisas começam bem, as idéias são geniais, mas no final tudo vira suco. Acho que as coisas eram mais bem feitas na época dos festivais da Record, talvez porque havia mais seriedade na época, apesar que eu era muito novo e não posso afirmar. Aqui no Brasil talvez um prêmio como o Grammy, um Oscar que tem tantos anos e não alteraram tanto o seu formato, aqui acho tudo viraria "suco" (pra não dizer como na musica da Rita Lee-tudo vira b...)
Valeu pelo texto. Adorei.

Pedro Rivero · Bélgica , WW 10/6/2008 08:53
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georgesaraiva
 

seria de ordem pre-estabelecida?

georgesaraiva · Guarapari, ES 10/6/2008 11:18
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Marcos Paulo Carlito
 

Mais do menos, do mesmo. Déjà vú da especulação fianceira com aporte no prestígio de marcas e produtos através de estratégias de marketing mecânicas.
Salva o Dominguinhos e rareada companhia.

Boa matéria.


Marcos Paulo Carlito · , MS 10/6/2008 11:28
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Max Reinert
 

Realmente... assisti à premiação em casa e tive a mesmíssima impressão.... tirando a homenagem, o resto é "o de sempre!".

Max Reinert · Florianópolis, SC 10/6/2008 23:00
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Bruno Paiva
 

É de causar indignação, hein.
Ótima colaboração!

Bruno Paiva · Divinópolis, MG 11/6/2008 14:36
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sonekka
 

mano, nos melhores veiculos de imprensa aceitar presentinhos e viagens para cobrir qualquer coisa dá demissão por justa causa.
Quanto às suas impressões do prêmio, algumas são claras outras nem tanto. Por exemplo, os artistas são premiados de acordo com a categoria que se inscreveram, assim provavelmente a Ivete Sangalo e o Jorge benjor se inscreveram.
Quanto aos independentes não sei vc sabe( e eu tb discordo) mas consideram independentes tudo o que está publicado fora das 4 majors Universal, Sony, WArmer... assim Biscoito Fino vira independente mesmo com toda grana de Petrobras e Icatu em jogo.

sonekka · Santos, SP 11/6/2008 16:53
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Pipo Pegoraro
 

Pois gostei muito de ler esse seu texto.. Motivei minha persona a assistir essa premiação pela TV ao sabê-la, poxa... afinal, Dominguinhos é o cara !!
Leda decepção..
Fiquei impressionado com a péssima edicão que fizeram sobre o prêmio na tela dos "plin-plins".
Os depoimentos dos artistas premiados foram murchinhos, meio cambaleantes, cortados, inventados.. os resultados sem sal ou açucar (ponto de vista) e a novidade inexistente.
O que valeu, é que assisti Genival Lacerda fazendo sua tradicional "dancinha" e Dominguinhos..

Pipo Pegoraro · São Paulo, SP 11/6/2008 17:23
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Edson Wander
 

"Mano",
Todos os jornais brasileiros aceitam de bom grado viagens para coberturas diversas e não há, portanto, nenhuma possibilidade de repreensão a qualquer repórter que as aceite, muito pelo contrário. Eu disse TODOS os jornais, não disse todos os veículos de comunicação. Há um acordo tácito entre jornais e os interessados nas coberturas. Como deixei claro no texto, acho isso uma aberração que, infelizmente, está praticamente sacramentada no jornalismo brasileiro. E sei, sim, a concepção de independência musical adotada pelo Prêmio Tim. Tentei discutir exatamente isso. Sobre suas outras considerações, acho que já estão bem abordadas no texto.
Abs,

Edson Wander · Goiânia, GO 11/6/2008 17:34
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Rodrigo Teixeira
 

Este é o Edson Wander, vai direto no 'rim' da questão... Este prêmio é uma continuação do que se vê na grande mídia. São os Los Mesmos... Quem não é da panelinha é tratado como... como "quem" mesmo?
abs

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 15/6/2008 17:14
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