O Rei Não Está Nu

Divulgação
Artista na Bienal de Artes de São Paulo/08
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bacamarte · Santos, SP
1/12/2008 · 214 · 22
 

Na Bienal de Artes de São Paulo, um homem caminha nu entre os estandes. Pelo tempo que durar o evento, esse artista vai viver dentro do pavilhão do evento, sobrevivendo com base na ajuda financeira dos visitantes. Em uma lista de discussão de que participo, fizeram a pergunta comum em relação à boa parte da produção arte contemporânea: isso é arte? Considere. Um homem nu caminhando entre os estandes da Bienal de São Paulo pode ser arte? Ou está muito longe do que é a arte?

Qualquer que seja a sua resposta, ela parte da idéia que você tem do que deva ser a arte. Se acreditar que para que se faça arte é necessária extrema elaboração técnica, vai afirmar com veemência que o homem nu não passa de um embuste, mas ou menos como Monteiro Lobato disse que Anita Malfatti ou era paranóica ou era mistificadora. Se acredita que a arte precisa de criações absolutamente originais e não passíveis de serem repetidas por outra pessoa — como se o artista fosse um atleta que produz uma marca, um recorde — também vai dizer o mesmo. Na maioria das vezes, a única sustentação para essa ‘idéia inicial’ é a vontade do espectador da obra em questão. “Eu quero que arte seja isso, então arte tem de ser isso”.

“Não é a só a minha vontade”, diz o leitor, se desacomodando na cadeira. É mesmo? Se alguém defende, por exemplo: é assim que a arte sempre foi feita antes, por isso é dessa forma que deve ser feita — essa pessoa, como nas vezes acima citadas, está defendendo sua própria vontade, unicamente seu próprio e exclusivo gosto, e não o que seja a arte. A arte sempre foi feita assim antes? Toda a arte ou só a que um grupo — com seu gosto exclusivo a proteger — resolveu divulgar? E, mesmo que tenha sido feita assim antes, isso significa que toda arte deva ser feita assim posteriormente? Assim ainda para outra enorme quantidade de exemplos, tão bons em si quanto para o seu oposto: a arte deve ser simples, a arte deve ser complexa; a arte deve ser sincera, a arte deve divertir; a arte deve dizer alguma coisa, a arte deve apenas causar emoção; etc.

Cada um desses critérios não se justifica como norteador de toda arte e é perfeitamente aceitável como guia de certo tipo de arte. Se a arte for simples, será leve, agradará sem esforço; se for complexa, pode causar efeitos mais duradouros, poderá mudar aspectos da personalidade ou pensamento do autor e exigirá uma série de referências anteriores, o que agrada uma espécie de público. Se o espectador der valor à sinceridade, vai relevar erros e se focar na essência da mensagem; se der valor à diversão, exige que funcione de forma linear, rápida e prática. Se crê que a arte deva dizer algo, não vai suportar clichês ou superficialidades; se quiser emoções, a profundidade pode aliás dificultar o efeito. E é tudo válido e todos os critérios têm o mesmo valor. Portanto, reconsidere: qual a base, o que sustenta sua opinião sobre o artista nu da Bienal?

Posso encaixar essa perfomance dentro do grupo das que dizem alguma coisa, a partir de hipóteses sobre quais possam ser os objetivos do artista. Pode haver um significado político/social: o público da Bienal está financiando a vida de uma pessoa durante dias e dias, mas não retiraria nenhum trocado do bolso para ajudar, digamos, um mendigo. Ou ajudaria? Pode haver uma representação da própria condição do artista — o músico Bob Dylan fez o mesmo em versos: “you walk into the room with your pencil in your hand / You see somebody naked and you say: ‘Who is that man?’”. A letra segue aludindo ao que seria uma desumanização do artista pelo público. O filme I’m Not There fez uma boa representação dessa idéia de exploração, que foi discutida neste blog e é só uma possibilidade das tantas: qual á o questionamento: o artista vende sua privacidade? ou vende a si mesmo em situação inusitada? Ou: as obras não importam, o que importa é que consiga sustentar o artista?

Hipótese por hipótese, o fato de que um homem resolveu andar nu pelos estandes da Bienal consegue ser potencialmente rico em questionamentos, um gerador de discussão. Outra importância desse tipo de arte conceitual: ele é imaterial. Depois de feito, existe sem ser executado e é acessível até por quem nem chegou perto dele. O texto que você está lendo é exemplo disso. É o que Yoko Ono afirmou à Folha: a arte conceitual tem a qualidade de poder ser digerida imaterialmente. Apenas com a idéia da perfomance foi possível falar de tudo isso, sem que eu ou você tivéssemos visto nem uma foto daquele homem. Fale sobre a Monaliza sem tê-la visto, leitor. Faça considerações complexas a respeito de qualquer livro sem ter passado os olhos nele.

Concluímos, então? É arte esse homem pedinte indecente. Resta saber: é arte boa ou arte ruim? Na minha opinião, é boa arte.
---
publicado originalmente em: http://obacamarte.blogspot.com

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comentrios feed

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Helena Aragão
 

Sei que teu texto reflete sobre outra questão, mas não pude deixar de lembrar da polêmica gerada pelo manifesto do Pedro Cardoso contra a nudez gratuita no cinema. Porque afinal de contas também é arte e também é discussão do propósito daquela nudez dentro da arte. Não vi a "performance", mas acho que só o fato de gerar discussão sobre os limites da arte já dá ao homem nu da Bienal uma razão a existir...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 28/11/2008 12:28
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Sergio Rosa
 

Será que em duas semanas ele morreria de fome?

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 30/11/2008 11:32
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Andre Pessego
 

Arte no cinema, no teatro, faz parte de um contexto. Agora no caso em questão sou de opinião de que se trata de mais um daqueles casos, muito comum no Brasil, de pessoas da alta "nobreza" (nobreza como sendo os que vivem de favor do estado, ou às custas do estado) e que não tendo valor algum se serve exatamente deste favor do estado. Porque um pedreiro
iria para a cadeia, um desempregdo ídem, no mínimo "Atentado Violento ao Pudor".
O Estado cria da nobreza, cria a nobreza.
acho assim
Andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 30/11/2008 18:26
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Andre Pessego
 

Mas estou votando no teu texto. A colocação é boa.

Andre Pessego · São Paulo, SP 30/11/2008 18:27
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rosa melo
 

hua hua hua
Toda nudez será perdoada!

"Quando o português chegou
debaixo de uma bruta chuva
vestiu o índio
fosse uma manhã de sol
o índio tinha vestido o português! " (Oswald de Andrade)

Fazia chuva ou fazia sol na Bienal de Artes de São Paulo?
Brincadeira! Agora falando sério, não dá pra emitir juízo de valor.
Mas certamente voto na edição desse post.

Abraço!

rosa melo · Pio IX, PI 30/11/2008 22:03
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graça grauna
 

graça grauna · Recife, PE 1/12/2008 09:20
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heraldo hb /.
 

votado.

todo castigo será desnudado.

heraldo hb /. · Duque de Caxias, RJ 1/12/2008 15:01
2 pessoas acharam til · sua opinio: subir
Paulo Esdras
 

Se é arte ou não depende da visão de cada um. Votado!

Paulo Esdras · Brumado, BA 1/12/2008 17:39
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Maringá
 

Eu sei que você nem precisa mais de votos, mas eu resolvi dar o meu pelo excelente texto que você escreveu! Bastante esclarecedor.
Grande abraço.

Maringá · Rio de Janeiro, RJ 1/12/2008 22:42
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Jorge Adeodato
 

Acho que a pergunta ao final é que é a chave: boa ou má arte? Para mim é má arte, mas em todo caso já é algo -- o que, em tempos de happenings, flash mobs, performance do vazio do pavilhão, perfomance dos pichadores do vazio do pavilhão, rezemos para que esse algo seja de alguma relevância.

Como a Helena mencionou, "gerar discussão" é um dos critérios que foi tomado para medir valor estético hoje em dia. Mas como sou, ao final das contas, um retrógrado reaça, acho que deveríamos ir com cuidado nesse terreno. James Joyce, muito sabiamente, afirma em seu Retrato de um Artista quando Jovem que "Arte é a criação do belo..."

E, visionário, já põe o porém da (pós?)modernidade "...o que o belo é, aí já é outra história."

Jorge Adeodato · Porto Alegre, RS 2/12/2008 08:09
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bacamarte
 

Jorge, seu comentário é um retrocesso à metade do texto. Tanto a opinião de que arte deve gerar discussão quanto a de que arte deve criar o belo são o que são, apenas opiniões, agradam uns e não outros. Você acabaria exigindo de um exemplo de arte que nunca quis ser belo ou criar beleza que o fizesse — e já que ele não se adequa a esse requisito, será ruim.
---
Gerar discussão, de qualquer forma, não é um critério que tem sido validado hoje em dia. Vide Erasmo de Roterdam, Aristofánes, Satiricon, etc...

bacamarte · Santos, SP 2/12/2008 09:51
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Gonçalo
 

A sensação que provoca pela falta de ornatos já lhes garante a condição de arte e, à medida mesma que quebra convenções culturais, se insurge contra os valores e desavergonhadamente se expõe ao público de heterogênia percepção, o artista nu está apenas para alguns olhares, noutros, como no conto de Andersen, a nudez acha-se latente e só vem à tona instigada por alguém: olha, ele está nu! Adorei a idéia, afinal estamos todos nus, diante dos "aparthaites" sociais, apesar das indumentárias que nos cobrem os pêlos. Arte? To be, or not to be: that is the question: estamos cansados (de certo tipo de nudez), então, a confundimos com esta nudez bienalarte, não achas?

Gonçalo · São João do Piauí, PI 2/12/2008 11:27
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Juliaura
 

Digamos que produz estranhamento o braço pintado de preto.
Estivesse ele em minha coleira e eu o passeasse na Rua da Praia, seria presa, eu por arteira, ele por aquele tal de atentado violento ao pundonor.
Senhores, Senhoras, moços, senhoritas e até crianças! passeiam cachorros peladões que defecam e urinam na mesma Rua da Praia e nem são arteiras, nem são vestidos eles.
E ninguém vai preso.
A pergunta "se é arte" já põe a arte em dúvida.
Estranha o próprio estranhamento e a pessoa que estranharia, se visse.
Como não vi, discuto a tese, à distância, e com o objeto da questão - as partes pudendas - seccionadas na foto.
Ora, torço por nus, não por torsos nus.
Se é arte boa, ou se é arte má, depende do que pense cada um do que queira pensar, se quiser pensar.
De olho fechado, eu já descrevo a Mona Lisa, porque a vi.
Esse aí, nem pinto, nem pintura.
Penso que, além de imaterial, também será invisível... ou, filmada, fotografada, pintada, descrita, passará a ser banalizada como as latinhas de sopa aquelas, que voltaram a ser tão somente latinhas de sopa.
Na beira-mar, em algumas prainhas que conheço, enquanto os urubus disputam os restos eviscerados dos peixes há um belíssimo filme de horror... mas a maré sobe e lava o sangue todo.
Arte efêmera.
Ars longa vita brevis parece-me mais, mais, mais... bem mais...

Juliaura · Porto Alegre, RS 2/12/2008 17:22
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Jorge Adeodato
 

bem: é só uma opinião assumidamente retrógrada. não tô tomando como verdade para além da minha verdade, tampouco estou desmerecendo a intervenção da nudez do moço tatuado, bacamarte. usando os termos que tu mesmo sugeriu, ela é apenas o que é: minha opinião. agora, acho sim que o valor astronômico que o critério polemismo-discussão tomou com a modernidade-dada (de onde provém essencialmente o material artístico exposto nas bienais) não tem precedentes e vai muito além do critério que a sociedade de petrônio e aristófanes tomavam.

mas isso, se tu quiser, a gente pode discutir longamente. assim como a interpretação do Todd Haynes para ballad of a thin man : )

---

acho que a juliaura falou muito bem no comentário dela, "depende do que cada pense cada um do que queira pensar, se quiser pensar". particularmente, prefiro a arte dos pixadores do pavilhão branco -- aquela que brota do faço-porque-tenho-que e nem por isso é menos questionadora, mesmo não tendo sido essa a questão/intenção primeira.

talvez para o hoje seja mais válido sair do museu com a pulga atrás da orelha do que arrebatado com uma obra. ao menos leva-se um souvenir pra casa - a pulga. dúvida é mais palpável do que a arrebatação pois a apatia não nos deixa mais arrebatar. e, pra mim, isso é sinal dos tempos.

Jorge Adeodato · Porto Alegre, RS 3/12/2008 02:22
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bacamarte
 

Gente, eu geralmente pareço antipático quando fico discutindo idéias, mas nem sou, então não suponham que fui ranzinza abaixo porque não quis ser.
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Essa história de que se andassemos pelados na praia seríamos presos por atentado ao pudor não passa de uma obviedade e não chega a ser um argumento. O que isso quer dizer? O que puder ser catalogado como crime não é arte? Ou: o que puder ser catalogado como crime previsto no código penal é arte menor? Não há nenhuma justificativa sequer pra citar isso.
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Juliaura, o seu comentário é um reação prevista pelo próprio texto, no quinto parágrafo, quando falo dos mendigos. Você diz: "isso acontece nas ruas e ninguém se choca e ninguém faz nada". Pois é. Isso acontece nas ruas e ninguém se choca e ninguém faz nada. Aí está. Arte.
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Você pode descrever a Monalisa, mas como descrição a Monalisa não vale nada. Como descreve? "Uma mulher com um sorriso indecifrável". O que isso significa? Isso não diz nada. É a contemplação do sorriso em particular e a observação do modo como foi pintada em contraposição às outras pinturas que torna a Monalisa particular. Sem a imagem (você disse: a viu), ela não é nada. No caso das intervenções, basta a idéia.
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A pergunta "se é arte" jamais pôs a arte em dúvida. A pergunta se é arte incomodou totalitários e ampliou a arte para o sem limites.
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Quanto às latas de sopa que você citou, qual é o critério? Posso esculpir cavalos em mármore e será arte, posso pintar panelas e galinhas mortas à óleo e será arte, posso fotografar uma mulher numa praia sob o luar e será arte — são exemplos de arte muito considerada — mas latas de sopa, não? Poderíamos inclusive fazer uma lista de materiais a não ser representados pela arte.
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Jorge, você disse três coisas interessantes. A arte dos pixadores, essa intervenção, esse ataque, tem sido corrente; na Belas Artes aconteceu um, como trabalho de conclusão de curso recentemente. Vou ver se te acho um link. Outra coisa, isso de a apatia não deixar lugar para o arrebatamento, para ser bem verdade — mas também me parece que é a arte antiga, feita para uma época antiga, que não arrebata. Um pato de borracha gigante posto num Sesc atraiu pessoas, gerou histórias, causou emoções, e por que? Porque é um símbolo corrente e simpático dos nossos dias. E eu de fato gostaria de falar mais sobre o Ballad of a Thin Man. O que mais você tem a dizer?

bacamarte · Santos, SP 3/12/2008 09:21
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Juliaura
 

Falei que não vi o pinto do sujeito que descreves como artista que é arte que deambula.
Falei que vi o sorriso de Mona Lisa e dele posso falar.
Falaste tu do sorisso de Mona Lisa.
Falei que desfilar com um cão, cachorro sem roupa, na rua, não é atentado ao pudor, como não deveria ser outro animal andar pelado na rua.
Nem precisa ser na praia.
Quando pessoas de outras eras andavam sem roupas em bandos era arte de criação coletiva?
Por que não se diz que é apenas um homem sem roupa em meio a pessoas vestidas?
A simples nudez é tão comum que não me parece arte, embora possa andar em espaço de arte.
Agora, se pinto nu, falo que é... pode ser.
Eu não pinto nem vi o pinto do moço artista.
Do sorriso de Mona Lisa sei que é um sorriso, embora não pareça, sei que vem sendo perene até aqui.
As latas de sopas de Andy W. retornaram para as prateleiras e, no máximo, são sorvidos seus conteúdos em pratos decorados com a imagem de Mona Lisa, foi o que quis dizer sobre efêmero.
O que gosto em arte é fruir, ter prazer.
Esse sujeito deambulará para sempre?
Sei, sei, sei Bacamarte, isso também já deve estar previsto nos teus escritos feito de tal modo a prever qualquer situação e nem isso, embora artístico, é original, porque tudo se transforma, embora nada se crie... ou não.
Eu não te penso ranzinza apenas porque tens uma opinião que, eventualmente, nessa circunstância, assim à distância e por escrito, parece distinta da que eu tenho. Apenas parece.
Eu iniciei o comentário dizendo que sou arteira, recordas?

Juliaura · Porto Alegre, RS 3/12/2008 13:38
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bacamarte
 

Juliaura, acho que você sabe que o Andy Warhol nunca fez latas de sopa, ele pintou uma lata de sopa; e pintou também celebridades em quadros feitos aos montes, que eram comprados aos montes, o que diz bastante sobre a arte de qualquer época. E acho que o uso de cores dele é bonito, anyway. Você pode dizer que é um ato artístico datado, que fez sentido naquela época e que hoje seria uma obra bobinha, e eu poderia aceitar isso. Mas, vejamos: as pessoas pintavam o que lhes causava a sensação de beleza, pessoas da família, imagens de si mesmos, representações de santos e deuses — essa era a sociedade antiga. O que dizer sobre uma sociedade — e essa é a idéia que o simples fato de ter existido Warhol denuncia — o que dizer sobre uma sociedade em que uma lata de sopa é o que representamos como arte (digamos, como objetivo, como algo a contemplar) e que consumimos celebridades em série?
---
Aaah, sobre o homem nu, nós discordamos porque você está falando de uma coisa e eu de outra. A obra de arte do homem não foi ficar pelado em público. A obra foi se colocar em uma exposição de artes, se despir e passar a sobreviver apenas com a colaboração das pessoas. Porque foi feita em uma exposição de artes, pensamos isso como arte e não como ato político; porque se dispõe a viver só com o que lhe dão, diz muito sobre a sociedade.
---
Pessoas: a matéria da Yoko Ono que eu cito no texto está aqui: http://www.estadao.com.br/arteelazer/not_art77081,0.htm. Na verdade a entrevista foi dada ao Estado.

bacamarte · Santos, SP 3/12/2008 23:02
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Juliaura
 

Bacamarte,
Eu não falei que Andy fabricou latas de sopa.
Fiquemos no texto, por gentileza, e por amor à polêmica.
Não precisavas tu dizer-me que não.
Subestimas a possibilidade de diálogo apenas porque me penso arteira e falo que não vi o pinto.
Eu falei que as latas continuaram nas prateleiras.
O consumismo exacerbou-se, etc.
Guernica é datado, também.
O horror à chacina, ao morticínio está lá.
Desde há muito e ainda hoje, o gênio de Andy W., que não se contesta, apenas se circunstancia, é doce de batata-doce e ilustra camisetas vendidas nas mesmas prateleiras das latas de sopa.
Dizes que não é o nu que está no espaço de arte, mas o homem (para ti, "o rei").
Por que, então, exatamente o homem aparece nu no espaço de arte?
O que está em discussão, só por isso está em discussão, é que o homem fica nu de quando em vez, não a sobrevivência dele.
O objetivo que descreves está em contra as evidências.
O estranhamento não é porque é homem.
Não é poruqe pede.
Não é porque está em espaço de arte.
Vestido, passaremos, inclusive tu e eu, por ele, sem sequer notá-lo, na rua ou no espaço de arte.
O apelo, de que falo, é o nu.
E nu, repito, não é novidade, nem arte, é apenas nu.
Sem dúvidas, aprecio muito o que fez John Lennon por amor.

Juliaura · Porto Alegre, RS 4/12/2008 09:33
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bacamarte
 

Juliaura, você é meio doida :)
---
Menina, se eu subestimasse a possibilidade do diálogo, eu não estaria dialogando. E você diz que "o objetivo que descreves está contra as evidências" — oras, mas fora o fato de que é exatamente isso o que ele está fazendo desde o primeiro dia (sobreviver apenas com as coisas que dão a ele), é o método expresso pelo artista desde antes da Bienal.
Então, sei lá, você está insistindo que é só o nu porque quer.
---
Quanto a nu ser só nu, é verdade; mas você há de concordar que um modo específico de mostrar o nu que será arte, da mesma forma que um modo vulgar, como a pornografia, não é.

bacamarte · Santos, SP 4/12/2008 10:27
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Juliaura
 

Vamos por partes, Bacamarte;
Em um tempo outro, em Porto Alegre, na sala do memorial do mercado público restaurado, houve uma instalação com círculos de sal grosso deitados ao chão em que a artista convidava os passantes a, tirando os calçados, passear sobre o sal.
Havia o convite e a suposição de cada qual sobre o que faz o sal.
Sucesso de público por mais de duas semanas...
As pessoas energizavam, des_ernegizavam, rezavam, suspiravam, sentiam, brilhavam, riam sozinhas, falavam sozianhas e respondiam para elas mesmas (feito essas que andam na rua ao telefone), choravam...
As pessoas faziam arte?
Eu não insisto em nu.
Eu falo que não pinto.
Não é idéia fixa dizer que para uma roda girar precisa primeiro mover-se da inércia... no entanto, uma roda é uma roda desde que foi inventada.
E gira, desde que vença a inércia.
Para ter atenção sobre o que faz, o artista desnuda-se em algum tempo, o que reclama a atenção para a nudez, penso que não para a circunstância de sobrevivente, é o que tento fazer ver.
A partir da nudez, a roda gira, o sal energiza...
Tens razão, no entanto, desde muito antes desse nosso diálogo aqui: eu sou mais que meio doida, quase doida-e-meia, se coubesse no corpo que me carrega, embora não esteja em questão o que sou, mas o que deixo escrito aqui.

Juliaura · Porto Alegre, RS 4/12/2008 10:41
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bacamarte
 

Essa instalação do sal me pareceu fraca, pela descrição. Mas não seria arte o que as pessoas faziam em relação à obra; mas a instalação é de fato arte já que gera emoção e tantas reações diferentes, além de se propor a ser vista dessa forma. Quanto à nudez, ela chamou atenção tanto quanto o fato de sobrevivência: as pessoas deram roupas, presentes, dinheiro, comida e até um ingresso pro show do Tom Zé.
---
Oxe, eu te acho doida pelo que você deixa escrito mesmo. Essas frases de efeito e o estilo de frase curta. Acho que você deve fazer poesia e deve ler Lourenço Mutarelli :)

bacamarte · Santos, SP 4/12/2008 11:15
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Juliaura
 

Nada Bacamarte, visita o meu perfil que tem uns versinhos lá.
Não li ainda Mutarelli.
Vai-se saber porque as pessoas doam o que doam, inclusive suas mais caras lembranças, como um exclusivo, pessoal e intransferível objeto de acesso ao prazer e à arte que deve ser para quem o tinha o ingresso usado de um show antigo de Tom Zé.
A artista da instalção do sal, perdoe-me ela, não lhe recordo o nome, também não sei se propôs considerar arte a manifestação dos andarilhos.
Alguns andarilhos, recordo, se entenderam integrantes da instalação e, portanto, parte da arte instalada.
Vistos desde fora, eram isso.
Forte ou fraca é coisa de olhar, ponto de vista, lente, iluminação, sombra, plano, etc. e quantum et tantum.
Damos uma paradinha por aqui, que já nos entendemos, penso.
E nos vemos e nos lemos em capítulos próximos.
Té!
Küse.

Juliaura · Porto Alegre, RS 4/12/2008 11:24
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