Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

O Samba de Véio na terceira margem do rio...

Luís Osete

Na manhã de um domingo cinzento cheguei à margem esquerda do Rio São Francisco tomado de um desejo intenso de conhecer a história de uma das mais antigas e originais manifestações da cultura ribeirinha: O Samba de Véio.

Depois de percorrer 15 quilômetros de asfalto no único transporte regular que circula por ali (as vãs) vislumbrei a terceira margem do rio percorrendo um trecho de dois quilômetros “nessa água que não pára, de longas beiras”, como dizia Guimarães Rosa.

Para chegar até a Ilha do Massangano há o encantamento de enfrentar uma prazerosa travessia de lancha pelo Rio da Integração Nacional, numa daquelas viagens em que a gente torce para que não termine tão cedo.

Chagas, morador da Ilha, foi o solícito timoneiro. Apesar de não ter nascido lá, ele já se mostra uma referência importante na tradição oral. “Eles [os antigos moradores da Ilha] acreditam que tenha sido trazida pelos barqueiros no tempo das grandes embarcações”, afirma ele, fazendo referência à origem do Samba de Véio.

E assim, no balanço gostoso das águas franciscanas, fui sendo apresentado a um marco da resistência cultural na região. Desembarquei num cenário deslumbrante, bem no meio do Velho Chico, onde em determinadas noites do ano irradia o batuque de um povo que há tempos imemoriais não se cansa de festejar a vida.

“Quando eu era criança, papai tomava conta do Samba de Véio. Meia-noite o pessoal saía de porta em porta, acordavam os moradores da Ilha de surpresa e de manhã cedo comiam um bode assado. Quando o Samba terminava, todo mundo ia rapar mandioca”. Eis a primeira lembrança que a memória de Conceição consegue acolher, em seus 45 anos de vida.

Uma vida pacata e tranqüila, que contrasta com o ritmo frenético da dança. Todo o ritual se inicia com a formação de uma roda, ao som dos cantos (com voz solo e em coro), palmas, pandeiros, triângulos e, como principal instrumento de percussão e um dos elementos de identidade, tamboretes feitos de couro de bode, que durante o dia têm a função primordial de ser assento.

Quem vai para o meio da roda sempre improvisa o sapateado, contagiando as pessoas em redor. O bamboleio sereno do corpo, marcado por um pequeno movimento dos pés, da cabeça e dos braços, acompanha o ritmo da música. E, de repente, parece que a noite não tem fim...

Quando os movimentos de quem ocupa o centro da roda vão se extenuando, entre os dez e vinte segundos de dança, a pessoa é substituída por outra através de um convite curioso: a umbigada. Na roda do samba não existe platéia. Portanto, não se surpreenda se seu umbigo encontrar o umbigo de alguém. A única saída é cair no samba...

“Aqui, quando vai nascendo já vai aprendendo a dançar. Eu entrei com 10 anos porque, naquele tempo, nossos pais não levavam a gente pra lugar nenhum. Eles saíam e deixavam a gente preso em casa. Com dez anos, eu só saía porque era Samba de Véio. Se fosse um baile, os pais não deixavam. Mas os meninos de hoje... Todos são sambistas”. Afirma dona Das Dores, que nasceu há 72 anos no Porto da Cruz, onde se praticava o Samba.

“Agora é que acabou tudo, porque os mais velhos morreram. Os mais novos não querem saber de roda, só de sala”, afirma ela com certa frustração. Casada com um ilhéu, ela chegou ao Massangano em 1954: “Em tanto lugar que a gente tem andado. De Salvador pra cá e de Recife pra cá, não sei pra onde a gente ainda não sambou. Quando o Samba daqui começou a viajar eu ainda era nova. Se fosse andar onde eles pedem pra andar, a gente não quietava nem aqui dentro da ilha. É porque o povo daqui da ilha também trabalha...”.

E como trabalha... As “firmas”, como os moradores costumam chamar os projetos de irrigação próximos à ilha, empregam boa parte de seus 1.200 habitantes no plantio e colheita das meninas dos olhos sertanejos: as mangas e uvas. O suor dos ilhéus são grandes responsáveis pelo estatuto de maiores produtores de manga e uva do país ao Pólo Agroindustrial de Petrolina - Juazeiro.

Mas há quem plante hortaliças para vender na feira, trabalhando diariamente em sua própria roça, ou quem, como Conceição, saia aos domingos e feriados para vender acarajé na Ilha do Rodeadouro, a prima rica da Ilha do Massangano, muito mais pela fama do que pela beleza. Mas o certo é que o pessoal trabalha sim dona Das Dores... E nem todos têm habilidade de levantar poeira nas noites de Samba.

Que o diga dona Terezinha. Há quase 40 anos acompanhando os batuques eletrizantes dos instrumentos percussivos, ela poucas vezes se aventurou a sapatear. Prefere ficar nos bastidores, organizando o movimento, orientando o carnaval. Tarefa cansativa também. Afinal de contas, o Samba de Véio da Ilha do Massangano é uma das manifestações populares mais requisitadas do Vale do São Francisco. Quando o pessoal ouve dizer “O Samba de Véio vai” o que é que acontece mesmo dona Das Dores?

“Valei-me meu Deus do Céu, renova o pessoal! Às vezes a gente chega tarde nos lugares. Aí muita gente já está de saída, quando ouve dizer: ‘Menina, é o Samba de Véio que vai entrando... ’. ‘Oxe! Vou voltar... ’ Aí volta. Ano passado, os trens já estavam no ônibus para ir embora quando um pessoal de longe chegou dizendo: ‘Nós viemos pra ver o Samba de Véio ao vivo’. Ó. Foi obrigado a botar as trochas abaixo e sambar para esse pessoal até umas horas. Vinha um ônibus de gente. Ninguém sabe nem de onde era. O Samba é bonito. Ainda que deixe de sambar por fora, aqui não pode deixar não. É tradição dos velhos. Dos mais velhos que morreram”.

Dona Terezinha, que viu a violência aumentar na Ilha no rastro de algumas benesses, como abastecimento de água, energia, alvenaria, escola, telefone, igreja, posto de saúde etc., concorda com dona Das Dores: “Não vai acabar nunca, porque é tradição. Quando os mais velhos deixarem de dançar, os mais novos assumem”.

E assim a Ilha do Massangano segue seu curso natural... Como marca do encontro de manifestações culturais, no mês de janeiro o Reisado se combina com o Samba de Véio. De uma ponta à outra da Ilha, os habitantes saem cantando o tradicional repertório da Festa de Reis pedindo que se abra a porta. Quando esta é aberta, o Samba de Véio entra vibrante, na agilidade dos passos centenários de seus intrépidos sambistas.

“É coisa bonita que eu acho/ A mamona madura no cacho/ Tô com o dinheiro no bolso/ Eu já tô com a peneira no braço/ A mamona já deu baixa/ Como é que a pobreza passa? / Segure o preço da mamona lavrador/ Segure o preço da mamona lavrador”. As letras dos cantos que embalam o Samba de Véio versam sobre o cotidiano dos moradores da Ilha. Embora as estrofes das canções não variem, há permissão para o improviso. Não raro, para recuperar o fôlego, uma garrafa de cachaça é passada de mão em mão e, quando equilibrada na habilidosa cabeça de um dos sambistas, vira a atração da noite.

O certo é que, com o passar das águas, ninguém sabe quem foi o homem (ou mulher) que aprontou a canoa, na terceira margem do Rio São Francisco. Dona Das Dores explica o porquê: “Fique você sabendo que não tem quem te conte sobre esse Samba de Véio do começo. Sabe por quê? Quem morava aqui do começo não existe mais. Já se foi tudo. Essa ilha aqui é velha. Uns sabem, outros não sabem: Era mata de índio brabo”.

Aí já é outra história...

compartilhe

imagens clique para ampliar

A entrada da Ilha zoom
A entrada da Ilha
Chagas zoom
Chagas
Conceição zoom
Conceição
Terezinha zoom
Terezinha
Das Dores zoom
Das Dores
Vidas cercadas das águas do Velho Chico zoom
Vidas cercadas das águas do Velho Chico

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Nova jornada para o Overmundo

O poema de Murilo Mendes que inspirou o batismo do Overmundo ecoa o "grito eletrônico" de um “cavaleiro do mundo”, que “anda, voa, está em... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados