O repórter do Brasil

Rafael Urban
José Hamilton Ribeiro: encarnação do jornalismo por excelência
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Rafael Urban · Curitiba, PR
4/6/2007 · 332 · 16
 

José Hamilton Ribeiro, o mais premiado jornalista do País: 74 anos de idade e 54 de profissão

“Eu sonhava em ser jornalista de guerra”. Logo que saiu da faculdade, o jornalista e cineasta Eloy Pires Ferreira desistiu do sonho: “Era coisa de moleque. Perigoso demais”. Passou a trabalhar com jornalismo agrícola, num programa aos moldes do Globo Rural. Admirava o repórter José Hamilton Ribeiro, principal nome do matutino dominical da Globo. Anos depois, descobriu que Ribeiro tinha sido repórter de guerra: mais um motivo para a admiração. Na semana passada, Eloy foi acompanhar o bate-papo com o ídolo nas Livrarias Curitiba do Shopping Estação.

Depois de quarenta minutos de espera, Ribeiro chegou. Sorridente, seu rosto não esconde as marcas da passagem do tempo: 74 anos de idade, 54 de jornalismo. Este deixou as mais profundas. Na sua grande reportagem, ou na sua maior, pois as grandes foram tantas, e sete delas receberam a maior honraria do jornalismo nacional, o Prêmio Esso, esteve no Vietnã, em março de 1968.

Durante a Guerra, e ao lado do fotógrafo Henry, correu em direção a explosão de uma mina para acompanhar os feridos. Poucos minutos depois, fragmentos de outra explosão acertariam a perna direita de Ribeiro. Na revista Realidade, sob o título “Nosso repórter viu a guerra de perto”, escreveu: “Ouço uma explosão fantástica. É um tuimmm interminável que atravessa os ouvidos de um para o outro lado, dá-me a sensação de grandiosidade. Sinto-me no ar, voando, mas, ainda assim, com uma certa tranqüilidade para pensar:
- A guerra é de fato emocionante. Agora entendo como há gente que possa gostar da guerra.” Quatro cirurgias depois, Ribeiro conseguiu retornar ao Brasil.

Desde então, uma perna mecânica o acompanha, o que o levou a responder a pergunta mais estúpida já feita a ele: “Se era difícil ser repórter com uma perna só”. A resposta, da qual se orgulha, sempre faz questão de contar: “É mais difícil do que com duas, mas é mais fácil que com quatro”. Contou a experiência mais uma vez em Curitiba. A jornalista Juliana Vines lembra já ter ouvido a história, também reproduzida em dois momentos no livro “O repórter do Século”, seleção de oito reportagens de Ribeiro. “Ele contou as mesmas experiências em uma palestra que vi no interior do estado. As mesmas e divertidas histórias”. São grandes histórias para jornalistas, alunos e público em geral. Mas seus ensinamentos também são técnicos. A maneira como transforma dados em texto fluído é uma aula àqueles que tem que escrever sobre números. “Quando nasce, o brasileiro só pode esperar viver pouco mais de 50 anos. Se for nordestino, a coisa muda, para pior: quase não chega aos 40. A idade média do brasileiro é de 54 anos – a mesma da Suécia, no século XIX. Só 4,3% da população alcançam os 60 anos”, escreveu em 1968 na reportagem “Do que morre o Brasil”.

José Hamilton Ribeiro chegou há 27 anos no Globo Rural. Seria uma experiência curta, que, a princípio relutou em aceitar. Seria apenas por alguns meses, enquanto o Globo Repórter, programa onde trabalhava, não voltasse ao ar. Apaixonou-se pelo campo e está no Globo Rural desde então. A reportagem do Vietnã é lembrada pelos colegas de profissão como o seu maior trabalho. Aos 74 anos, Ribeiro tem uma opinião diferente: “A melhor reportagem? Com certeza será a próxima, de tantas que ainda farei. Sempre espero que a próxima saia melhor”, responde o senhor gentil que é a encarnação do jornalismo por excelência.

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Andre Pessego
 

Rafael, feliz lembrança, feliz iniciativa. É pena que personalidades no Brasil é preciso comer, ter comido, ter se empanturrado dos cofres públicos. ... E nessa filosofia de princípios homens fiquem esquecidos, um abraço andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 3/6/2007 22:19
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Ilhandarilha
 

O José Hamilton é uma dessas figuras que me acompanham desde criança. Sempre que o vejo numa das reportagens do Globo Rural tenho essa impressão familiar de um tio querido, contador de "causos" que a gente gosta de ouvir falar. Acho que esse jeito dele, tão brasileiro, tão familiar e a sua incontestável eficiência como repórter (suas matérias são instigantes, mesmo para quem não tem nenhuma afinidade com o mundo rural) é que o tornam uma personalidade brasileira. Ou, como vc bem disse no título da matéria, o repórter do Brasil.
Muito bom!

Ilhandarilha · Vitória, ES 4/6/2007 09:38
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Guilherme Mattoso
 

legal, rafael! o ribeiro é fera!

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 4/6/2007 10:03
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Rafael Urban
 

Bacana!
Obrigado pelos comentários.
Se tiverem a oportunidade, leiam algumas de suas matérias no livro "O repórter do século". É impressionante a maneira como ele trabalha com dados.

Rafael Urban · Curitiba, PR 4/6/2007 11:54
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Marcus Assunção
 

Ribeiro....quando criança, quantas manhãs assistindo ao Globo Rural com meu pai...sem saber, sua voz me faz lembrar muito da minha infância.

Marcus Assunção · São João del Rei, MG 4/6/2007 16:29
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Marcelo V.
 

Se a memória não me engana, ele fez uma excelente pesquisa sobre a música caipira paulista do século XX, que, apesar de muito popular, ainda é muito mal documentada (seria ótimo que um livro dos bons sobre o tema fosse lançado por uma editora de expressão).

Marcelo V. · São Paulo, SP 4/6/2007 19:00
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Rafael Urban
 

Isso. Ele é apaixonado pelo que chama de "Música Caipira de qualidade". Ainda não li, mas imagino que o livro que você menciona (“Música Caipira — As 270 Maiores Modas de Todos os Tempos” - editora Globo, 271 pág., R$ 32,00) trate não apenas da música paulista.

Rafael Urban · Curitiba, PR 4/6/2007 22:33
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Joanice Sampaio
 

Legal essa iniciativa de falar sobre um dos grandes jornalistas brasileiros.

Joanice Sampaio · Fortaleza, CE 5/6/2007 10:22
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Daniel Duende
 

Esse cara é grandioso! E acho interessante o comentário que ele faz sobre a guerra. Ouvi de outros veteranos de guerra coisas semelhantes. Sempre faço esta pergunta besta a quem esteve na guerra: "Como é estar na guerra?".

A resposta mais genial que já recebi, e que parece sintetizar todas as outras, veio não de um veterano, mas de um senhor muito bacana que era amigo de um veterano do qual havia recebido esta resposta:
"A guerra é terrível. É o máximo de destruição que você pode pensar. Mas a guerra também te força a funcionar no meu máximo. Cada fibra do seu corpo, cada pensamento, cada ação, tem que ser o melhor. A guerra faz com que você tenha que se tornar seu próprio super homem. Isso é fantástico. É fantástico estar funcionando em seu máximo, e é isso que trago de bom da guerra. O resto, é só destruição. Se hoje aprecio resolver problemas, é pq a guerra me ensinou que os problemas e as dificuldades me levam mais perto de ser o meu próprio super homem. A guerra é ruim, mas o homem é fantástico quando precisa."

Nem tenho palavras pra comentar este pequeno discurso que não lembro literalmente, mas do qual lembro como se fosse ontem cada parte de sua essência...

Um brinde aos Super Homens de si mesmos, e ao Ribeiro.

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 5/6/2007 18:57
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Labes, Marcelo
 

Que matéria feliz, Rafael. Há, sim, que se homenagear tais grandiosidades e reconhecer seus talentos. Abraço.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 5/6/2007 21:47
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ignis liberati
 

Bom trabalho Rafael Urban. O repórter José Hamilton Ribeiro é praticamente conhecido de todos que lindam com a mídia. Esta matéria agora no overmundo completa a obra.

ignis liberati · Porto Velho, RO 5/6/2007 23:04
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João Rafael
 

Bela homenagem!!!Acertou bem!!

João Rafael · Sabará, MG 6/6/2007 07:57
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FILIPE MAMEDE
 

Zé Hamilton é, sem dúvida, um dos maiores. Infelizmente a reportagem sobre o Vietnã não ganhou o prêmio Esso, já que tratava de uma 'pauta' internacional. Acompanho o trabalho dele desde pequeno vendo o Globo Rural. Esse outro lado, descobri depois de entrar na faculdade de Jornalismo. Atualmente seus livros fazem parte da minha singela biblioteca. Os seus textos eram muito bons, uma verdadeira arte em contar histórias.
Um abraço;.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 6/6/2007 08:17
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Vitor Diel
 

Bela reportagem, bela pauta, belas fotos. Mais do mesmo, por favor!

Vitor Diel · Porto Alegre, RS 6/6/2007 14:16
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Deni Ferreira
 

a voz dele me traz o cheiro de infância num domingo de manhã

Deni Ferreira · São Salvador do Tocantins, TO 20/8/2007 09:59
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Rafael Urban
 

Caros,
errei.

Em abril de 2007, José Hamilton Ribeiro tinha 72 anos e 52 de profissão, ao contrário do informado no texto (74 e 54).

Peço desculpas.

Uma vez publicada no Overmundo, infelizmente, não é possível alterar a matéria. Os únicos em condição de fazer isso são os usuários que têm um karma muito expressivo.

A matéria atualizada está disponível no meu blog: http://materiaspublicadas.blogspot.com/

Grande abraçO,
Rafael Urban

Rafael Urban · Curitiba, PR 25/8/2007 08:16
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