Affonso Romano é o mais revolucionário dos nossos reacionários. Autor de diversos livros de poesia e crítica, Romano, que esteve na vanguarda da experimentação artística dos anos 60, agora resolveu postular, assim como Ferreira Gullar, uma verdadeira "cruzada contra a arte contemporânea", dedicando integralmente sua vida intelectual ao combate do dadaísmo institucionalizado. "Não se trata de traição", argumenta o publicitário Marcelo Noah, "o que aconteceu é que o homem se casou com a Marina Colasanti". Com efeito, sua obra acaba registrando, voluntária ou involuntariamente, todos os conflitos e descaminhos da poesia brasileira do século passado. Prova disso são os dois volumes de suas Poesias Reunidas, lançados recentemente pela L&PM, que constituem um verdadeiro almanaque da produção poética tupiniquim. Na última Feira do Livro de Porto Alegre, Romano esteve a celebrar sua originalidade, e acabou concedendo uma longa entrevista ao programa Prefácil. No entanto, por motivos judiciais, somente agora fomos autorizados a disponibilizar o material. Segue, então, um trecho da conversa, que teve a participação de Ramiro Breitbach, Marcelo Noah e Fabio Godoh.
Affonso Romano: Bem, eu já vou dizendo, rapazes, que sei da ligação de vocês com a Poesia Concreta. Saibam, portanto, que a Poesia Concreta não passou de um equívoco. E digo mais: um equívoco do qual os seus poetas já se arrependeram. O próprio Haroldo de Campos voltou fazer poesia com versos, e também o Décio Pignatari. Com a exceção do Augusto, é claro, que é um caso patológico.
Fabio Godoh: Mas o senhor encara isso como arrependimento? Paulo Leminski costumava dizer que a Poesia Concreta era o "serviço militar obrigatório" da poesia brasileira...
Affonso Romano: Verdade. Tive diversas discussões com o Leminski sobre isso. Eu sempre dizia que tomasse muito cuidado, pois, uma vez seduzido pelo discurso do concretismo, se transformaria em repetidor, e não teria espaço algum no cenário da literatura. Na realidade, os concretos tinham um sério problema edipiano com Joyce, Mallarmé e Pound. Era tudo muito óbvio...
Fabio Godoh: O senhor acha que o poeta é a "antena da raça", como dizia Pound, ou "apenas um homem", como defendia Carlos Drummond de Andrade?
Affonso Romano: É apenas um homem, claro. O Ezra Pound era um sujeito muito pretensioso.
Ramiro Breitbach: Disse Martim Heidegger, na introdução à sua Metafísica, que apenas os poetas e o filósofos são capazes de interpretar o sentido profundo do seu tempo...
Affonso Romano: Sim, e por isso minha obra é um exercício de descentramento, ou seja, um exercício de questionamento das chamadas "verdades". E isso vale tanto para a minha luta dentro da poesia, quanto para a minha "cruzada contra a arte contemporânea". Por exemplo, o meu livro sobre Duchamp: de repente, se estabeleceu uma religião em torno de Marcel Duchamp, e em torno da arte contemporânea. Mas trata-se de uma farsa, rapazes, e eu desconstruo esta farsa no meu livro! É como a arte conceitual, que não passa de uma artimanha discursiva que jamais poderá ser aceita como dogma.
Fabio Godoh: Então o senhor não considera a arte como uma incerteza ontológica?
Affonso Romano: Não. A arte é a resposta! Trata-se, na verdade, de um mito explicativo, embora nada possa ser explicado...
Fabio Godoh: E a Poesia Concreta não seria um mito que tentou explicar-se a si mesmo?
Affonso Romano: Não. A Poesia Concreta, repito, foi um equívoco. Não passou de uma vanguarda retardatária, ligada a 1909, a Tommaso Marinetti. Ou seja, eu, Affonso Romano, estou pra lá de Marrakech! Enquanto as pessoas estão adorando Pound e Duchamp, eu estou no século 21! A melhor homenagem que você pode fazer ao desconstrutor de ontem é desconstrui-lo hoje. Os revolucionários não querem ovelhas. O dadaísmo, rapazes, é uma coisa velhíssima!
Fabio Godoh: O senhor não considera que a única maneira de rompermos com a "tradição da ruptura" seja exatamente não rompermos com a "tradição da ruptura"?
Affonso Romano: O problema é que as vanguardas chegaram a um ponto de autofagia completa. Quer dizer, "menos mais menos é igual a mais"... Não se trata, portanto, nem de fazer essa ruptura, nem de voltar ao passado. Temos que inventar algo novo.
Fabio Godoh: O senhor costuma celebrar a pluralidade de estilos da poesia contemporânea. Não seria esta pluralidade uma herança das vanguardas que o senhor tanto crucifica?
Affonso Romano: Pesquisa não é formalismo, rapaz, não é delírio... É polifonia!
Marcelo Noah: Bem, a gente sabe que o poeta Ferreira Gullar também assume esta postura crítica em relação às vanguardas...
Affonso Romano: Olha, rapazes, se vocês quiserem saber a diferença entre a minha postura e a do Gullar, é simples: o Gullar dá uma no cravo e outra na ferradura. E ponto final.
Entrevista bacana (e instrutiva: confesso que tive que baixar na Wikipedia para refrescar alguns conceitos e definições, mas está valendo!) rs
O problema do Romano é que ele não sabe realmente o que se passa na arte contemporânea. Ele não a nega, a recalca. Acha que se passa hoje o mesmo que há quase 40 anos... Falar em dadaísmo, vanguardismo, desconstrução da desconstrução denota, no mínimo, falta de contato. Uma coisa é reconhecer em Duchamp alguma fundação (sim, baseada na desfundação); outra é achar que nós o achamos deus, que vivemos em função de sua Fonte. O problema maior é negá-lo de forma tão simplista, sempre dentro da doxa, como ele fez Desconstruir Duchamp -- manual sobre como dar chilique e dizer que é crítica. Tanto ele não sabe o que se passa na arte hoje, que sequer discute, por exemplo, o revival da figuração que trabalha o corpo possível...
dedalu · Belo Horizonte, MG 22/3/2007 08:35Eu gosto das opiniões dele, apesar das severas críticas, tanto dele quanto a ele referidas. Vejo méritos na arte contemporânea, e na conceitual, mas vejo também muito discurso e pouca arte da parte de alguns que não acham que sua arte possa ser contestada.
Marcos Woortmann · Brasília, DF 23/3/2007 01:58
Há muita arte gente! Basta querer ver. É sério...
dedalu · Belo Horizonte, MG 23/3/2007 02:49
Que escola me ensina?
Que rio me navega?
Não basta que respire
É preciso que inspire.
Se não rima, subo a maré,
Desatina, o pobre Zé,
Que só faz samba canção,
Quando as rosa lhe falam
Quando do suor das mãos outros odores
Calos suados exalam.
Foi concreto o que ele fez.
De fato, foi poema que cantou.
Verso e rima, metro por tijolo,
Te mete rimas no miolo,
Te organiza o caos
Se o ventríloquo deixar.
Fica assim, ou muda como está.
(Que Opinião mesmo tinha Borges sobre Neruda e Brecht sobre Pessoa e Camões o que diria de todos nós, em bom português? Ah! O debate das escolas volve, revolve e envolve. Que siga a caravana...)
Amei esta entrevista, vou guardar.
Interessante como aqui e ali ele acaba por de alguma forma se contradizendo, ou seja, acaba por dizer que sim, o poeta é a antena, e o mito explicativo acaba sendo uma incerteza ontológica (risos) .
Concordo com o Affonso!
O culto à vanguarda, acabou por (de)formar dentro das Artes Plásticas uma vã guarda que apenas troca vaidades e dá mais importância à pseudoliteratura eruditamente autoincensatória que "explica a obra" do que à obra propriamente dita. Vejam-se as bienais nas quais frente às obras há um texto sem o qual não se é capaz de decifrar as neo-esfinges (nem sempre) visuais. Desculpem-me os amantes de tais coisas, mas no meu entendimento o discurso das artes plásticas deve ser plástico! Se precisa de texto ao lado passa a pertencer a outro ramo, como a literatura ou as histórias-em-quadrinhos.
A elevação de "sacadinhas" do tipo que qualquer publicitário que se preze aprende a produzir diariamente às dezenas à categoria de arte não se faz pela valorização das tais sacadas, que não se tornam nem um pouco melhores ou piores por isto, mas pelo rebaixamento do conceito de arte.
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