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O Sesc Nosso de Cada Dia

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Ricardo Fela · Sorocaba, SP
8/3/2006 · 123 · 3
 

Eu tinha 20 anos de idade quando entrei pela primeira vez em um Sesc (Serviço Social do Comércio). Tinha acabado de chegar a Bauru para fazer faculdade de jornalismo na Unesp. Morava até então em Cotia, cidade que se confunde com a própria periferia de São Paulo. Estava saindo da aula, lá pelas 22h, e encontrei um grupos de amigos recém-conhecidos dizendo que Zé Celso Martinez faria um ensaio aberto de Hamlet. Eu, que praticamente era um paulistano e vivi tanto tempo na maior capital da América Latina, nunca tinha visto Zé Celso de perto. Ouvia falar, mas não sabia exatamente o que ele fazia, quem era.

O público ficou durante quase seis horas acompanhando o ensaio. Aquela experiência foi para mim uma das mais esclarecedoras (e estarrecedoras) do que era acesso à cultura e à informação e do quanto o lugar onde você está não é o que importa, mas sim como você lida com ele. Foi ali que percebi o quanto estar na Capital ou no Interior não fazia tanta diferença para a formação cultural, mas sim as condições em que você está nesse ou naquele lugar.

Afinal, como um jovem de 20 anos saído da capital de São Paulo, que oferece "tantas opções e vantagens", poderia imaginar que precisaria viajar quase quatrocentos quilômetros Estado adentro para conhecer o teatro de Zé Celso, que ironicamente quase sempre se deu na Capital? Um motivo foi crucial: a apresentação, que em São Paulo custaria um preço nada leve, em Bauru era de graça! Eis aí uma descoberta tardia (mas em tempo): o acesso à cultura e às artes proporcionado pelo Sesc São Paulo.

Apesar das diversas unidades existentes também na Capital, até hoje, meus amigos que viveram a vida toda em São Paulo não se tornaram freqüentadores assíduos como eu e meus amigos que moram no Interior (ou viveram no Interior e hoje moram em São Paulo). A explicação para isso, ao meu ver, é simples.

A oferta caótica de opções culturais na Capital, ainda que não tão ace$$íveis, muitas vezes acaba ofuscando a programação tão rica e mais ace$$ível do Sesc.

Já no Interior, o Sesc é, para quem gosta de arte e cultura, a salvação da lavoura, o que nos torna associados quase dependentes da entidade. A falta de teatros, cinemas, casas de espetáculos na maioria das cidades de pequeno e médio porte é freqüentemente suprida por eventos no Sesc, nas cidades onde está instalado.

E não se trata de salvação apenas para o público, na condição de assistente passivo. O Sesc promove cursos, seminários, oficinas e workshops das mais diversas áreas do conhecimento a preços baixos, sempre abertos à comunidade. Artistas e produtores locais também têm espaço garantido para mostrar seu trabalho.

Foi assim que conheci artistas e grupos das mais diferentes áreas, como Antunes Filho, Hermeto Pascoal, Tom Zé, Quasar, Sganzerla, Nação Zumbi, Antônio Nóbrega e muitos outros. Sempre, sempre, a preços populares.

Participei de seminários internacionais, fui parceiro em eventos e toquei em várias unidades/cidades (Bauru, Taubaté, São Carlos, Araraquara, São José do Rio Preto, Ribeirão Preto, Campinas e até São Paulo, entre outras), sempre recebendo tratamento de "artista" de primeira linha (apesar de estar bem longe disso), com minha banda Mercado de Peixe.

Por isso, ainda me espanto quando chego a outro Estado, pego os jornais e vejo (às vezes, nem vejo) uma programação bem mais discreta do Sesc. Amigos na Bahia e Rio de Janeiro já me olharam com cara de dúvida quando perguntei: "Não tem nada rolando no Sesc?".

Não sei se é assim em todos os Estados (mesmo porque não conheço todos). Mas ter um Sesc atuante como o Sesc São Paulo, especialmente para quem mora no interior, é quase um privilégio.

A atuação do Sesc, aliás, muitas vezes supre a lacuna deixada pelo poder público, que pouco tem feito pela cultura no interior paulista, o que levanta uma discussão mais profunda. Mesmo assim, tomara que, cada vez mais, sua atuação cultural se amplie, inclusive para outras regiões do País. Nem que seja para continuar sendo a salvação da lavoura.

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analuizadapenha
 

sou do SESC, nada melhor falar quando os ventos estão a favor, mas depois de duas décadas de trabalho reconheço que a repercussão na vida de cada´um é imensuravel. Legal saber. Faz bem para todos que acreditam no trabalho.

analuizadapenha · Natal, RN 15/3/2006 05:29
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Rodolfo Arruda
 

Rapaz, extremamente lúcido e esclarecedor este seu post sobre o SESC. Concordo plenamente com as suas ponderações sobre essas questões que envolvem capital e interior e sua argumentação que desmistifica essa cultura atrasada que pensa que apenas na capital é possível ter acesso a boa produção artística. De fato, as pessoas poderiam contribuir mais para que iniciativas como essa do SESC fossem ampliadas e que outros projetos e outras cidades fossem contemplados. Neste sentido, considero que seu post já é uma ótima contribuição.

Rodolfo Arruda · Marília, SP 27/12/2006 02:18
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Ricardo Fela
 

Legal ver que um texto aqui no Overmundo possa ser consultado um bom tempo depois de ter sido escrito e que, ainda assim, signifique algo para as pessoas. Fico feliz em poder compatilhar idéias e opiniões de uma forma tão rica. Obrigado pelos comentários.

Ricardo Fela · Sorocaba, SP 27/12/2006 19:48
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