Estava eu há certo tempo, como de costume, em frente a uma banca, olhando as manchetes das revistas semanais. Das de variedade às de fuxico. Destas, a Caras estampava um beijo inesperado entre a atriz global Karina Bacchi – mais uma das loiras com “beicinho sexy” da emissora carioca – e o baixinho da Kaiser, que tem o dobro da idade moça. Os dois, assim como suas assessorias, não confirmavam o romance. Apenas comentavam o encontro de modo a incentivar especulações. O tempo passou; o garoto-propaganda e a atriz não apareceram mais juntos. Eis que, então, no novo comercial da cerveja, o baixinho aparece em um bar, quando três garotas comentam interessadas: “O Baixinho da Kaiser? Sem a namorada?”. Elas disputam entre si para chegar até ele, mas, para desapontamento das três, logo surge em cena uma outra loira - Adriane Galisteu -, que abraça o baixinho, dizendo: “Demorei, meu amor?”.
Hipoteticamente, tratam-se de casos distintos. Um envolvendo a vida particular, outro uma peça de trabalho destes artistas. Mas as coisas não são tão simples assim. Há muito tempo o limite entre vida pública e vida privada foi rompido; e a distância entre elas diminui a cada dia - incentivada por um número crescente de revistas e programas de fofoca, pela popularização da internet (em que a informação circula livremente) e pela autopromoção de famosos.
Ficou claro que o namoro entre o garoto-propaganda e a beldade global se tratava de um golpe de marketing, entrelaçado com a própria publicidade da cerveja. Neste caso, todos lucraram. Karina Bacchi certamente cobrou algum cachê pela encenação, e seus olhinhos azuis devem ter brilhado ao verem sua foto na capa da Caras. A cervejaria ganhou exposição gratuita na mídia (em relação ao suposto namoro) e conseguiu maior atenção do público para seu comercial. Já Galisteu e o baixinho cumpriram seu papel de garotos-propaganda, recebendo devidamente para isso.
Quanto à autopromoção de famosos, nos últimos anos houve uma evolução a ponto do vale-tudo por um lugar ao sol, seja para se fazer conhecido ou para tentar manter-se em evidência. Vale desde abrir as portas de casa para cliques fotográficos até sair sem calcinha para mostrar o que antes só era exibido nas páginas de revistas masculinas. Vale ir a programas de televisão para escancarar a própria vida sexual, os desastres amorosos ou para tecer comentários sobre coisa nenhuma. Em meio a isto, namorar alguém famoso ou freqüentar o maior número de festas só para atrair flashes curiosos é fichinha.
E estes personagens pipocam na mídia, sob a indecifrável alcunha de “celebridade”. Não precisa ser um artista legítimo nem mesmo uma “modelo-atriz-e-dançarina” para ter direito aos 15 minutos de fama. Ser uma celebridade instantânea é quase para qualquer um, desde que se tenha a sorte ou a tática necessária.
Ser bonito é praticamente a única qualidade indispensável para chegar lá; se for desinibido então... Pode-se namorar um pagodeiro ou, com sorte, o maior craque do futebol de todos os tempos, um ícone do automobilismo ou um grande rockstar - isto com chances de, depois, chegar ao cobiçado posto de apresentadora de TV. Com uma bela estampa, também pode-se entrar para um reality show ou ser eleita a musa do momento (do carnaval, do rebolado e até musa do mensalão, pode?). Ah, e ser filho de famoso já é um pontapé para também se tornar um famoso.
Há um grande porém nesta questão. Como não produzem nada profissionalmente, as novas “celebridades” só têm a própria intimidade e as opiniões vazias para apresentar à mídia e se fazer notícia. Para elas, vida pública e vida privada são a mesma coisa.
Se antes as revistas semanais de maior apelo popular traziam em suas capas a antecipação dos capítulos das novelas, hoje estampam a intimidade dos famosos. Com isto, um novo conceito midiático começa a se instalar – o de que a influência de um artista se mede por seu tempo de exposição, e não mais por sua produção cultural.
Vejamos o caso de Marília Gabriela, que em 2006 foi listada entre os famosos brasileiros que têm mais credibilidade para anunciar produtos em peças publicitárias. Seu nome aparece junto ao de Xuxa, Raul Gil e congêneres. Você acredita que isto é resultado das ótimas entrevistas que ela conduz ou da visibilidade que adquiriu em oito anos de casamento com o ator Reynaldo Gianecchini?
Enquanto isso, diante da rara aparição de um bom artista nos meios abertos de comunicação, a massa pergunta: “Quem é?”; ou então exclama: “Ué, achei que esse aí já tinha era morrido!”.
Eu estou achando que alguma coisa anda errada...
Palavas da top-model Gisele Bündchen em entrevista publicada pela Folha de São Paulo, neste 19 de janeiro: "Hoje parece que as pessoas querem saber mais sobre quem (um famoso) namorou, casou ou divorciou do que das coisas que acontecem no mundo. É ridículo. Você sabe por que isso acontece? Porque as pessoas têm medo de olhar para dentro delas mesmas. Preferem viver a vida das outras pessoas. Elas não estão despertas para o mundo, para as suas vidas. São como zumbis".
Bacana a reflexão, Flávio. Realmente é muito pontual pensar em como as "celebridades" se alimentam e vivem de se celebrar. Não há produção artística, não há produção num sentido social ... elas vivem, literalmente, de viver. É a fama retroalimentando a fama. Uma dica só: colocar tags (palavras-chave) na sua matéria. Ajuda muito outros usuários em pesquisas futuras pelo site. Grande abraço!
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 18/1/2007 14:29Obrigado pela dica, Thiago. Acabo de colocar algumas tags (o que nunca tinha feito em outros textos, mas passarei a fazer).
Flávio Herculano · Palmas, TO 19/1/2007 09:28
Oi, Flávio. Achei bacana a reflexão, mas senti falta de ouvir você falar do piercing da Bacchi na Playboy, certamente impulsionado em termos de tiragem pelo beijinho e pelo baixinho da Kaiser. Também faltou o fato de que, após exibir seu piercing nas páginas da revista erótica, a mesma beiçudinha ameaçava (não sei se de fato o cumpriu) leiloar a peça na internet para ajudar sua instituição infantil. É uma boa (con)fusão de valores.
Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 21/1/2007 21:07Pois eu não sabia que Karina Bacchi era mais uma das muitas celebridades supostamente engajadas - pela causa das criancinhas pobres, dos cachorros sem lar, do buraco na camada de ozônio...vale qualquer uma.
Flávio Herculano · Palmas, TO 22/1/2007 09:36
Gostei do texto. Muito bem escrito.
Quando li a entrevista da Gisele Bündchen, também fiquei pensando... e na verdade simpatizei com ela, já que criticar o meio do qual se tira o sustento é arriscado nesse mundo do espetáculo. Bom... é isso.
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