O que é Cultura Roraimense?

Marcelo Perez
"Roraima, Amazônia exuberante".
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Marcelo Perez · Boa Vista, RR
4/6/2007 · 97 · 3
 

Outro dia me convidaram para falar sobre cultura roraimense em uma aula de antropologia de uma faculdade local. Não topei. Na época não me sentia capaz de identificar uma cultura local, nenhum traço marcante artístico-cultural estava evidente para mim. Roraima é uma terra em que a diversidade está presente em cada esquina. Por aqui temos gente de todos os cantos do país, estrangeiros de várias nacionalidades e principalmente existem 12 etnias indígenas que tem um peso de destaque nessa diversidade cultural.

Dentro desse quadro riquíssimo é possível de se perceber a mistura de tradições, costumes, hábitos e gostos que vão desde a culinária até a maneira de se vestir, desde o tradicional chimarrão em praça pública até o caxiri (bebida indígena) em reuniões na casa de amigos.

E para aprofundar mais a discussão fui em busca daqueles que trabalham e vivem à sensibilidade, que conseguem registrar a cultura de um povo através de suas manifestações: o artista.

Antropofagia é o termo que o músico George Farias destacou ao se referir à cultura local. Ele que é natural de Fortaleza, disse que as diferentes riquezas trazidas para Roraima, as diferentes culturas, transformaram Roraima no estado que é hoje. “Nesse caldeirão a coisa foi se construindo. Primeiro foram os nordestinos, os cearenses, e com eles os paraibanos e pernambucanos. Veio o forró. Forró nordestino com zabumba, triângulo, e sanfona, porém aqui, antropofagicamente ele se mescla com uma música caribenha, que é outra coisa e cria-se o forró que temos hoje aqui: Pipoquinha da Normandia, Brasileirinho, Rasga Lenha, Paçoquinha...”, diz George.

Nas décadas de 70 e 80 ouvia-se rádio Venezuelana em Roraima. Aqueles que estavam pensando música naquela época foram influenciados por todo este ritmo caribenho e a fusão destes transformou o cenário musical que temos hoje. Claro que não só os ritmos caribenhos e o forró, mas o rock também teve a sua vez por aqui. O músico Ben Charles na década de 80 montou uma banda chamada “Classe Média” e foi um dos pioneiros do rock no estado. Mas a musical regional, aquela que exalta a terra, seu povo, a natureza local, essa veio com toda força e também sofreu muita influência de todos os cantos do País.

Em 1980, quando ainda era um Território Federal (somente com a Constituição de 1988 constituiu-se como estado) Roraima proporcionou o 1º Festival de Música Popular e como diz George, “nesse festival já tinha não só o Valério Caldas de Magalhães (referência musical da época por ter composto a primeira peça Roraimense na virada do séc. XIX para o séc. XX, um chorinho, cuja partitura encontra-se hoje em um Museu), mas também alguns inquietos que estavam ali com o seu violão, com a sua caneta e seu papel tentando esboçar alguma composição, que já eram influenciados pelas rádios do caribe e as músicas do nordeste”. Nesse período surgem grandes artistas como Eliakim Rufino, Neuber Uchôa, Ricardo Nogueira, Zeca Preto, Dilmo Pina e muitos outros.

E para engrossar mais esse caldo musical, George Farias chega em Roraima em 89 e traz outra informação musical, que se agrega a uma música “que já tinha uma marca roraimense, tinha uma identidade, falava sobre o lavrado, a cultura, os peixes, as comidas, o jeito e a maneira de ser do roraimense”, finaliza George.

O choque de culturas em Roraima permite a produção de novos conhecimentos e novas técnicas e só quem ganha com isso é a população local. É certo lembrar que a aversão ao que é produzido por aqui é fato. Eu mesmo que desenvolvo trabalho no segmento teatral percebo muito bem isso. Já estive apresentando espetáculo nas praças de Boa Vista e no término do trabalho vieram me perguntar se a Cia. do Lavrado era de fora do estado, acreditam nisso?

Essa indefinição da cultura local foi o estopim para o início da discussão com o ilustrador Tana Halú, que lembrou muito bem sobre o que é a cultura brasileira. “Os negros da África, os Índios, os povos da Europa, Roraima é como o Brasil, que veio gente de todo canto e esse pessoal tá fazendo suas manifestações”, diz Tana. O problema maior na visão deste artista é que estão tentando delimitar o que não tem limite e não tem barreira, a arte. “Vamos acabar vivendo sem identidade por causa disso”, desabafa o artista.

A escritora Aléxia Linke, artista vinda de Belo Horizonte e com diversos livros publicados, tem nas suas obras personagens da mitologia local. É evidente a influência que sua literatura sofre com o local em que vive. “As pessoas tem que ter uma ligação com lugar em que vivem. Eu devo um compromisso com esse povo daqui. Quando se fala de cultura roraimense..., diz Aléxia, que logo em seguida questiona a definição de literatura roraimense. “O que é uma literatura roraimense? São roraimenses que nasceram aqui e fazem literatura no Rio de Janeiro, ou são pessoas que tão por aqui, independente de onde vieram ou são pessoas que escrevem sobre Roraima que tão fazendo literatura roraimense?”, conclui Aléxia.

Nas artes plásticas não podia ser diferente. E a influência indígena é muito mais perceptível. Em um estado em que abriga hoje 12 etnias, muito do que é produzido circula pela capital e essa miscigenação, esse trânsito do indígena entre a cidade e as malocas acaba por se refletir em toda essa produção.

Amazoner Okaba, artista plástico, nascido em uma comunidade indígena chamada Malacacheta, autodidata, que teve contato com uma produção dita mais civilizada só em 87, “até então minha visão de mundo, de arte e de cultura passava pela minha identidade, pela cultura Macuxi e Wapixana (etnias indígenas locais)”, disse Okaba, que também percebe a aversão à cultura local e justifica o fato na invisibilidade dos artistas causada pela elite local. “As pessoas dizem que Roraima não tem produção cultural, que não tem cultura, uma identidade própria e eu me atrevo a dizer que sim...,” conclui Okaba.

A pluriculturalidade, a etnodiversidade existente neste estado é o grande diferencial desse povo, que está diante de um florescimento cultural constante e que “não soube perceber, não se apercebeu e não está se apercebendo hoje dessa realidade. Ela passa por essa questão de identidade cultural...”disse Okaba.

Essa falta de legitimação da população local tem dois pólos distintos: um é a carência de fomento na área cultural, que prejudica bastante a produção de novos trabalhos, por outro lado, a independência, como diz Okaba, a liberdade para o artista produzir o que quer também é uma vantagem, que faz com que o mesmo busque cada vez mais se aperfeiçoar com novas técnicas.

Com a chegada de novos artistas, essas influências se misturam e o resultado é a cultura roraimense. Todos os que aqui chegaram contribuíram um pouco para que essa cultura se afirmasse, mesmo com aversão ou não o fato é que ela existe.

Foi o que aconteceu com Cristina Rocha, que já vive em Boa Vista há 15 anos, e hoje é referência no segmento de dança. Mas no início não foi assim. A formação de público não foi tarefa fácil e só mesmo com muito trabalho e adquirindo a confiança da população é que ela venceu por aqui. Ela lembra que aprendeu a fazer cenário aqui, a entender de luz, figurino... “Eu cheguei, fui pioneira, tinha que saber. Quem vem pra Roraima estagia em uma escola muito rica. Se no Brasil é difícil de fazer arte, em Roraima é mais ainda”, disse Cristina Rocha, precursora do Balé Clássico no estado.

Se hoje eu recebesse novo convite para falar sobre a cultura roraimense, aceitaria de imediato. E depois de conhecer um pouco mais sobre a história de Roraima, do ponto de vista artístico-cultural é certo que assunto não faltaria e sem dúvida nenhuma, como disse a nossa querida Cristina Rocha, “a identidade da cultura roraimense é essa miscigenação, é esse conjunto, esse coquetel riquíssimo, que só tende a somar. Subtrair jamais, multiplicar muito e dividir também porque o artista nasceu pra dividir. Se não dividir você não é artista”.


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Rita Fagundes
 

Valeu Marcelo!!!
Aumentou a vontade conhecer Roraima.
Abraço

Rita Fagundes · Aracaju, SE 4/6/2007 19:38
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Marcelo Perez
 

Que bom, Rita!

Aqui realmente é maravilhoso. Tem muita gente da sua terra por aqui. Quando vier entre em contato.

Abração

Marcelo Perez · Boa Vista, RR 5/6/2007 16:10
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RICARDO BARRADAS avaliadorderte
 

Gostaria de saber qual o segmento governamental responsável pela preservação da história de Boa Vista,e do Estado de Roraima.Tenho buscado dados sobre a "Escultura Simbolo",O GARIMPEIRO...que fica em frente ao Palácio de Governo,mas nada especificamente encontro,nem em livros,nem na grande rede.Acredito que como o Cristo Redentor,esta para o Rio;O Garimpeiro,deveria estar para Boa Vista.Mas infelizmente,nada encontro.

RICARDO BARRADAS avaliadorderte · Rio de Janeiro, RJ 24/6/2007 20:08
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