O samba de um trabalhador exemplar

1
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
25/5/2008 · 226 · 8
 

Este texto foi escrito para o "Jornal Musical", site editado por Tárik de Souza, que encerrou suas atividades no ano passado. Foi publicado em fevereiro de 2007, mas não está mais no ar. Darcy da Mangueira morreu no último dia 19. Posto o texto aqui no Overmundo para ficar disponível na internet como uma última homenagem.

Guia de cego, jardineiro, operário, bombeiro hidráulico. Feirante, camelô. Técnico em segurança no trabalho, restaurador. Motorista de táxi, lotação, ambulância, ou, para ser mais direto, “tudo que é veículo”. Resumindo bastante, essa é a lista de profissões que Darcy Fernandes Monteiro, o Darcy da Mangueira, já realizou. “Fiz de tudo, menos roubar”. Claro, não é o único sambista que teve que se desdobrar em diversas tarefas para cobrir despesas enquanto compunha para sua escola de coração. Mas não deixa de ser irônico que logo esse servidor exemplar tenha feito talvez o que seja o conjunto de versos mais elogiativos à vagabundagem, o “Samba do Trabalhador”:

“Na segunda-feira eu não vou trabalhar

Na terça-feira não vou pra poder descansar

Na quarta preciso me recuperar

Na quinta eu acordo meio-dia, não dá

Na sexta viajo pra veranear

No sábado vou pra mangueira sambar

Domingo é descanso e eu não vou mesmo lá

Mas todo fim de mês chego devagar

Porque é pagamento eu não posso faltar

(...)


Letra e música surgiram inteirinhas numa viagem de ônibus para o interior de São Paulo. Poderia ser considerada a melô de (certos) funcionários públicos. Darcy prefere classificar como “Samba do trabalhador ocioso”. Coisa que ele nunca foi. Em todos os lugares onde trabalhou, em pouco tempo se tornava chefe. “Gosto de me destacar logo, de fazer e acontecer.” No samba não foi muito diferente. Já nasceu no meio de bambas, na Rua 18 de Outubro, que dá acesso ao Morro da Formiga, na Muda, Zona Norte do Rio. Seu pai foi um dos fundadores da escola Unidos da Tijuca, onde o pequeno Darcy viu o primeiro campeonato ser ganho em 1936, aos quatro anos de idade.

Ainda criança, começou a fazer “versinhos, boizinhos com abóbora”, influenciado pelos sambistas que freqüentavam sua casa. Mas foi arrebatado mesmo por um desfile da Mangueira na Praça Onze. Ficou alucinado e pediu para o pai para virar mangueirense. A resposta foi direta: “Cala a boca, você é Unidos da Tijuca”. A ordem não pegou. “Com 9, 10 anos comecei a ir na Verde e Rosa e conhecer a galera.” A aproximação foi ainda maior quando, aos 14 anos, mudou-se para a Favela do Esqueleto (onde hoje fica a Uerj), vizinha da Mangueira, para trabalhar numa fábrica de tecido nas redondezas.

Foi crescendo acostumado à rotina de trabalhar, trabalhar, trabalhar, aprender a tocar violão olhando os mais velhos e compor... para a Unidos da Tijuca! “Eu freqüentava a Mangueira, mas tinha medo de compor para lá. Naquela época a Ala dos Compositores era fogo na roupa, tinha Cartola, Pelado, Padeirinho... Os caras eram bons demais, já tinham fama pra caramba. Eles me consideravam compositor mas eu não me sentia assim. Ficava jogando na retranca. Às vezes até ajudava em uns sambas, mas não queria assinar”. O receio não o afastou da escola. Em 49/50, fundou uma ala de violonistas, a Ala dos Diferentes, que tinha participação de uns 30 instrumentistas. Por ele ficava quieto por ali, mas Nelson Sargento não deixou. “Foi em 1950. Ele veio um dia falando que eu era compositor da escola e que tinha que participar da reunião naquela tarde. Como ele era o presidente da ala, eu não podia recusar”. Ingressou onde mais temia, mas continuou discreto, ajudando nos versos dos outros, até assinar seu primeiro samba-enredo em 1966. O homenageado era Villa-Lobos e ele conquistou de cara um honroso em segundo lugar.

No ano seguinte, veio a consagração. Com Luiz e Batista, compôs “O mundo encantado de Monteiro Lobato”. Deu o campeonato para a escola e foi gravado depois por Eliana Pittman e Elza Soares. Daí, passou a ser chamado de Darcy da Mangueira pela imprensa e não parou mais. No ano seguinte, o vitorioso foi “Samba, festa de um povo” (com Luiz, Batista, Dico e Helio Turco) e em 1969, conquistou o segundo lugar no desfile com “Mercadores e suas tradições” (com Helio Turco e Jurandir).

1969 foi um ano marcante para Darcy. Foi quando se mudou para o Conjunto da Ordem dos Músicos, que ajudou a construir em Inhaúma (e onde mora até hoje). Foi também quando Darcy foi preso por subversão à ditadura. Na época, trabalhava com restauração, ofício que mais lhe dava prazer. “Restaurei algumas igrejas, até em Ouro Preto. Trabalhava com o Doutor Rodrigo de Mello Franco, diretor do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Gostaria de ter algum documento que provasse todos esses restauros que fiz, mas todos voaram, porque se você guardasse tava ferrado”. Não teve jeito: com ou sem documento, ele amargou uma passagem na cadeia. “Fiquei só um dia no xadrez do Ministério da Guerra, mas nunca esqueci.”

Apesar desse episódio, pelo menos em termos de samba aqueles anos estavam sendo muito bons para Darcy. E ele sabe se valorizar. Cantarola “Mercadores” batucando na mesa e diz: “Isso que era samba, né. Antigamente a gente estudava história para fazer a letra. Mas já tinha uma base, porque na escola se você não soubesse história o professor logo mandava virar a cara para a parede. Na segunda-série eu tinha que estudar francês e latim, cantar o Hino Nacional, rezar. Não existia tanta bandidagem na favela porque era outro tipo de educação”.

Os tempos mudaram e o samba também. “Os caras hoje não criam nada. Colocam palavras que já passaram por mil sambas, não há poesia, as melodias são muito iguais.” Começa a bater rápido na mesa, inventa uma melodia e exemplifica: “Aí você ouve ‘Mangueira na Sapucaí!’. Depois vem a Portela e é: ‘Portela na Sapucaí!’, Depois, ‘Salgueiro na Sapucaí!’. Ninguém agüenta!”

Mais do que o samba-enredo, o que Darcy lamenta mesmo é o quase desaparecimento do samba de terreiro das quadras. “Nada contra hip hop, funk. O que mais faz falta nas nossas escolas são os sambas que começavam a festa. As reuniões tinham samba de terreiro até o final de dezembro, só em janeiro começava samba-enredo. Não tinha essa coisa de samba-enredo começar no meio do ano, de 50, 60 sambas-enredo disputando. Cinco são suficientes! Se você cantar 3 sambas bons, que pesam na balança, faz muito mais efeito para o público”.

Um livro, uma ópera e uma candidatura

Depois de assinar três sambas de enredo seguidos no fim da década de 60, Darcy ainda foi responsável por mais dois: em 71 (“Modernos Bandeirantes”, com Helio Turco e Jurandir) e 85 (“Abram alas que eu quero passar”, com a mesma dupla). Chegou a gravar alguns LPs e compactos (como “Darcy da Mangueira – a história do samba”, no fim dos anos 60, e o “pau de sebo” “Roda de Samba n 1”, que reunia diversos artistas). Além disso, tocou no conjunto de Heitor dos Prazeres na Rádio Nacional, fez turnê de quatro meses na Europa e shows por todo o Brasil. Apesar do desânimo com a politicagem que, na sua opinião, invadiu as escolas, desfila todo ano e está sempre presente nas festividades da Velha Guarda e da Ala dos Compositores da Mangueira. “Só não fico no ensaio de sábado, porque a Mangueira está bombando demais, virou moda.”

Hoje vive da aposentadoria, dos poucos trocados de direito autoral e dos cachês de shows que pintam vez em quando (no carnaval, por exemplo, vai cantar no palco da Lapa). Do Samba do Trabalhador, roda que tem feito sucesso no Clube Renascença, no Andaraí, nas tardes de segunda-feira, está distante. “Participei no começo, mas depois pararam de me convidar. Hoje tem CD e DVD gravados e eu nem fiquei sabendo”.

Mas Darcy não desanima. Nas horas vagas, escreve um livro sobre a história do samba (“há muitos por aí, mas não escrito por gente de dentro”), incrementa a ópera (!) que escreveu há anos e sonha ver encenada, vai a shows de colegas. Ano passado, candidatou-se a deputado estadual pelo PSOL, na tentativa de ser um representante da música popular na Assembléia. Não foi dessa vez que entrou, então retomou a rotina. Quando tem tempo livre, vai para a Associação Brasileira de Imprensa, onde é sócio – fez questão de marcar a entrevista por lá - e gosta de passar as tardes lendo jornal e proseando com os amigos.


compartilhe

comentários feed

+ comentar
LAILTON ARAÚJO
 


AMIGA HELENA


A história de qualquer artista merece respeito...

Sendo também um aprendiz de compositor (compositor de verdade é este em referência e outros, que aos poucos partem
para o andar de cima) sei o que passa qualquer criador de uma obra musical. O não reconhecimento artístico é algo imperdoável!

O parágrafo...

"Hoje vive da aposentadoria, dos poucos trocados de direito autoral e dos cachês de shows que pintam vez em quando (no carnaval, por exemplo, vai cantar no palco da Lapa)."

É o retrato da vida da maioria dos artistas brasileiros. Os compositores vivem ao "Deus Dará".

E depois da partida? Sobre o compositor e intérprete "Jamelão"... A mídia não escreveu mais nada.

E assim... Caminha a arte brasileira! Aos trancos e barrancos, ao acaso, na sorte de se viver de "bicos musicais".

A homenagem é justa! Parte de uma jornalista que escreve com o coração...

Continue "republicando" temas como estes.

A memória musical agradece.


Parabéns!


Lailton Araújo

LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 25/5/2008 20:00
sua opinião: subir
Monica Ramalho
 

maravilha reler este belo texto, grande helena! :))

Monica Ramalho · Rio de Janeiro, RJ 26/5/2008 11:09
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Valeu, gente. Pois é, Lailton. Não só nossos músicos, mas todos os profissionais que exercem seus trabalhos com dignidade e acabam desvalorizados. É um dos grandes problemas da sociedade. No caso do Darcy, é com pena que constato que ele morreu provavelmente sem realizar esses planos que conta na matéria. Que ilumine os novos sambistas de onde estiver. Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 26/5/2008 16:55
sua opinião: subir
Spírito Santo
 

Helena,

Texto e homenagem bem bacanas.
Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 26/5/2008 17:18
sua opinião: subir
DJ 440
 

Bacana! Muito bacana lembrar e exaltar esse grande sambista...

DJ 440 · Olinda, PE 1/7/2008 23:22
sua opinião: subir
Nil Freitas
 

Helena Aragão, vc parece bem prestativa, o que é uma virtude digna de uma diva..
Seu texto tem paixão, isto tbm é mais uma das nobres característiocas de quem se apaixona e se envolve do jeito que vc se permite... Suas palavras explicam isto que descrevo aqui, não sou eu que digo como quem desenhando algo não!..
Paixão nem todo mundo tem, mas pela entrega que rola, é o que permite ser uma leiutra leve e gostosa ainda que pareça ser "pesado" o texto (coisa que é dirimido na leitura) pelo tipo de espaço disponível... Parabéns pela forma que foi conduzida a informação trazendo leveza ao texto...

Nil Freitas · Salvador, BA 2/8/2008 20:13
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Oi Nil. Poxa, muito obrigada pelo teu elogio! Que bom saber que o texto saiu leve e agradável. GRande abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 4/8/2008 13:02
sua opinião: subir
Coluna do Domingos
 

Votado

Coluna do Domingos · Aurora, CE 3/10/2008 11:16
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados