Um sujeito de bota, bombacha, lenço e chapéu, tomando chimarrão enquanto assa o churrasco. Outro todo de branco, colares em volta do pescoço, batucando numa caixa de fósforos. Qual deles é gaúcho? A resposta pode não ser tão óbvia quanto parece.
Quem chega em Porto Alegre pela BR 116 encontra, na entrada norte da cidade, uma estátua de bronze com 6,55 metros de altura e 3,8 toneladas. Trata-se do Monumento ao Laçador, escultura representando um gaúcho típico segurando um laço e olhando para o horizonte. O modelo para a estátua, construída em 1958 e considerada símbolo de Porto Alegre, foi o tradicionalista Paixão Côrtes. Junto com mais sete colegas do Grêmio Estudantil do Colégio Júlio de Castilhos, Côrtes fundou, em 1948, na capital do estado, o 35 CTG (Centro de Tradição Gaúcha), um dos marcos do início do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG - www.mtg.org.br), que sistematizou os elementos de uma cultura sul-rio-grandense.
Em mais de meio século de existência, o MTG não só se consolidou, como se expandiu para outras regiões. Hoje existe uma Confederação Brasileira de Tradição Gaúcha, congregando entidades de estados do Sudeste e do Centro-Oeste. O MTG também já se faz presente em outros países (há uma Confederação Norte-Americana da Tradição Gaúcha) e continentes. Portanto, ser gaúcho não é mais sinônimo de ser sul-rio-grandense.
"Os gaúchos inventaram uma rede de CTGs como máquina poderosa para a replicação de seu código 'tradicionalista' e seu peculiar 'modo de vida'. Não há nada parecido, nem tão eficaz, em outros movimentos culturais brasileiros. Não há, por exemplo, um CTC, Centro de Tradições Cariocas, ou Cearenses". Essa foi a conclusão de Hermano Vianna, doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ, ao detectar um grupo tradicionalista na divisa entre Minas Gerais e Bahia. "Em muitas cidades brasileiras, para muitos jovens, ser gaúcho se tornou uma 'opção identitária' tão válida, tão 'reconfortante' e tão divertida quanto ser punk ou ser surfista", afirma.
Para Ada Cristina da Silveira, doutora em Jornalismo pela Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha) e autora do livro "O espírito de cavalaria e as suas representações midiáticas", essa identificação de etnias diversas com o gauchismo se dá através dos valores pregados por ele, como a auto-afirmação e a busca da luta, do enfrentamento e da coragem. A origem desses valores estaria na história de combates do Rio Grande do Sul, principalmente na Revolução Farroupilha (1835-1845).
Essa mitificação do gaúcho guerreiro é criticada pelo sociólogo Cristóvão Feil, em artigo intitulado "A Disneylândia de bombachas". Segundo ele, durante a Revolução Federalista (1893-95), foram mortas mais de 10 mil pessoas, "entre civis e militares de ocasião, numa Província que contava com 1 milhão de almas, onde a degola de prisioneiros era prática comum em ambos os lados - liberais e republicanos". Feil explica que há uma idealização do passado por parte do tradicionalismo e que "os primeiros esboços desse constructo mental que procura representar o tipo ideal dos indivíduos nascidos na região meridional do Brasil foram dados por jovens líderes políticos republicanos, ainda no final do século XIX, todos seguidores do positivismo de Auguste Comte".
Mais do que isso
"A identidade que o senso comum registra do gaúcho é uma das tantas tradições inventadas pelo mundo afora", afirma Feil, que argumenta: "a cultura do Rio Grande do Sul é muito mais rica do que o estereótipo do tradicionalismo fetichizado. O tradicionalismo crioulo é excludente e autoritário, sufoca todas as outras manifestações de um Estado múltiplo, colorido de etnias, artes, linguagens e imaginários".
As causas dessa homogeneização da cultura sul-rio-grandense estariam na origem do movimento tradicionalista (expressão paradoxal, para Feil, já que "tradicionalismo" evoca algo fixo no tempo, portanto não há movimento). Paixão Côrtes e os demais fundadores do 35 CTG eram representantes da classe média urbana e filhos de fazendeiros latifundiários (herdeiros, portanto, dessa visão de mundo) "reivindicando uma mitologia do mundo rural". Em função disso, italianos, alemães, judeus, poloneses, índios e negros, dentre outras etnias que compõem a população sul-rio-grandense, ficaram de fora da construção dessa representação.
"O tradicionalismo propugna um determinado conjunto de valores que nem todas as facções da sociedade concordam", aponta Ada. Mas por que esse sucesso na construção da imagem do gaúcho típico? A resposta estaria no funcionamento da indústria cultural. "O estereótipo é um elemento extremamente conveniente, porque é de fácil assimilação", explica.
"Quem determina o que há de gaúcho numa roupa, numa dança? Quem diz o que é gaúcho e o que não é? A Carta [de Princípios] do MTG? Os manuais de Paixão Côrtes?" Essas questões, levantadas por Hermano Vianna, são o resumo da discussão sobre a autenticidade do tradicionalismo. E mostram que saber quem é ou não gaúcho não é assim tão fácil.
Votadaço! Matéria lindo demais! Valeu Augustóteles...
Leandro Lopes · Belo Horizonte, MG 2/8/2007 00:03
Ei Gustinho!!!
Boa essa!!! Relembrando velhos rumos...
bjus!!
Não pare!!
Legal Augusto!
Também tenho a impressão que o ser gaúcho [ou punk, ou surfista, ou...] não está neste "caracteres regionais secundários", como aquelas que o "Laçador" simboliza.
Parece-me também que entre os teus dois tipos da epígrafe, existem muito mais pontos em comum do que a descrição de suas aparências.
Provavelmente, alguns valores da cultura pastoril [como diria Darci Ribeiro] e, comum a outros povos de mesma relação com o meio, permearam todos os muitos subgrupos da cultura do RS. Além, é claro, a importância do perfil guerreador, por fronteiras, por poder político, etc...
Alguns dos traços da cultura gaúcha só se percebe quando se veio de lá, mas se está longe do Rio Grande!
Um abração.
Aldo
Muito bom o texto! Parabéns!
mimi_crado · São Paulo, SP 2/8/2007 19:03
belo texto, bela aula, seu Augusto!
abraços
Q lindo Augusto! Parabéns!
BJAO
Show de bola!
Parabéns!
Não tinha lido ainda um texto que abordasse o tradicionalismo dessa forma. Muito interessante. É importante cultivar as tradições, mas tendo uma visão crítica em relação a elas, pensando em que contexto surgiram e o que podemos manter nos dias de hoje.
Muito bem escrito e apurado.
Thais
adorei o texto...mostra que o gaúcho além de cultivar suas tradições, estabelece uma crítica sobre elas...Ai, passa dar conta que a cultura é uma constante transformação...
parabéns!
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