O primeiro disco brasileiro independente

Leonardo Salazar
Lula Côrtes
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Leo Salazar · Recife, PE
29/9/2007 · 86 · 0
 

Ao contrário do que a historiografia oficial registra, afirmando ser o álbum “Feito em casa”, de Antônio Adolfo, gravado em 1974, o primeiro independente da moderna discografia brasileira, o disco “Satwa”, de Lula Côrtes e Laílson, gravado em janeiro de 1973, é na realidade o pioneiro dos independentes. A dupla assina todas as faixas. Há a participação especial de Robertinho de Recife somente na música ‘O blues do cachorro muito louco’.

O processo de criação de “Satwa” foi como um caldo-de-cana, isto é, feito na hora. As músicas foram finalizadas dentro do estúdio de gravação, sem tempo de serem lapidadas. Laílson criava a harmonia numa viola de 12 cordas. Lula Côrtes fazia a melodia num tricórdio, instrumento árabe adquirido no ano anterior, durante viagem que o artista fizera pela Espanha e Marrocos. Aliás, foi nessa viagem, segundo Lula, que ele conheceu Salvador Dalí, com quem aprendeu, por três semanas, hospedado em sua casa, sobre o surrealismo.

O álbum contém dez faixas, todas instrumentais. Foi gravado nos estúdios ociosos da gravadora Rozemblit, em Afogados. Constantes na década de 70, o nome do bairro não é à toa, as cheias foram destruindo aos poucos a estrutura da gravadora recifense. Foi depois de uma enchente que Lula e Laílson, após darem um trato nos equipamentos do estúdio, resolveram gravar, em apenas dois canais, mas com bons microfones, as músicas de “Satwa”. As capas foram impressas no próprio parque gráfico da Rozemblit. A pequena tiragem foi dividida entre eles. Vendiam os exemplares pessoalmente. A produção deste álbum, quase artesiana, foi bancada pela produtora Abrakadabra, de Lula Côrtes e Kátia Mesel.

Atualmente a dupla desenvolve projeto para fazer uma releitura de “Satwa”.

- A gente não quer regravar ou remasterizar Satwa, esclarece Lula Côrtes. Vamos pegar essas dez músicas e corrigir os tons. Porque não existe sequer uma música que tenha o tom certo. A gente achava que tinha e gravava. Então é corrigir os tons e fazer uma releitura, com uma orquestra sinfônica ou de câmara.

CRÍTICAS E DIFICULDADES
- Pernambuco é uma terra muito difícil, desabafa Lula Côrtes. As dificuldades aqui são todas. As pessoas não creditam nas coisas daqui. Todo mundo de fora reconhece o valor cultural desta terra, mas as pessoas daqui usam a própria cultura como escada para subir na carreira e depois a descartam. Veja os festivais de música, como o Abril Pro Rock e o PE no Rock. No começo só tem bandas daqui. Depois começam a trazer gente de fora com um custo altíssimo, e dizem que não tem grana para pagar os artistas locais.

- Eu acho que o Movimento Mangue diz muito sobre o comportamento desta cidade, esbraveja o cantor. O caranguejo é o único bicho que anda para trás, vive na lama, e mora num buraco. É o único movimento que não tem movimento. Depois da morte de Chico, o pessoal mitificou o cara. Parece que tudo o que tinha para acontecer já aconteceu, quando na verdade não aconteceu nada. Esse lance de maracatu com rock a gente já fazia há 30 anos atrás.

Para o cantor, no início da década de 70, quando começou sua carreira multiartística de pintor, escritor e compositor, era uma época melhor para trabalhar do que a atual. Ele diz que as pessoas hoje estão mais gananciosas e viciadas em estruturas nocivas, a exemplo das leis de incentivo à cultura.

- Os artistas estão dependentes do Governo, diz Lula. Se o Governo não financia seus projetos, eles não fazem nada. Ninguém se une para uma iniciativa, pelo contrário, uns querem derrubar os outros. Sem falar nos captadores de recursos, que levam uma parte da verba de seu projeto. Parei de querer tocar. Desisti porque não vejo a menor chance disso aqui vir a possuir uma decência. Não vejo mais nenhum futuro profissional. Pretendo gravar, com uns amigos, um disco instrumental, bem introspectivo, chamado Ânima, apenas para satisfazer minha necessidade pessoal de compor.


NOTA DO AUTOR: esta matéria foi apurada e escrita em meados de 2003, mas continuava inédita, e decidi publicá-la hoje por causa do seu conteúdo ainda atual.

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