O Rap agoniza, mas não morre...

.divulgação.
.pentágono, sacudindo 2008 aos 45 do segundo tempo.
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joao xavi · São João de Meriti, RJ
5/1/2009 · 215 · 12
 

Todas as conversas e análises feitas nos botecos sujos pelo Brasil afora indicavam que 2008 seria lembrado como um ano meio morto para o Rap. O tão aguardado disco novo dos Racionais MC´s não saiu, as festas e shows foram cada vez mais miados e alguns patrocinadores que ajudavam a bancar eventos repensaram suas estratégias de marketing – deixando o Hip-hop de fora da brincadeira.

A primeira vista se imaginou que a cena vivia um período de paralisia, porém, com toda aquela típica reflexão de fim de ano, percebe-se que 2008 rendeu bons momentos. De fato os medalhões não movimentaram muito a cena, mas isso foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. A ausência dos pesos-pesados abriu espaço pra uma rapaziada que não é assim tão nova, mas que há tempos merecia o devido destaque.

Parte da apreensão se deu por conta da lentidão de como as coisas acontecem por aqui. Em 2008 a engrenagem do Rap brasileiro só começou a rodar no meio do ano. O impulso inicial foi dado com o lançamento da mix-tape "Poesia Marginal", delito cometido pelo frenético MC Funkeiro. Como o nome bem indica, Funkeiro realiza uma harmoniosa junção do Funk Carioca com Rap. A mix-tape, que já teve a tiragem inicial esgotada, foi o ponto alto da cena carioca nesta temporada.

São Paulo, a capital latino americana do Hip-hop, não poderia ficar pra trás. 2008 foi o ano que dois veteranos lançarem seus primeiros trabalhos solos: o primeiro deles foi Kamau. O rapaz é dono de uma "ficha criminal" extensa, em meados dos anos 90 colaborou com a histórica Academia Brasileira de Rima, mais a frente foi sócio fundador do grupo Conseqüência (pelo qual lançou o antológico EP “Prólogo”, um dos primeiros discos de Rap independente) e mais recentemente capitaneou o grupo Simples.

"Non ducor, duco" (Não sou conduzido, conduzo), o lema da cidade de Sampa caiu como título ideal para o disco produzido no espírito 100% independente (o álbum foi lançado pelo selo Plano Áudio, tocado pelo próprio Kamau). A aventura de encarar carreira solo é o tema central que recheia quase todo o disco. Kamau seguiu solo, mas não solitário. A cada faixa o MC contou com a ajuda de parceiros como Parteum e Emicida para superar os desafios e cometer um disco redondinho. Sem muitas firulas e inovações, mas com rimas acima da média e cada coisa no seu lugar.

O segundo veterano a apostar na carreira solo foi Sombra. O MC ficou nacionalmente conhecido por participar da formação original do SNJ (Somos Nós a Justiça), grupo que no final dos anos 90 fez barulho com a proposta de um Hip-hop de cunho "positivo". Depois de alguns anos fora do SNJ, mas sempre na ativa, Sombra finalmente lançou seu aguardado disco solo. "Sem sombra de dúvidas" traz de volta o vocal inconfundível de Sombra, sabe quando você ouve uma voz e automaticamente reconhece quem está cantando? Pois é, Sombra conquistou esse status no Rap, meio onde a repetição infelizmente ainda predomina. Além dos temas convencionais (a atuação da polícia em “Abordagem de rotina”, por exemplo) o versátil MC pisa fundo na ficção em canções como “Sombra e o encantador de ratos”, referência ao conto “Flautista de Hamelin”.

Aos 45 do segundo tempo os também paulistanos do Pentágono conseguiram finalmente lançar seu aguardado segundo álbum. “Natural” ficou quase um ano na geladeira devido a confusões com o selo que lançaria o disco. Cansados da enrolação e da falta de profissionalismo, os caras do grupo se organizaram e conseguiram fazer que “Natural” chegasse as lojas dia 20 de dezembro. O grande mérito do disco é trazer para o Rap brasileiro uma nova roupagem, que combina letras interessantes com sonoridades prontas para levantar qualquer pista de dança. Para isso os 5 MC´s (Apolo, Massao, Dodiman, M.sário e Rael da Rima) devidamente acompanhados do talentoso DJ Kiko, usaram e abusaram de influências da música jamaicana. O Ragga e o Dancehall permeiam todo o disco (com direito a samplers de figuras como Jackie Mittoo) em produções que contam com arranjos instrumentais riquíssimos, com destaque para as linhas de baixo e os sintetizadores típicos da música da Ilha.

“Natural” coloca o Pentágono definitivamente entre os grandes, prova disso, além do disco, é o impacto causado pelas apresentações ao vivo. O show desses malandros é preciso sem soar fake e energético sem soar forçado. É uma satisfação ouvir um grupo de Rap que caminha bonito entre a opção de narrar histórias sangrentas ou simplesmente falar banalidades. Pentágono é hoje o que se tem de melhor em Rap pra balançar o quadril e as idéias. Não deixe de conferir o show caso o grupo passe por sua cidade!

Além destes quatro lançamentos quentes, vale ainda citar: o disco de estréia do rapper baiano Daganja (“Entre versos e prosas”) um empreitada do selo Positivoz records; o fenômeno Emicida e o sucesso do single "Triunfo"; os 5 anos da rádio Boomshot; o sucesso de público do Indie Hiphop (foram 5 mil pessoas em dois dias de evento); e o lançamento da mix-tape Rotação 33 e 1/3 (produzida por KL Jay, DJ do Racionais MC´s).

Para 2009 já podemos aguardar o disco de estréia do MC Marechal, o segundo disco do BNegão e os Seletores de Freqüência e um EP solo de Lurdez da Luz (MC do grupo Mamelo Sound System). O Rap agoniza, mas não morre. Segue cada vez mais na cadência da independência, buscando novas formas de entender um mundo que atropela quem cochila.

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graça grauna
 

...vida longa para o rap! bjos.

graça grauna · Recife, PE 5/1/2009 13:27
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Pedro Monteiro
 

É isso ai, João, uma forma de comunicação e expressão tão identficada com o povão, jamais poderá morrer.
É bola pra frente...!
Abraços

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 6/1/2009 13:57
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joao xavi
 

pois é pedro, acho que a grande questão para o rap hoje é que o povão não se identifica mais com ele...
no rio o rap nunca foi lá muito popular, mas andei recentemente por são paulo (centro e periferia) e tomei um susto com a falta de interesse pelo rap.
nas conversas que tive com pessoas do hiphop, a maioria culpou a ascensão do funk carioca (o saco de pancadas favorito das periferias) nas favelas como causa dessa queda de popularidade do rap.
Eu acho que a coisa vai mais pela desilusão com o próprio rap, um pouco dessa sensação pode ser entendida nessa entrevista com o grupo costa a costa: http://tocadiscopublico.blogspot.com/2007/08/costa-costa-90-do-rap-nacional-perca-de.html
l

joao xavi · São João de Meriti, RJ 6/1/2009 15:28
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joao xavi
 

um trecho importante da entrevista, é uma fala do don l, mc do costa a costa:
"Não tem mais dinheiro no Rap, xapa! Porque a rua não acredita mais nas suas mentiras. Não dança mais o seu som mal produzido, as suas rimas meia boca, sem swing, sem sinceridade. Ninguém agüenta mais a apologia da derrota."

na entrevista o costa a costa divide o rap nacional em novo e velho (no sentido de proposta estética, não de tempo de atuação no mercado).

essa galera que eu falei na matéria se difere 100% desse "rap nacional velho", é a equipe de reconstrução. que está tentando abrir caminhos pra uma outra história dentro do hiphop.

joao xavi · São João de Meriti, RJ 6/1/2009 15:42
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Andre Pessego
 

Voce tem razão, o que acontece com as manifestações tão enraizadas é de sofrerem alterações e sofrerem alterações com o tempo parece outra, mas é por ai.
abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 6/1/2009 17:38
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Ivette G.M.
 

Não sou versada neste estilo de música, mas torço por elas permanecerem, pois são manifestações culturais e raciais de extrema importância na sociedade atual.
Muito bom o artigo e aprendi um pouco mais hoje.
Paravéns e votado. Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 7/1/2009 12:07
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joao xavi
 

valeu, ivette!
eu acredito que o rap vai continuar acontecendo independente da estruturação de um mercado porque as motivações para quem faz rap vão muito além da lógica do mercado musical (se é que ainda existe alguma lógica, ou algum mercado).
essa falta também tem um lado positivo (sempre há de ter!): dá uma liberdade bacana para que as pessoas possam continuar se expressando de forma livre e criativa, o que ainda falta um pouco pro nosso rap bombar cada vez mais forte.

joao xavi · São João de Meriti, RJ 7/1/2009 12:34
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azuirfilho
 


joao xavi · São João de Meriti (RJ)
O Rap agoniza, mas não morre...

Um trabalho de fólego e profundidade, verdadeira referéncia.Uma leitura com muito conteudo dando uma visáo do Universo da noss amúsica e do Povo Artista insurgindo com sua criacáo poderosa e reconhecida por qualidade e talento.
Parabéns pelo Trabalho táo elevado que orgulha a toda gente e a toda nossa terra táo amada.
Abracáo Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 7/1/2009 15:56
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igor barradas
 

Valeu XAVI.
O Rap já esta inserido em todos os gêneros. já se embrenhou. E o partido alto? e a rima da Folia de Reis? o Repente? Ta tudo ai, se transformando, se misturando, mudando de nome, de vestuário, de classificações. Som Bom é que não falta.
é noise!

igor barradas · Duque de Caxias, RJ 7/1/2009 19:12
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blequimobiu
 

Sumesmo Xavi, 1 pelo belo texto, 2 pela lembrança! Grande Abs!

blequimobiu · Salvador, BA 26/1/2009 19:55
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Don L.
 

tem uma rapaziada nova muito boa chegando...

confiram ae ta disponível aqui no overmundo o meu single com Dj Hum, Não Para:
http://www.overmundo.com.br/banco/don-l-dj-hum-nao-para

Don L. · Fortaleza, CE 11/8/2009 01:10
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Rodrigo Siqueira O.
 

Nunca vai morrer, faz parte da cultura! by Ser Universitário

Rodrigo Siqueira O. · São Paulo, SP 9/5/2011 14:14
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.mc funkeiro, salvou o ano do rap carioca. zoom
.mc funkeiro, salvou o ano do rap carioca.
.capa de zoom
.capa de "non ducor duco" (não sou conduzido, conduzo) pedrada lançada por kamau
.sombra e sua caneca de chá. zoom
.sombra e sua caneca de chá.
.a capa de zoom
.a capa de "natural", discão lançado no finalzinho do ano pelo pentágono.

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