O Quilombo do Norte e a Fonte da Juventude

Gustavo Acioli
Luzia do Livino conta seus causos
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Marcelo Cabral · Maceió, AL
14/8/2007 · 137 · 11
 

Cheguei ao comecinho da tarde na simpática Santa Luzia do Norte, acompanhado do fotógrafo Gustavo Acioli, amigo que me meteu na cabeça uma semente de curiosidade sobre a comunidade daquele município conhecida como Quilombo.

Localizado na zona rural de Santa Luzia, descobrimos que o Quilombo guarda em seu modo de vida tradicional costumes e fazeres das culturas afro-brasileira e indígena, e pela longevidade de seus moradores, guarda também o segredo da fonte da juventude.

Tomamos o rumo das margens da grande Lagoa Mundaú, fonte de sustento para comunidades de pescadores e marisqueiros dos municípios da região, inclusive da capital, Maceió. Naquela parte selvagem da lagoa, entre matas de árvores frutíferas de todos os tipos, encontramos o pequeno povoado.

Chegamos a uma espécie de largo ou praça natural, com casas dos dois lados, em uma delas avistamos uma senhora na porta, que era tão linda e tinha sorriso tão convidativo que simplesmente paramos o carro, descemos e fomos falar com ela. “Boa tarde”.

Luzia Rosa dos Santos, ou Luzia do Livino, 64 anos e aparência de 44, com sua pele negra brilhante e seu sorriso de propaganda de creme dental, nos recebeu em sua casa com muita hospitalidade, e nos contou um pouco da história do Quilombo e das suas próprias.

Dissemos a ela que estávamos à procura de vestígios, de evidências ou causos de um antigo quilombo, cultura, culinária, linguagem, essas coisas. Falamos de Zumbi e do Quilombo dos Palmares, ali pertinho na Serra da Barriga, e ela estava bem inteirada do assunto. Perguntei se o nome da comunidade indicava um passado de resistência quilombola, ou seja, de escravos negros fugidos tratando de defender, sobreviver e construir um lar por ali. Ela respondeu.

“Repare, aqui tem esse nome de Quilombo porque sempre viveu um povo preto assim que nem eu, algumas famílias que vivem por aqui faz muito tempo. O que eu sei mesmo é do meu tempo, sei que hoje é melhor do que antes, as coisas estão melhores, antes era mais difícil”. Dito isto discorreu muitas palavras de gratidão aos doutores e senhores da região, em uma relação quase feudal que ainda existe e muito pelo nordeste afora.

“Antes era assim, o que o negro vê ele fica calado, se criamo assim, desde criança, meu pai dizia que o que um negro vê ou sabe não deve ser dito pra ninguém. Pra você ver como era antigamente, o pessoal daqui, quando morria, era enterrado com um caixão bate-bate, que servia pra todo mundo que morria, só levava o defunto até a cova, e voltava pra esperar o próximo, ou senão enterrava enrolado em uma rede mesmo”.

Longevidade

Já que Luzia, esta senhora que leva o nome da cidade em que vive, sabia das coisas do seu tempo, de seus 64 anos vividos ali, quisemos saber seus relatos, e ela danou a falar com muito gosto.

“Minha mãe, Maria Rosa, ganhou uma medalha da mulher mais velha de Santa Luzia, ela morreu com 104 anos. Meu pai, Manuel Livino, e por isso me chamam Luzia do Livino, morreu com 118 anos”. Espantado, perguntei onde era a fonte da juventude, e ela explicou sua opinião sobre o motivo da saúde dos mais antigos.

“Hoje em dia tem muito remédio, esses médicos não sabem de nada, dão remédio e a doença volta, antigamente gripe era hortelã batida e alho, e sempre comer direito. Veja só, antes, menino que ficava doente a gente fazia o seguinte: Queimava a roupa que ele estava vestido e defumava o menino, depois dava um pouco das cinzas com água morna pra ele beber e pronto, estava curado”.

Meio impressionado, continuei a ouvir sua conversa, Luzia é daquelas pessoas que gostam de falar das coisas. Apesar de dizer que hoje a comunidade vive dias melhores, contraditoriamente fala sempre em tom saudoso dos tempos passados. “A gente fazia muita festa, brincava a chegança, o pagode e o coco, sinto falta dessas brincadeiras, que estão se acabando, as danças e o pessoal tocando sanfona, zabumba e vialejo (pela descrição uma gaita harmônica ou realejo) até raiar o dia”.

Nossa anfitriã nos contou que ali se plantava muita batata, macaxeira e feijão e que hoje vivem basicamente da pesca e da catação de sururu, atividade normalmente desempenhada pelos homens, que também trabalham para as usinas de cana de açúcar na época da colheita. As mulheres basicamente preparam e comercializam bolos de macaxeira e fubá, tapiocas, grudes ou macasado, pés-de-moleque e outras delícias herdadas dos índios e africanos.

Despedimos de Luzia, seus filhos e netos, que escutaram a matriarca com a mesma atenção compenetrada que nós. Agradecemos a hospitalidade e a prosa e seguimos um delicioso cheiro de assado de macaxeira que vinha até nós pela rua como uma nuvem de sabor, como em um desenho animado antigo.

Fábrica de delícias

Fomos atrás da grande nuvem de cheiro, acompanhados por um grupo de meninos e meninas com olhos arregalados e curiosos com os visitantes curiosos. Pediram pra tirar retrato. Caminhamos um pouco e chegamos a uma verdadeira oficina de produção de delícias, estava saindo uma fornada de bolo de macaxeira. Fomos recebidos por Margarida, chef local.

Compramos a iguaria e comemos imediatamente, “muito bom Margarida”. O forno a lenha feito de pedra dá um gosto especial, o pé-de-moleque e o bolo de macaxeira são as duas especialidades da Margarida, que vende os produtos na cidade de Satuba e seu filho, Clauristone, vende em Murici. Quando perguntei sobre a inventividade na escolha dos nomes do casal de filhos Clauristone e a caçula Macicleide, ela respondeu “peguei no vento”. Segundo ela, os filhos freqüentam a escola que funciona na comunidade do Quilombo.

Vale lembrar que o pé-de-moleque aqui em Alagoas é diferente do conhecido doce com amendoim, é feito de massa puba, que vem da macaxeira, e assado em folhas de bananeira no forno a lenha.

Saímos pra procurar as pessoas mais velhas do lugar, Maria de Lourdes ou Dona Nazinha, que tem mais de 100 anos, “elas sabem essas histórias antigas de negro escravo” disse Luzia do Livino, mas antes, as crianças nos contaram de uma bica de água ali perto, e nos chamaram pra conhecer. Pensei “pronto, esta deve ser a fonte da juventude”. A tarde estava bonita e uma pequena caminhada pela trilha dos meninos seria uma boa.

Trilha para a Fonte da Juventude

Passamos por umas senhoritas que descascavam um pequeno morro de sururu, saboroso molusco rico em minerais encontrado nas lagoas Mundaú e Manguaba, uma das principais fontes de renda por ali. Além de ser um prato muito apreciado nos restaurantes da região, sua casca serve para adubar terra por ser muito rica em ferro.

Chegamos à bica e as crianças caíram na água, sorriam, pulavam e gritavam. Diante da cena, Gustavo atendeu aos pedidos de retrato. Umas senhoras lavavam roupa no riacho da fonte da juventude, molhei os pés, pelas dúvidas.

Última parada, Dona Nazinha. Fomos recebidos em sua casa por inúmeros descendentes de todas as idades, depois chegou esta senhora de 104 anos, muito educada e reservada, conversou um pouco com a gente na varanda da casa de sua família.

Apesar da lucidez e firmeza, diz não lembrar dessas historias antigas de escravidão e liberdade, definitivamente não estava interessada no assunto, nos contou que uma neta casou com um europeu e foi viver por lá, mostrou fotos do casamento e disse que ela está feliz da vida. Uma das netas começou a contar as travessuras da avó, “ela gosta de ‘pinotar’ pelo jardim pra sair pra rua, e também fuma escondida”. O assunto da menina parecia divertir Dona Nazinha, arrancando um sorriso do rosto duro e austero. “Não sou doida, só quero passear de vez em quando e também gosto de dar umas pitadas no cachimbo”.

Sobre o segredo pra se viver tanto ela respondeu que não sabe o motivo, e que já trabalhou em “todo tipo de trabalho, de catar marisco, doméstica, de puxar mandioca e até no cemitério, tudo”. Diz que come muito pirão, farinha, sururu e que já comeu tanto camarão na vida que não gosta mais, “abusei” ela diz.

Não quisemos incomodar muito e deixamos Dona Nazinha, 104 anos, 15 filhos, descansando com sua família, e voltamos pra Maceió.

"As leis abolicionistas são mentiras. A liberdade foi conquista do próprio negro".
(Edson Moreira da Silva)


Fomos direto à casa do professor Edson Moreira da Silva, historiador, pesquisador, um senhor negro e alto de meia idade, que vive em um verdadeiro museu de cultura afro, com incríveis obras e documentos, como uma pintura do Jesus Cristo negro e uma cópia da Lei Áurea.

“Todas as leis abolicionistas são mentiras”, ele disse e continuou, “a liberdade não se vende, não se compra, não se dá, se conquista. A abolição foi uma das conquistas do próprio negro, e não benesse do poder. A história que nos contam desde criança é mentira. O Quilombo dos Palmares, por exemplo, foi a maior organização que já existiu neste país, e os quilombos viraram as favelas”.

Sobre a comunidade que tínhamos acabado de visitar, ele contou que nunca consistiu em um quilombo de fato, para onde os negros fugiam e resistiam, mas um povoado que surgiu com a chegada de algumas famílias de negros libertos após a abolição, que ali se estabeleceram e seus descendentes aí vivem até hoje, com um modo de vida simples que tentamos retratar um pouco com estas palavras e imagens de um dia no lugar.

O professor Edson realmente quer montar um museu afro com o significativo acervo guardado em sua antiga, grande e belíssima casa no bairro do Farol em Maceió, mas precisa de apoio e recursos pra realizar sua empreitada de preservação cultural. Edson é graduado em História e atualmente está escrevendo sua monografia de conclusão do curso de Teologia. Tema: O Candomblé. Edson, que é católico, explica o interesse “É um absurdo que no nosso país existam tão poucos estudos sobre religiões de origem africana em Teologia. A religião sustentou e sustenta a força do negro no Brasil até os dias de hoje”.

Quanto ao segredo da fonte da juventude do Quilombo de Santa Luzia do Norte, permanece um mistério insolúvel.

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Spírito Santo
 

Marcelo,

Excelente a sua matéria, a concisão, a seriedade, tudo muito bem medido para ser o que é: Informação essencial para nós todos. Duas coisas, entre todas, me chamaram mais a atenção e gostaria de comentar aqui: Uma é o fato de serem muito importantes relatos precisos como este seu sobre quilombos no Brasil. É que, infelizmente, o conceito anda sendo banalizado por aí, com habitantes de aldeamentos comuns, sendo induzidos a se declarem, falsamente, quilombolas, no bôjo de interesses estranhos à causa negra, fruto da derrocada ética que se apossou do Brasil tomando, invadindo toda a sociedade. A desmoraliz\ação do conceito, do ponto de vista jurídico institucional, vai ser uma lástima, um passo atrás na luta pela superação do racismo no Brasil.
A outra coisa (ambas extraídas da fala desta grande figura que me pareceu ser o professor Edson Moreira) são relacionadas ao Quilombo der palmares, sobre o qual andei pesquisando um pouco e disponibilizaei aqui no Overmundo neste e neste link (gostaria muito de que o professor Edison, de algum modo, pudesse avaliar e comentar este material)

parabéns sinceros pelo seu excelente trabalho.

Grande abraço

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 11/8/2007 18:28
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Marcelo Cabral
 

Obrigado pelo comentário Spírito Santo. Li seus textos dos links, recomendo pro pessoal que passar por aqui que leiam na sequência, e essa história da Serra da Barriga também.
Abraço

Marcelo Cabral · Maceió, AL 12/8/2007 14:59
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janice
 

muito boa materia,assunto que poderia ser abordado mais vezes,parabens.janice

janice · Maceió, AL 12/8/2007 22:26
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Andre Pessego
 

Marcelo, acompanhei, meio voluntário a algumas comissões de demarcação de alguns dos chamados quilombos perdidos de Goiás, em São Paulo no Vale do Ribeiro, Ubatuba-Caraguá, etc.
- A situação foi sempre a mesma. Por que? - pela falta do direito de terra; pela ausência da indenização. Indenização que depois as forças armadas - substituiram por "reparação". Que não é a mesma, coisa...
Mas gostei da reportagem e da vasta informação paralela.
um abraço andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 13/8/2007 08:20
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baduh
 

Marcelo.
Votei em você, mas sou um suspeito...
De todos os recantos do Brasil, que conheço bem, graças a Deus, o Estado das Alagoas é o amor da minha vida!
Durante muitos anos esperei, sempre ansioso, o começo das férias no trabalho, para embarcar, no rumo de Maceió e, dali, pernas prá que te quero!
Varei o Estado das Alagoas, o Paraíso das Águas, inúmeras vezes, sempre usando todos os dias de minhas férias. Andarilhando por lá... Batizei crianças, dormi em casa de pescadores, chorei e fui chorado nas partidas... Eu, carioca, amo Alagoas!
Excelente matéria, meus parabéns!
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 14/8/2007 06:07
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Evelina Antunes F. de Oliveira
 

Muito bom, Marcelo!
Nossas histórias negras têm sempre cheiros, sabores e ritmos.E o seu texto traz isso também.
A D. Luzia deixou clara a sua lealdade e o seu agradecimento pelo que recebeu de certas pessoas, mas ela pensa a partir de seu grupo.
O que o pai dela disse sobre o silêncio, só rompido pelos laços internos das famílias, é negro, é indígena, mineiro, alagoano, e por ai vai.
bjs

Evelina Antunes F. de Oliveira · Maceió, AL 15/8/2007 04:02
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Marcelo Cabral
 

Pessego, bacana seu depoimento. Você tem registros desses acompanhamentos de demarcação dessas comunidades? Que tal publicar por aqui?

Baduh, volte sempre, o seu jeito de conhecer as Alagoas é o melhor. Quem vem num esquema turístico convencional está fadado aos roteiros de lua de mel e melhor idade, nada contra, mas existem outras modalidades sub-exploradas, como o turismo histórico, gastronômico, de aventura, etc. Seja sempre bem vindo.

Evelina, obrigado pelo comentário, beijo.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 15/8/2007 06:45
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Erika Morais
 

Marcelo, como sempre um belo texto, ao seu modo, recheado de informação e sensibilidade.
Parabéns também pela temática, é importante falarmos sobre a população negra de Alagoas, uma minoria de 3% com uma cultura tão pouco divulgada. Todo mundo sabe da existência de Palmares, mas pouco chega às massas além disso.
E o melhor, conhecer histórias de vidas. Experiência sempre fascinante.
Parabéns ao Gustavo também, pelas fotos.
beijos.

Erika Morais · São Paulo, SP 17/8/2007 11:11
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rosa melo
 

Parabéns Marcelo!
Muito sensível, você!
Seu texto não é desses de encomenda.
Eu me ressinto que aqui em Pio IX tenha nesses últimos anos se dissipado o último grupo quilombola existente. E pasmem! Quem proveveu a dispersão foram os "Assentamentos". O MST espalhou a família Queiróz por assentamentos de distâncias extremadas. Alguns muitos ainda se instalaram no assentamento da Taboca, mas há deles por diversos outros. Não há mais a menos chance de se cultivar valores culturais próprios.
Na Lagoa dos Queiróz, onde até bem pouco tempo eles habitavam, sobraram 4 pessoas isoladas, inclusive vítimas de assaltos a mão armada.
Como ver, não há interesse real em preservar, garantir a sobrevivência da cultura quilombola.

Parabéns mesmo!
Abraço!

rosa melo · Pio IX, PI 10/2/2009 11:18
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Marcelo Cabral
 

Obrigado mesmo Rosa. Obrigado querida Erika. Abraços.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 10/2/2009 16:17
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Mecenas
 

Parabéns importantes informações.

Mecenas · São Mateus, ES 18/4/2010 17:39
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