O que o gravador perdeu

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Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ
10/10/2007 · 176 · 9
 

O bom senso é complicado. Primeiro, porque se é senso já não devia ser “bom”, já que cada um tem o seu e qualquer apreciação é mera especulação opinativa. Então, munido do meu senso (muitas vezes, “mau” até para mim), vejo-me cá a perguntar como vou explicar que perdi toda a gravação da entrevista de mais ou menos duas horas com Hernani Heffner, a pessoa que muito provavelmente é a maior responsável pela existência – fugaz, é verdade – de alguma tentativa de construção de pensamento de cinema por minha parte.

Cada vez que me justifico, sinto-me mais próximo daquele cronista de jornal que, pela obrigação de entregar o texto na data estipulada, leva uma lauda comentando sobre a folha em branco ou sobre a falta de inspiração. Todos os cronistas, claro, tomam um mote diferente para si, acreditando - ou tentando convencer(-se) de – que aquele motivo original é razão válida para a lenga-lenga sem fim que é tecer sobre a falta de assunto.

Prometo que já apresento meu entrevistado e conto do gravador.

Antes, uma informação: tive aulas com Hernani no curso de Cinema, minha outra graduação além do Jornalismo. Este segundo curso não foi como achei que seria. Mesmo assim, se me perguntassem se valeu a pena, diria que sim – sem dúvida -, e muito do porquê se deve a um professor.

E eis o Hernani, que é quem importa nesse gigantesco nariz-de-cera.

A minha memória (palavra fundalmental, como vocês verão mais para frente) afetiva dos tempos da faculdade é a seguinte: Hernani é franzino, parece ter no máximo 40 anos, parece trabalhar muito, parece ser incapaz de destratar alguém independente da situação, consegue ter pontos de vista absolutamente originais sobre qualquer filme e acha que Viagem à Itália é o marco do cinema moderno (e não Cidadão Kane, como muitos dizem) – no que eu concordo -, aliás, a aula sobre Viagem à Itália foi uma das melhores da minha vida, acho que nunca vou esquecer (como também não vou esquecer a aula sobre A Viagem de Chihiro). Ah! Um dado importante: ele não gosta do Cinema, aspirinas e urubus (que eu adoro).

Uma outra boa recordação. Hernani deu aulões de junho a dezembro de 2005 todos os sábados, das 9h às 13h, no Cinema Odeon. Todos os sábados. Às 9h! E pode crer que lotava. O Odeon tem dois andares, 600 cadeiras, e mesmo no dia mais pós-ressaca do mundo, o cinema enchia para assistir ao Hernani dar aula sobre os filmes brasileiros. Era bonito de se ver Hernani no palco sozinho, naquele cinema todo imponente, com uma luz destacando-o. De repente, dizia: “ô Zezinho, pode rodar o filme”. E pronto, lá vinha com a ordem um filme raro, inédito às vezes, dos primórdios do cinema nacional. O filme terminava. Voltava Hernani – sem a menor solenidade – àquele palco tão solene. Franzino e com fala mansa, ele continuava a aula. Acho que vi esse tipo de desprendimento de qualquer vaidade num palco (a aula no Odeon era um show) em pouquíssimos lugares, talvez apenas no começo de Nelson Freire, do João Moreira Salles, em que o pianista sai de um concerto ovacionado e negocia o bis pela possibilidade de fumar um cigarrinho depois.

Memória

Duas semanas já se passaram depois da tragédia anunciada há mais de seis anos pelo meu professor de Introdução ao Jornalismo. Não use o gravador para fazer uma entrevista e, caso use, não deixe de anotar no papel tudo o que foi falado, como se não houvesse uma outra forma de registrar a conversa. A justificativa era a das mais simples: se você contar apenas com o gravador, um dia a fitinha pode não rodar e aí todo o trabalho estará perdido. Bem resumidamente: eu, jornalista formado em cinema, fui fazer uma entrevista jornalística com a minha maior referência de cinema – Hernani Heffner. Levei o gravador, não anotei nada no papel. Voltei, conferi a gravação: nada gravou. Corri para um papel, anotei o que me lembrava da conversa. E aqui estou eu escrevendo sobre isso.

A entrevista foi no MAM, onde Hernani trabalha desde a década de 1980 como voluntário e desde 1995 como diretor de conservação da Cinemateca local. Entrevistei-o baseado nas memórias que guardei de quase dois anos tendo ele como professor e, também, nesta belíssima edição da Contracampo dedicada à preservação, restauração e difusão de filmes (onde indico firmemente a leitura de um artigo escrito por Hernani, intitulado Preservação).

Listo aqui algumas perguntas que fiz a Hernani (essas eu anotei!). Num esforço irônico de memória (nem seria difícil traçar um paralelo entre a perda da gravação da entrevista e aquilo que acontece há décadas com os filmes exibidos no Brasil), comento também, naturamente nas minhas palavras, o que recordo das respostas dadas por ele:

Depois de entrar aqui, onde ficam guardados os fimes da Cinemateca, não poderia deixar de perguntar isso: você realmente tem alergia à película?

Sim, de fato Hernani tem alergia à película. Quer dizer, não à película, mas ao gás que o filme deteriorado emite, o ácido acético. Não à toa, toda a Cinemateca cheira a vinagre. Desde o dia em que a película é fabricada ela já está se deteriorando, é uma luta contra o tempo. É, realmente, uma medida entre umidade e temperatura (por isso, todas as salas de conservação de filmes têm um sensor que mede esses dois fatores). Pois bem, Hernani, que é alérgico a uma porção de coisas – principalmente a polén – tem alergia a ácido acético. Mas ele explica que o melhor modo de se combater alergia é entrando em contato com o fator alérgico – assim funcionam as vacinas. Isso, contudo, não o impediu de, em 1999, ter tido uma das piores crises alérgicas de sua vida, quando ficou 10 dias quase sem poder comer.

Uma questão que você já tentou responder em mais de um texto, mas que também me parece fazer sentido perguntar: qual é o papel de uma cinemateca?

Tipo de pergunta genérica que sempre evito fazer. Bom, pergunta arriscada feita, a resposta do Hernani é bem bacana. Uma pena que eu não a tenha gravado, porque parece mais uma aula. Logo, ele faz questão de afirmar que cinemateca nada tem a ver com passado. Que você conserva sempre para o presente e em vista do futuro. Você conserva para entender – no agora – o que aconteceu ontem, para assim olhar melhor para frente, para o amanhã. Que o ideal, e que nem de longe é feito no Brasil, seria que o acervo da Cinemateca ficasse disponível e fosse exibido com a maior freqüência possível. Assim, sendo vistos, os filmes conservados serviriam à população. Ele conta dos inúmeros projetos que já tentou emplacar para que haja um circuito de exibição de obras da Cinemateca no Brasil. A idéia é que as fitas rodem no formato original – em película – pelas mais diversas cidades do país. E sim, há possibilidade de um desses projetos se concretizar.

Já li você falando da dificuldade de se conservar obras interativas, feitas e modificadas por mais de uma pessoa. O que poderia ser uma questão teórica, agora parece estar um pouco mais próximo do mundo real, com a tecnologia digital e as novas licenças autorais. Então, continuo o questionamento: como você vê esse novo mundo de tecnologia e como conservar obras das quais, às vezes, nem se sabe quem é o autor original?

A resposta foi exatamente assim: “Eu costumo dizer que essa época é a época do sampler. Tudo é sampleado”. Depois dessa boa aspa, Hernani conta que o ideal seria ter todo um arquivo digital, que monitorasse o filme original e todas as modificações feitas nele, mas que isso é utópico e não ocorre nem mesmo nas maiores cinematecas do mundo. Quanto à questão digital (e só agora me lembrei que, no meio da resposta à pergunta em negrito, soltei um “ué, mas o YouTube não seria a cinemateca do futuro?”), ele é cauteloso: diz que ninguém garante que de fato tudo na rede é conservado, que ainda há um meio físico (seja um CD, seja um servidor) responsável pelo papel atribuido à película - ainda há no mundo “real” algo palpável que armazena dados. E mais: ninguém garante que um endereço, uma URL, seja eterno na rede.

Houve uma debandada de filmes entre 2002 e 2003 da Cinemateca do MAM. Muitos dizem que ela esteve perto de fechar. O que realmente houve? E agora, o que mudou com o investimento do BNDES?

Essa era uma curiosidade muito grande. Sabia apenas da debandada dos filmes da Cinemateca, em 2002 - devolução aos produtores, doações a outras cinematecas etc. Conhecia alguns boatos e uma lista-protesto que correu na Internet. Hernani confirmou algumas coisas. De fato, houve uma decisão interna (no entender dele, absolutamente equivocada, tanto que chegou a se demitir para, depois, a pedido de muita gente, voltar atrás) que dizia que o Museu, uma instituição privada, não tinha mais como arcar com os custos da Cinemateca. O lugar não chegou a fechar, mas as exibições foram bem escassas durante um tempo. Foi preciso uma nova diretoria assumir o Museu e o BNDES investir R$ 522 mil para que a Cinemateca começasse a se reerguer. Os danos ainda estão sendo reparados. Em 2002, eram 100 mil rolos de filme (por volta de 40 mil títulos). Hoje, são 40 mil rolos (7 mil títulos). Tem muita lata ainda no chão para ser organizada. Por sua vez, agora há mais enroladeiras de filme do que antes, o que agiliza e muito o trabalho. A fase é de otimismo.

Qual é a sua visão da chamada “nova crítica de cinema” no Brasil, formada basicamente por jovens que usam a Internet para expor seus textos? Pelo que sei, em muitos pontos você discorda deles, não?

Hernani ri aqui. Diz que gosta dos meninos. Que eles abrem para diálogo, que podem discordar de você e ainda assim ouvir, chamar para um debate. Ele conta que é natural o movimento dessa nova crítica de abraçar diretores tão novos quanto eles, que tenham uma visão de mundo próxima. Por isso tanta idolatria por uma nova escola de cinema oriental. Por isso, tanto apego ao trabalho de um Karim Aïnouz, de um Beto Brant. Há uma necessidade de buscar no mundo do cinema um olhar cúmplice, uma outra tentativa de entender o cinema e o mundo. Hernani ainda brinca e afirma que eles – os novos críticos – não vêem mais fundamento em tentar compreender o cinema de um Cacá Diegues. Ele – Hernani – sim, ainda vê.

E o que você acha do cinema brasileiro atual?


Novamente, Hernani fala sobre a diferença de sua visão de cinema em comparação à dos mais novos. Diz que é natural que as buscas sejam distintas. E brinca, mais uma vez, dizendo que a moda atual é falar que ele adorou Santiago, de João Moreira Salles (a jovem crítica especializada não gosta), e não gostou de Cão sem dono (filme de Beto Brant idolatrado pelos jovens críticos). Ele tem naturalidade também ao afirmar que vai cada vez menos ao cinema, e vê cada vez mais filmes para criança com os seus filhos.

***

Na entrevista, descobri a idade exata de Hernani: 45 anos. Foi a última pergunta que fiz, se minha memória guardou bem. Durante a conversa, algumas coisas aconteceram: Carlos Mossy passou para pegar com Hernani um filme perdido da década de 80 estrelado por Luma de Oliveira; a diretora do MAM ligou para Hernani e, entre outras coisas, perguntou qual seria o melhor aparelho de ar condicionado para a Cinemateca; um funcionário entrou para avisar que o veneno de rato já estava lá; e o curador da Cinemateca perguntou como estava a cópia de Bus stop, com Marilyn Monroe, no que Hernani respondeu algo assim: “sem legenda e um pouco desgastada, mas talvez dê para usar”.

A aparência de que o Hernani tem aquela Cinemateca nas mãos é inevitável. Tudo ali gira ao redor dele. O que me faz, agora, ter duas torcidas. A primeira: que a minha memória ruim tenha funcionado hoje tão bem quanto a do Hernani quando perguntando sobre a qualidade do negativo. E a segunda: que, acima de tudo, Hernani realmente consiga estruturar aquele lugar tão importante para o futuro de tanta gente, inclusive dos esquecidos como eu.

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Roberto Maxwell
 

Tive aulas de cinema brasileiro com o Hernani e participei do curso de cinema do Odeon pelo menos ate vir pro Japao. O cara eh simplesmente fera. Nunca me esqueco da primeira aula dele dizendo que a importancia do cinema brasileiro dentro historia do Brasil eh NULA. Foi um choque. A gente ficava ate quase o final do curso esperando para ter aula com ele e... Dali, ele comecou a dar as razoes para a sua afirmacao e nos comecamos a entender a marginalizacao do cinema enquanto arte dentro do pais e entendendo que, por tras de uma frase tao agressiva, havia uma realidade que eh triste e instigante.

Depois, eu dei um curso de Historia do Cinema brasileiro num preparatorio para a prova da ANCINE e ele esteve na minha memoria o tempo todo. Eh um cara excepcional, uma sumidade do cinema, sem as afetacoes que a maioria dos que se acham sumidade tem. Alem disso, Hernani tem amor por cinema. O que faz q ele nao resuma os filmes em gosto ou nao gosto, uma doenca que afeta os novos criticos, inclusive os de revistas tidas como refinadas pelos novos leitores de critica de cinema.

Roberto Maxwell · Japão , WW 10/10/2007 12:19
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FILIPE MAMEDE
 

Que vacilo hein Thiago, vivendo e aprendendo. Mas se sem o gravador, você nos brinda com essa narrativa tão bacana, imagine então munido do aparelho. Mas ainda tem jornalistas por aí que abominam o uso do gravadorm, enfim... Gostei muito meu amigo.
Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 11/10/2007 09:59
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Roberto Maxwell
 

Filipe, agora tu imagina eu entrevistando o Bonde do Role, antes das duas apresentacoes que eles fizeram aqui no Japao, com a camera na mao, na rua, uma entrevista show e eu descobrir que o microfone estava desligado quando eu cheguei em casa!

Roberto Maxwell · Japão , WW 11/10/2007 12:24
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FILIPE MAMEDE
 

Poxa Roberto, é por isso que tem que rolar antes de qualquer coisa o tal do: 1 2 3, testando! Alô som! 1 2 3 testando....(risos)
Um abração.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 11/10/2007 13:44
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Fábio Fernandes
 

Thiago, há uns dois anos, eu fui à Cinemateca do MAM para fazer uma pesquisa sobre José Sanz, mas quase não havia material sobre ele (por incrível que pareça, pois, junto com Antônio Moniz Vianna, foi o Sanz quem criou a Cinemateca). O funcionário encarregado me disse na hora: olha, quem sabe tudo do Sanz é o Hernani, mas agora ele está ocupado, dando um curso. Durante vários dias tentei falar com ele, mas o cara é ocupadíssimo. Fico feliz por voce ter conseguido falar com ele e puxado o papo do registro akhásico da sua memória, e fico triste por você ter perdido a gravação. Também fui educado na mesma cartilha pelos meus professores de jornalismo, mas existe um outro princípio tristemente importante hoje em dia, que recomenda ao jornalista gravar tudo, simplesmente para não ser ameaçado de processo pelo entrevistado depois. Por incrível que pareça, na unica vez em que não consegui gravar uma entrevista e publiquei seu conteúdo, isso quase me aconteceu. Felizmente era um site e pude tirar, ainda que a contragosto, a matéria do ar. Mas da próxima faça como o Felipe falou: use o velho 1, 2 3 testando! :-)

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 11/10/2007 14:50
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Thiago Camelo
 

Opa. Obrigado pelos comentários, gente! Vou tomar mais cuidado da próxima vez. A verdade, verdade, é que quase nunca uso gravador. Daí fui tentar usar um daqueles mp3player que gravam áudio para isso e me dei mal. Esse mês eu compro um analógico. Viva o gravador analógico!

Legal saber que vcs também têm alguma história do Hernani pra contar.

Abração!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 11/10/2007 15:20
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dudavalle
 

Thiago !
O Hernani eh uma figura, agora a quantas anda a Cinemateca do MAM, falaram que a prefeitura ia comprar o acervo . Tem também aquele projeto de um Museu do Cinema em Niterói e talvez acontecesse uma transferência de acervo, sabe de algo ?
Excelente entrevista !!!

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 12/10/2007 06:29
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Inês Nin
 

só preciso dizer uma coisa, além do relato ótimo e dos questionamentos: ADOREI a escolha da imagem.

fora isso, acho engraçado perceber umas semelhanças com a opinião sobre os filmes citados: gostei muito mesmo de Santiago e achei Cão Sem Dono meia boca. um longa que dura pouco e tem alma e estrutura de curta-metragem. por outro lado, também gosto muito da nova escola do cinema oriental, e digo que é mais que saudável essa variedade de opiniões.. inclusive identificadas com gerações, ou com o próprio tempo.

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 13/10/2007 17:12
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Fabi29
 

thiago, adorei. a metalinguagem, a forma, o conteúdo!
sou super interessada em aprender a restaurar película, não há curso no país, acredita?

Fabi29 · Brasília, DF 1/2/2010 12:58
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