O QUE É QUE A "BAIANA" TEM?

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Roberto Barreto · Salvador, BA
9/8/2007 · 138 · 8
 

É um privilégio, em qualquer lugar do mundo, ter um instrumento criado, projetado e produzido num determinado local, que seja utilizado para expressar sua música, criando com isso uma sonoridade específica, que traga elementos que ajudem a traduzir e contar um pouco da história deste lugar. Espera-se com isso que aos poucos este instrumento seja valorizado, difundido, e permita que várias formas de expressão musical dele se utilizem, ajudando a firmá-lo como elemento da cultura local. Na Bahia temos muitos exemplos, principalmente na área da percussão, de instrumentos que foram criados, e /ou adaptados, e que se incorporaram à cultura local, criando uma identidade. Com outros instrumentos de sopro e cordas, por exemplo, no geral foram instrumentos que já existiam e que foram incorporados à nossa música, com a exceção de um instrumento: a guitarra baiana.

Nascida na década de 40, fruto das experiências musicais e tecnológicas de dois amigos, a guitarra baiana surgiu inicialmente como um protótipo, que ficou conhecido como “pau elétrico”, que nada mais era que um braço de cavaquinho com um captador preso na ponta. Dodô, violonista e técnico em eletrônica, e Osmar Macedo, que tocava cavaquinho e era uma espécie de professor pardal, ambos figuras conhecidas da península Itapagipana, região da Cidade Baixa de Salvador, buscavam formas de eletrificar seus instrumentos para tocar para um número maior de pessoas, impressionados com uma apresentação de um violonista, Benedito Chaves, onde viram pela primeira vez um violão “eletrificado”. O próprio Benedito mostrou aos dois curiosos como funcionava o tal captador, ressaltando o problema dos “apitos” indesejáveis que apareciam quando se aumentava o volume. Dodô conseguiu, com sua experiência de radiotécnico, reproduzir um modelo de captador, e depois de testar várias possibilidades em instrumentos, resolveu colocar o captador em cima de sua bancada sólida de madeira, e esticou uma corda de uma ponta a outra, conseguindo um som alto e cristalino como um sino. Depois os dois partiram para conseguir apenas os braços de instrumentos e “eletrificá-los”. Bom, resumindo esta história, o invento teve a maior repercussão, foi evoluindo, até que a “dupla elétrica” , como ficaram conhecidos Dodô&Osmar após a criação do pau-elétrico, resolveu colocar alto-falantes num velho Ford e sair tocando pelas ruas durante o carnaval de 1950, inspirados no impacto que tiveram ao ver uma orquestra de frevo do Recife arrastar uma multidão pelo centro da cidade.

O sucesso desta iniciativa foi além das expectativas. A dupla virou trio com a entrada de mais um violão, e logo surgiram percussões, carros maiores, mais som, e o trio elétrico se transformou num dos maiores fenômenos de massa de que se tem notícia, influenciando vários artistas e modificando a maneira de se fazer e produzir arte, num contato direto com as ruas e com o que se absorvia nessa troca com um número inimaginável de pessoas.

Sem entrar na discussão sobre as distorções que foram provocadas pela indústria que se criou em torno de tudo isso, o fato é que por pelo menos três décadas, a musica instrumental tocada de guitarra baiana, foi a cara e a criação de toda uma estética, se reproduzindo em dezenas de duplas de guitarristas que eletrificavam frevos, baiões, chorinhos, rocks, sambas, músicas clássicas e tudo mais que viesse pela frente. Mesmo depois de aparecer a figura do cantor, lá pela metade da década de 70 com Moraes Moreira, a guitarra baiana ainda se manteve um tempo como principal instrumento dos trios, responsável pela sonoridade característica vinda das cornetas (tweeters), que realçavam e distorciam seu timbre agudo, e criavam uma sonoridade e uma atmosfera particular. Inicialmente estas guitarras tinham quatro cordas como o cavaquinho, mas afinadas como bandolim (Mi, Lá, Ré, Sol). Na década de 80, Armandinho desenvolveu o modelo de cinco cordas, criando mais possibilidades harmônicas e trazendo um timbre mais grave.

Incrível também na história deste instrumento é o fato de ser uma tecnologia genuinamente regional, criada a partir de experiências rudimentares, sem muitas ferramentas ou componentes à disposição, que coincide historicamente com a criação da guitarra elétrica nos Estados Unidos, sem que um tivesse conhecimento do que estava acontecendo no outro lugar. Vale lembrar que estamos falando da década de 40, onde as informações custavam a circular, e “seo” Dodô e “seo” Osmar, com certeza não tinham conhecimento dos experimentos de Leo Fender, nem dos protótipos da Gibson pra tentar resolver os mesmos problemas de microfonia que tinham quando ligavam um instrumento acústico num amplificador. O corpo maciço de madeira foi o pulo do gato, eliminar a caixa acústica que realimentava as freqüências sonoras, e isto foi descoberto num daqueles momentos de inspiração simultânea, onde diferentes pessoas em diferentes lugares do mundo, chegam a soluções semelhantes na mesma época.

Acontece que os americanos sabem muito antes de nós, que a propaganda é a alma do negócio. Toda essa história de marcas, patentes, registros (o trio elétrico é registrado na França), marketing e tudo mais que na verdade serve pra vender melhor seu peixe e garantir sua próxima pescaria, são ferramentas que eles usam muito bem, e o peixe deles parece sempre maior, mais bonito e mais pesado, mesmo que o ponteiro da balança esteja no mesmo lugar. Junte a isso também a falta de valorização que é dada no Brasil às pessoas envolvidas nos processos criativos e revolucionários, artísticos ou não, por parte do governo, da imprensa, das empresas e por uma população que herdou uma forte cultura de “colonizados”, e entenderemos porque mundialmente não é dada a real importância a nomes como Santos Dumont, Vila Lobos, Pixinguinha, Cláudio César Dias Baptista, Mestre Vieira das Guitarradas, Dodô e Osmar, e vamos parar por aqui pra não ficar cansativo e voltar ao ponto.

O ponto é que a guitarra baiana é um instrumento brasileiro, com linguagem própria, sonoridade, tecnologia e um histórico suficiente para ser caracterizada como uma escola, uma linha de guitarra tipicamente brasileira. Então, resgatar este valor histórico é de fundamental importância para que possa ficar claro seu papel, para que se abra o leque de possibilidades sonoras, e acima de tudo, se aponte para o futuro. Extrapolar seus limites iniciais e permitir que guitarra baiana se recoloque no cenário, faça parte das referências e anseios de novos músicos, interagindo assim com novos formatos e gêneros musicais, é fundamental para mantê-la viva. Para isso é preciso tentar entender também o que aconteceu neste caminho, o que levou a este afastamento e desinteresse por um instrumento que já foi tão representativo para nossa cultura. Porque também ficou tão restringida à forma e ao conteúdo de seus criadores e herdeiros? O que ela tem hoje pra oferecer às novas gerações? Todas essas dúvidas e informações trazem a certeza de que no mínimo, a guitarra baiana merece ser ouvida e repensada, ou que pelo menos alguém pergunte carinhosamente a alguma delas: o que é que a "baiana" tem?

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Helena Aragão
 

Bacana sua reflexão. Não imaginava que ela tinha saído de cena desse jeito que você conta. Sempre que ouço falar do carnaval baiano de hoje em dia, em geral em tom de crítica, imagino que exista um carnaval lado B com guitarra baiana agregada a novidades diferentes do chiclete com banana habitual. Não rola não? E adaptação da tal guitarra baiana, com outros nomes, talvez, em outros estados...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 8/8/2007 17:02
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FILIPE MAMEDE
 

Gostei do texto Roberto. Só ficou faltando umas ilustrações, talvez. Mas está ótimo. Quanto á eletrificação de instrumentos, estou preparando uma matéria que vai falar um pouco sobre essa questão. Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 10/8/2007 09:29
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vince de mira
 

Bacana! Acho que o que temos que focar aqui na Bahia é a difusão de nossa cultura. Há muitos anos a cultura da Bahia era mediada pelo turismo. Assim, foi inevitável esse estereótipo. Acho que a difusão da guitarra baiana pode ser um caminho interessante, conheço muito bem o trabalho de Roberto, e acho que ele pode usar esse instrumento como um símbolo regional e suas perspectivas de interação com outros caminhos da música. Firmeza total!

vince de mira · Salvador, BA 10/8/2007 10:00
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Pablo Maurutto
 

Vale lembrar a versatilidade! Roberto conseguiu usar de forma magistral a guitarra baiana no meu Cd infantil, Lá Dentro da Mata.

Pablo Maurutto · Salvador, BA 11/8/2007 20:41
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Pio Lobato
 

Roberto é um dos caras mais atentos e solícitos que conheço, além de ser um músico de mão cheia. Essa guerrilha pelo reconhecimento do brasileiro de sua própria historia cultural conta quase que exclusivamente com o espírito dessas pessoas que , movidas sobretudo pela paixão, a vontade de mudar o cenário.
sabemos todos que Salvador gira em torno da indústria do carnaval, isso não é novidade, entretanto ainda não descobriu em si mesma o próprio "lado B" que na minha opinião é muito mais rico e interessante do que o estereótipo que é vendido

Pio Lobato · Belém, PA 4/2/2008 13:31
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andre stangl
 

Uma dica, o Roberto está com um blog sobre o projeto Baiana System (http://baianasystem.blogspot.com/), vale dar uma conferida. abçs

andre stangl · Salvador, BA 8/2/2008 22:21
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Manezim do Jua
 

Quer dizer que vacilamos mais uma vez?
O nosso Trio Elétrico virou invenção de francês?

abraço, Roberto. Valeu!

Manezim do Jua · Juazeiro, BA 13/5/2008 19:44
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Carlos Venttura
 

Parabéns!

A Bahia é a BAHIA!
E tem muito maisssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss.

Rzssssssssssss.

Carlos Venttura · Suíça , WW 12/5/2009 02:26
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