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O segredo de Nossa Senhora de Fátima

Ramon Cavalcante
Quinze pessoas em três metros quadrados.

Uma hora da manhã. O pau-de-arara roda a cerca de 80 km/h na CE-020, saindo de Canindé, rumo a Fortaleza, levando na carroceria mais ou menos três mil quilos de imagens de santos e nossas senhoras em gesso e 15 pessoas apertadas em um espaço que não chega a medir 3m². Nessa madrugada, a estrada é um tapete preto iluminado por uma banda de lua no céu e pelos faróis dos caminhões que cruzam o Ceará. Enquanto a maioria dorme, talvez depois de um resmungo que lamentou o fim de mais um domingo, a vinda de mais uma segunda-feira; outros, em grande parte senhoras de Fortaleza, dormem ansiosos para a chegada da manhã de mais um dia 13, agora de novembro. Quando amanhecer, elas se vestirão de branco e rumarão para a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, na Av. 13 de Maio, com um terço na mão, cheios de fé, a rezar.

A estrada é o caminho que leva peregrinos de Fortaleza a Canindé, quando acontecem as romarias, em outubro, a São Francisco das Chagas, padroeiro da cidade, segundo maior destino de romeiros no estado, perdendo apenas para Juazeiro do Norte de Padre Cícero. Mas, uma vez por mês, a peregrinação inverte o destino, ao invés de romeiros a caminho de Canindé, caminhões, carregados de imagens em gesso e vendedores, atravessam os 108 km que distanciam as duas cidades e seguem para a capital. É “a treze”, como chamam os vendedores. Um dia inteiro de missas em frente a Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Bastião dorme torno, encolhido, em um dos cantos da carroceria do pau-de-arara. A cabeça cai sobre o ombro esquerdo. Antes, tinha dito: “Não é bom dormir na viagem que dá preguiça”. Mas agora, enquanto o caminhão ganha o asfalto, descansa um pouco. Quando chegar, descarregará a mercadoria e passará mais de doze horas em pé, vendendo-a a devotos, em sua maioria, de Nossa Senhora de Fátima.

O clima gaiato do começo da viagem, com um celular – garrafa de plástico com meio litro de cana – passando de mão em mão, cigarros e muitas piadas, silencia depois da primeira meia hora de estrada. Apertadas, em um engodo de pernas, as pessoas dormem no que restou de espaço na carroceria do caminhão, que está quase todo tomado pelos caixotes de madeira com imagens enroladas em jornais.

Nos últimos dias, o trabalho foi duro para todos que estão ali, mas provavelmente poucos trabalharam tanto quanto Bastião. Na “fábrica” de imagens, em sua casa, onde mais duas irmãs e um irmão trabalham, ele foi quem encarou sozinho as etapas de fundição e lixamento. A primeira precisa da força de seus músculos, quando roda com as mãos as fôrmas das imagens com o gesso dentro. Dura duas semanas. A segunda, o trabalho de lixar as imagens, mergulha-o numa nuvem de pó branco, que faz sua irmã Dora sentir pena. Ela não trabalha nisso como o resto da família justamente por não gostar de vê-lo sofrendo. Márcia, uma das irmãs que mora com Bastião, se concentra na etapa da pintura das imagens e acabamento, até a emplastificação. Mesmo nessas etapas, Bastião trabalha intensamente.

Ele tem um cavanhaque ralo, uma fala seca, sem muitas palavras. Beira os 30 anos. “Já trabalhei de tudo” e começa a listar as mercadorias, desde os cordões e pulseiras quando rodava São Luiz, no Maranhão, com a outra irmã Cícera, como hippies prematuros, de mais ou menos 10 anos, até as imagens religiosas de hoje, serviço no qual está há quatro anos. “Só não fui ladrão”, diz com o típico orgulho de um trabalhador.

A casa de Márcia e Bastião, na véspera da “treze”, vira realmente uma fábrica. Quando se chega, se vêem imagens amontoadas, inacabadas, pelos cômodos. Além dos dois, trabalham a irmã Cícera, que começou tudo há seis anos, Zé, outro irmão de 19 anos, e o Antônio, Toim, amigo que, de tanto chegar para olhar e dar uma ajudinha, ficou trabalhando. A renda da maioria deles vem toda das vendas na treze.

Na linha de produção, as imagens recebem a pintura na cozinha e nos corredores. Depois, precisam ter a poeira batida com um pano, até entrarem nos quartos para serem emplastificadas sobre as camas.

Um exército de santos e santas enfileirados, chamados intimimamente pelo primeiro nome na hora da produção - Fátima, Aparecida, Graça, Expedito -, vai se juntando na noite do dia 12. Assim como naquela casa, em outras tantas de Canindé o trabalho está apertando, nos acabamentos finais. A cidade tem boa parte da economia baseada no comércio e turismo religiosos. No entorno da basílica, existem várias lojas de imagens e outras miudezas religiosas, além de ambulantes e fotógrafos, que ainda tiram fotos em método lambe-lambe sobre jumentos artificiais em cenários religiosos multicoloridos.

As imagens alvas, com detalhes dourados, contrastam com as peles morenas - que brilham de suor sob a luz amarela - daqueles que as produzem. Como fundo musical, Legião Urbana, Aviões do Forró ou Ivete Sangalo. Por que não tem imagens da nossa cor, Bastião? “Se fosse pelo meu gosto, era da minha cor mesmo, porque não existe gente dessa cor. As imagens que vão pra Bahia, tudo é puxado pra nossa cor”. Apesar de gostar mais da Nossa Senhora de Fátima, fica pensando em qual das Nossas Senhoras é a verdadeira mãe de Jesus.

Esses pedaços de gesso que os sustentam se transmutam com o significado que cada um dá. “Você observa a imagem, imagina e acredita psicologicamente. Um pedaço de gesso não faz milagre, o que vale é a fé”, explica Cícera, enquanto embala as imagens. Eu chafurdo mais na teoria. Ela responde: “Eu acho que fizeram a imagem pra definir o que ela poderia ter sido”. Cícera conta que Nossa Senhora Aparecida é pretinha, porque, quando foi achada, levaram-na para uma barraca que pegou fogo. Já Santo Expedito, ela não tem certeza, mas acha que ele era africano.

Cícera tem 27 anos. Na ordem etária, vem logo depois de Bastião. Foi ela quem começou com o serviço de fazer imagens há seis anos. Um homem, que alugou metade da casa em que morava, fabricava. Ficou olhando, até que quando ele foi embora, começou a fazer. “Eu sempre gostei de trabalhar, mas toda vida eu trabalhava no que era dos outros, então agora eu gosto porque é uma coisa que eu aprendi, eu sei fazer, então eu dô valor ao que eu faço, porque é feita por a gente, uma coisa minuciosa”. Ela não perde o ritmo do trabalho enquanto fala, rápida, consegue perceber que uma santa está caolha, antes de emplastificá-la, mesmo com toda pressa.

O pau-de-arara chega a Fortaleza, sem muitos problemas, apenas uma parada para uma mijada e outra para ajeitar a lona que cobria parte da mercadoria. Quando estavam carregando o caminhão, uma coruja cantou, sinal de azar. João se benzeu. “Caminhoneiro é bicho perseguido”, diz o motorista na profissão há 20 anos.

No mês passado, não era o João quer iria trazer o pessoal. Resultado: o caminhão não veio. Esperaram horas até que descobriram que o motorista tinha achado um serviço mais rentável: vender gelo. Passaram a noite rodando Canindé atrás de outro pau-de-arara. Conseguiram, mas chegaram em Fortaleza às 12h do dia 13, quando boa parte do movimento tinha ido com a manhã, mesmo assim conseguiram vender bem e quando voltaram - depois de dias trabalhando nas imagens e vendendo-as em Fortaleza, além do problema com o pau-de-arara – alguns ainda foram montar a banca em Canindé. Era o último dia da festa de São Francisco das Chagas.

Hoje, a chegada foi às três horas da madrugada. Quase todas as barracas e bancas já estão montadas. As da praça em frente à igreja, localizadas em local privilegiado, estão cobertas por lona preta. Lá dentro, alguns vendedores dormem à espera da primeira missa às seis horas da manhã. Os vendedores em bancas ou com as imagens organizadas em carrinhos de mão tomam quase todas as calçadas próxima à igreja. Só não ficam na calçada dela, por ser proibido, já que a própria igreja também possui uma lojinha para a venda de artigos religiosos, com preços mais salgados. Os preços dos vendedores de Canindé são baixos. Uma imagem de 60cm custa em média R$8,00. A concorrência é grande.

Em pouco tempo, começará a primeira missa às 6h, mais uma às 7h, outra às 8h, até às 20h. O trânsito se transformará. Os carros ficarão mais lentos e muitos se atrasarão. Para quem estiver de ônibus, o cenário será ainda pior. Os ônibus lotarão na medida em que se esvaziam. E as senhoras de branco chegarão, com um terço na mão, cheias de fé, a rezar. Na volta, trarão nos braços imagens de santas ou outras miudezas religiosas.

Quem passou nesse dia pela Av. 13 de Maio, uma das mais movimentadas da classe média de Fortaleza, nem imagina a romaria silenciosa que se deu durante a madrugada.

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