Será que Augusto Comte, que se tornou o papa da física social e do positivismo, tinha razão ao dizer que “tudo é relativo”? Será que o tempo se inclui nesse rol de relatividade? Sim, porque o tempo parece empurrar o espaço de nossas vidas, na base de chutes e petelecos com uma ferocidade cada vez maior. Tem-se a impressão de que os segundos, minutos e horas estão correndo como funcionários que sentem os momentos finais de uma exaustiva jornada de trabalho- não se pode tirar totalmente a razão deles-, ou como maratonistas; parece que as divisões de tempo fogem, suando em bicas e com taquicardia de ejetar o coração do peito, para tirar seus pais da forca.
É um assunto muito discutido e flexível. Há aqueles que defendem a tese de que tal sensação de um “tempo expedito” é psicológica: quando enfrentamos momentos desagradáveis, o tempo se estica como um elástico infinito. Por outro lado, quando estamos vivenciando momentos prazerosos, o tempo se encolhe como esse mesmo elástico infinito, só que cortado por um invisível alicate invejoso e contrário a qualquer modalidade de hedonismo. Faz sentido? Até faz. Dez minutos de namoro equivalem a um flash de máquina. Outros quinhentos já são dez minutos de espera numa fila. Quanto à espera em filas, é curioso notar que, as crianças, embora portadoras de faculdades imaginativas extraordinárias, impacientam-se tremendamente com esse fenômeno, e por isso perguntam quando voltarão para casa, se a tarefa que está sendo cumprida pelos pais ainda vai demorar muito, etc. Já um adulto consegue se valer de artifícios para suportar com uma certa resignação os mais ou menos longos períodos de tempo gastos em filas e outros sacrifícios semelhantes. Podemos dizer que, nos adultos, a capacidade de abstração é mais treinada, graças à maturidade.
Outros dizem que não seria possível um aumento do passar do tempo- certas tautologias são difíceis de se evitar-, já que o planeta continua girando com a mesma velocidade, embora alguns cientistas venham defendendo a tese de que o movimento de rotação da terra em torno de seu próprio eixo pode ter sofrido alguma alteração. Por quê? Já li em algum lugar uma tese doida- será doida de fato?- que põe como causa desse efeito um leve deslocamento de inclinação, provocado pelo peso acumulado até aqui- sim, porque a superfície do globo está entupida de construções de todos os tamanhos e pesos, bem como de pessoas, igualmente de todos os tamanhos e pesos.
Uma terceira “corrente” propõe a idéia de que, de nas últimas décadas, temos cada vez mais atividades, ou seja, as 24 horas continuam as mesmas, quietinhas dentro do círculo do relógio ou do quadrado display dos digitais, mas ocupamos essas 24 horas com uma quantidade de tarefas que as pobres horas não dão conta; seria necessária uma prorrogação,e até mesmo um golden goal, e ainda assim, muita coisa ficaria para o dia seguinte. O “não deixe para amanhã o que pode fazer hoje” constitui uma tarefa cada vez mais árdua de se cumprir. Vivemos sob o signo da velocidade: tudo tem que ser rápido, dão-nos mil tarefas, nós mesmos arrumamos uma série de atividades de lazer com as quais nos deleitamos. Antes, era o tempo dos cavalos, das carruagens, das cartas que demoravam meses para chegar ao destinatário. Hoje um e-mail chega numa caixa-postal em um segundo, temos as pontes aéreas, o metrô, o trem bala, carros que atingem mais de 100 quilômetros num piscar de pneus. Enquanto isso, Cronos ri, bebericando em vinholadas com Baco, porque para os deuses, não há tempo, ou melhor, há todo o tempo do mundo, com um bônus do tempo do universo.
Seja o que for, parece que há algo de podre no relógio da Dinamarca; algo está acontecendo com o tempo. Que fazer? Organizar uma junta composta por matemáticos, físicos, relojoeiros e geriatras? Bater palmas para Comte? Sinceramente, não sei. Estou sem tempo para pensar sobre isso agora. Até mais.
Prezado Marcato.
Você nos brindou com um excelente texto. As tuas observações são sagazes e nos fazem parar (?) para pensar:
Quanto à espera em filas, é curioso notar que, as crianças, embora portadoras de faculdades imaginativas extraordinárias, impacientam-se tremendamente com esse fenômeno, e por isso perguntam quando voltarão para casa, se a tarefa que está sendo cumprida pelos pais ainda vai demorar muito, etc. Já um adulto consegue se valer de artifícios para suportar com uma certa resignação os mais ou menos longos períodos de tempo gastos em filas e outros sacrifícios semelhantes. Podemos dizer que, nos adultos, a capacidade de abstração é mais treinada, graças à maturidade.
Meus parabéns pelo texto maravilhosamente escrito e de um conteúdo que é produto de um observador arguto.
Voto no teu trabalho com entusiasmo e sinceridade.
Abraço,
Baduh
Um texto interessante, e gostoso de se ler..nos leva a refletir sobre o tempo, a forma que o vemos e preenchemos esse tempo. Acredito que se pararmos para analisar e buscar um melhor aproveitamento das horas em nossa vida, iriamos aproveitar melhor esse tempo...como crianças que na sua forma natural e espontânea sabe quando está na hora de mudar de atividade, e até de nutrir suas necessidades básicas...o tempo poderia também estar relacionado a um comportamento cada vez mais raro em nossas vidasque é "ter paciência"...mas achei muito legal!!
lubraga12 · Aurora do Tocantins, TO 28/8/2007 20:24
Parei pra ler e votar porque falava exatamente sobre isso com os meus alunos na aula de hoje... estranho, muito estranho.
Parabéns pelo belo texto.
Baduh Diante do fenômeno nacional da fila, num determinado momento, mesmo os adultos acabam perdendo o controle sobre a capacidade de abstração, porque o repertório do imaginário acaba, mas a fila continua, hahaha. Obrigado pela leitura, abraço!
Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 29/8/2007 01:58Lu: Existem algumas maneiras de se criar uma economia do tempo, por exemplo, exercendo atividades num espaço de tempo que seria "perdido"- ler, escrever ou organizar coisas num trajeto de ônibus, ou fragmentar a execução de atividades em pequenos espaços de tempo disponíveis. Esse ponto da paciência em que você tocou é interessante: chega-se à capacidade de espera sem stress naturalmente- algumas pessoas já têm essa tendência ou essa índole mais calma, digamos-, ou por condicionamento. O que fica complicado hoje em dia é o choque que há entre uma pressão que a velocidade das coisas exerce sobre nós- demanda- e a demora das respostas- resultado-, causada por obstáculos diversos- burocracia, p.ex.. Obrigado pela leitura, abraço.
Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 29/8/2007 02:12Luiz: Que coincidência! Esse é um assunto que sempre me vem à cabeça. Acho que a velocidade das coisas e o grande número de tarefas a serem cumpridas- as obrigatórias e as não-obrigatórias, porque tem aquela estória de que sempre arrumamos alguma "preocupação" que não tínhamos antes, rs- acabam por eleger o tema tempo como pauta de nossos debates, sejam eles um diálogo ou um solilóquio. Obrigado pela leitura, um abraço.
Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 29/8/2007 02:18Valeu, Andre, obrigado pela força.
Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 29/8/2007 23:42Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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