O Segredo de Joe Gould

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Chico Ciccone · Goiânia, GO
12/12/2006 · 95 · 2
 

Uma das principais virtudes de Joseph Mitchell, considerado um dos maiores expoentes do Jornalismo Literário, é a fluência dos seus textos. Notório perfeccionista e muito cuidadoso com as palavras, o autor é capaz de dar leveza ao que escreve e proporcionar horas seguidas de leitura de suas obras, sem que isso seja uma tarefa cansativa. O Segredo de Joe Gould é um exemplo típico dessa valiosa característica de Mitchell, um livro do tipo que as pessoas costumam dizer que lêem em uma única “sentada”, apesar preencher 138 páginas.

Mas a fluência textual do escritor não é o único fator que faz com que o livro possa ser lido de uma vez só, a personalidade extremamente instigante do protagonista é tão responsável pela façanha, quanto as habilidades literárias de Mitchell. O perfil irreverente, por vezes cínico e sarcástico, do boêmio de Nova York consegue despertar o interesse do leitor, que se sente mais próximo de Joe Gould a cada página virada. Essa intimidade entre leitor e personagem é fruto do exímio trabalho de apuração do jornalista, que conviveu vários anos com Gould até concluir os dois artigos que compõem o livro.

“O Professor Gaivota”, escrito em 1942, e “O Segredo de Joe Gould”, de 1964, são os dois perfis do boêmio, escritos por Mitchell que juntos dão unidade à obra. Apesar de que a princípio o segundo possa parecer uma reiteração aprofundada do primeiro, aos poucos é possível entender a intenção do autor de juntar os dois artigos em um único volume. Ao término da leitura, depois da revelação do segredo, não resta mais hesitações acerca de como a união dos textos é imprescindível à coesão e à compreensão plena do livro.

Outro êxito da compilação são as pertinentes digressões do autor que revelam partes de sua própria vida e fatos interessantes do processo de elaboração da obra. Alguns trechos metalingüísticos interrompem momentaneamente a descrição das peripécias de Gould e colaboram tanto para a que o texto não se torne cansativo, como para aumentar o interesse do leitor pelo protagonista. Em certos momentos da narrativa, Mitchell parece ser capaz de transferir ao texto suas aflições, sentimentos e reações em relação ao boêmio de vida desregrada.

Perfil de Gould – Na maior parte do livro, Joseph Mitchell se dedica a narrar e descrever a biografia, as idiossincrasias e as irreverências de Joseph Ferdinand Gould, que indubitavelmente representam o ponto alto da obra. Descendente de tradicionais famílias americanas, Joe desiste de se dedicar a um ofício depois que se graduou em Harvard e prefere ser um boêmio de Nova York, que usa roupas poídas, raramente tem mais de um dólar no bolso, vive às custas de favores de amigos e fuma guimbas de cigarro apanhadas no chão das ruas.

No decorrer do texto, o personagem se mostra carente e revela imensa necessidade de chamar atenção. Para isso, não se cansa de enumerar suas qualidades, das quais a que mais gosta de exaltar é a capacidade de entender as gaivotas, já que segundo ele, passou bastante tempo as observando. Nas festas que freqüenta, quase sempre sem ser convidado, Gould não perde a oportunidade de expressar os grunhidos e movimentos típicos que aprendeu na companhia das tais aves.

Apesar de todas as essas excentricidades, o maior atrativo de Joe Gould é o livro que ele escreve desde o princípio de sua boemia, ao qual ele se refere como “A história oral de nosso tempo”. Segundo o protagonista, o livro é o maior já escrito no mundo, compostos de alguns capítulos de ensaios sobre seus devaneios e outros de transcrição de conversas ouvidas por ele, durante suas perambulações nas ruas. Para Gould, o livro representa o seu maior tesouro e o meio pelo qual vai escrever o seu nome na posteridade e ser considerado um grande historiador dos tempos modernos.

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lili cury
 

esse seu texto ta ótimo.
deu vontade de ler o livro

lili cury · Goiânia, GO 10/12/2006 12:18
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Fábio Fernandes
 

Sem querer ser chato, Chico, o objetivo do Overmundo é falar de produção brasileira. Vale até mesmo um autor brasileiro falando de temas estrangeiros - mas não é o caso desse livro sobre Joé Gould, que é muito bom, mas não se encaixa no perfil do que todos nós estamos fazendo por aqui.
Abraço!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 12/12/2006 09:23
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