O silêncio distorcido

Bruno Maia
O silêncio que ninguém ouviu
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Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ
5/10/2006 · 145 · 7
 

Arto Lindsay tocou quarta-feira passada no Rio. Pra quem tem alguma curiosidade sobre o trabalho dele, imperdível. Numa aconchegante Casa da Gávea, cerca de 60 pessoas lotaram as cadeiras para vê-lo.

No palco, apenas um pedestal com microfone, uma guitarra azul, dois pedais e um amplificador. Quando ele entrou em cena com aquele rosto lânguido, meio Woody Allen, meio Antonio Adolfo, disse boa noite, vestiu a guitarra e começou a distorcer o silêncio que enfeitava com a sua voz. A viagem de Arto Lindsay é desconcertante. A mão acerta a corda, que não acerta o som, seco por sua outra mão. A melodia da voz vem despida da harmonia e eu não me entendo bem. Os ruídos sempre me incomodaram. Eu não gosto de Sonic Youth. A mão direita bossanoveia, eu me desconcerto. Cadê a harmonia que estava ali? Eu continuo fazendo as mesmas observações, as mesmas questões. Sinto o silêncio do lugar. As inserções do trovão azul apitam, sobram aos ouvidos. Entortam. Tem gente rindo. Eu levo a sério. Não sei bem o porquê, mas levo.

O repertório passa por canções que talvez sejam do blues americano. Não conheço, mas pressinto. Al Green estava lá, salvo engano. O português claro, carregado de sotaque nordestino e novaiorquino, é outra materialização da estética que junta as sobras e distorções da bigapple com os silêncios de um lugar remoto qualquer. Conheço as (poucas) canções em português. Não são dele. Quando eu chego em casa nada me consola é o que ele começa a silabar com seus entrecortes agudos e baixos abafados. O som não é limpo jamais, a não ser pelo excesso de limpidez de sua voz. Meio baixinho, meio João Gilberto. Mas por vezes o grito rompe, geme, uiva. O artista se retorce e o som vem. Jackson Pollock.

A força do afoxé “O mais belo dos belos” é lapidada, não bruta. A melodia dança em labirintos desacompanhada do surdo, da percussão, e se revela surpreendentemente sutil. Não conheço seu inglês, me encontro no nosso português. O tempo verbal é infinito, randômico e contínuo. Ainda ecoa por aqui. Me acho de novo quando ele evoca o Mar da Gávea, canção de Lucas Santanna, das mais belas dos anos 90, gravada por Arto no disco Mundo Civilizado (1996). Maneiras. Se ele quer fumar, fuma, se quiser beber, bebe gemendo. Ele tem fé no apego e não chora de barriga cheia. Não chora. Todos riem. Cadê a piada? Levei a sério demais a idéia de descontrução? Talvez.

Fui falar com ele. Talvez esclarecesse algumas questões que minha percepção não resolveu sozinha.

*Quatro perguntas para Arto Lindsay.

eu: Pra que o silêncio?
Arto Lindsay: Olha... (silêncio). Eu uso muito o silêncio na minha música.. É... a música é isso, né, a relação dos sons entre si, a relação do som com o silêncio. Eu uso muito, é... Fundamental o silêncio.

eu: E a distorção?
AL: A distorção também é fundamental pra mim. Você vai embora??? [[ Pergunta para Lucas Santanna, que apareceu na porta do camarim se despedindo... :: Eles acertam um chope pra daqui a pouco.]]. E então...
eu: Pra que a distorção?
AL: A distorção... não sei... Faz parte... entendeu? (silêncio) É... ssss... é... O interessante da guitarra, pra mim, pessoalmente, sempre foi o som e o som da guitarra começa com a distorção, começa com, vamos dizer, uma falha na intenção do negócio.

eu: Pra que a voz?
AL: (silêncio) Aí tá muito profundo... muito existencialista.
eu: Você acha que tá muito existencialista?
AL: Pra que a voz? Sei lá. Pra cantar. Porque a gente fala. Porque a gente geme. Não sei... Porque a gente chora. Sei lá.

eu: E as letras?
AL: (...)
eu: As letras que você escolhe...
AL: As letras... olha, eu faço minhas letras...
eu (interrompendo): Por exemplo, as letras que você escolheu cantar aqui hoje.
AL: Ah, sim, as músicas de outras pessoas?
eu: É, e eventualmente as suas que você gravou... Pra que a letra na música?
AL: Porque eu acho que... ... ... É até uma boa pergunta. ... Não sei. A a a.... A música e a palavra se atraem e eu não pude resistir à tentação. Eu não vou ficar uivando que nem um macaco também. Ou pelo menos não somente fazendo isso. ...

(em off)

eu: Era isso. Foi mal aí se pareceu muito existencialista... (risos). Era só uma tentativa de desconstrução...
AL: Não, imagina. Foi ótimo... É isso aí.

*Uma pergunta para mim mesmo (e para quem mais quiser responder)

Eu levei a sério demais?



Este texto foi originalmente publicado no www.sobremusica.com.br

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ronaldo lemos
 

Nao levou a sério demais não, acho que o tom tinha de ser esse mesmo, tanto das respostas quanto das perguntas. Quem deu início à no wave, que está na rua até hoje em toda parte, tem mesmo de se expressar de modo eloqûente através da distorção.

Leia de novo a entrevista e me diz se ela também não está cheia de ruído. Tal como no show, o que mais importa na entrevista não são nem as palavras, mas o indefinido no meio delas.

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 3/10/2006 00:10
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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Sim, Ronaldo. Eu sei. Esse texto é todo cheio de trocadilhos e gracejos internos e esse que você citou é um deles, heheh... ainda tem outros, quem quiser que se habilite, hahah! Dica: a última tag que eu coloquei. hahahha!
abção!

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 3/10/2006 01:10
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Ana Cullen
 

Gostei muito do texto, não conhecia o trabalho dele, vou buscar agora... adoro essas experiências, experimentações com a música, ele falar que a música é a relação do som com o silêncio... perfeito!
Falando dos gracejos, achei muito bom: "Não conheço seu inglês, me encontro no nosso português. O tempo verbal é infinito, randômico e contínuo."
Abraços!

Ana Cullen · Brasília, DF 4/1/2007 13:43
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Erika Morais
 

Também não acho que levou a sério demais. A música do Lindsay foge do óbvio e requer atenção. Vi um show dele em Recife uma vez, acho que no Rec Beat de 2001, 2002 talvez... muita gente em volta, não deu pra captar tantas coisas, gostaria muito de ver um show do AL em um teatro, espero que role por aqui (SP) em breve.
Gostei muito do texto, sempre gosto dos seus textos.
E gosto do Sonic Youth também :)
abraços.

Erika Morais · São Paulo, SP 5/1/2007 14:45
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Roberto Maxwell
 

Pois eh, o Lindsay eh o cara... Um grande artista! Parabens por ter lembrado dele. A entrevista... Bem, claro que foi legal. Um exercicio. Mas ainda ha muito a ser "dito".

Roberto Maxwell · Japão , WW 11/1/2007 11:19
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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Obrigado a todos pelos elogios...
Legal ver que esse texto ressurgiu do limbo do Overmundo... Na época em que foi publicado, eu esperava que fosse ter uma aceitação e interesse maior. Aindabem que não, pois me proporcionou essa surpresa. E Maxwell, há realmente muito a ser dito mesmo! Vc tem toda razão! :-) Começa aí.... abs a todos!
BM

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 11/1/2007 11:29
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Roberto Maxwell
 

Pois eh, nao eh? Na verdade, o Lindsay esta na raiz de tanta coisa que se faz na musica pop hoje e eh completamente ignorado no Brasil. Eu, infelizmente, soh tenho os discos dele. Nao posso falar mais do que o que eu digo nessas linhas. Mas, vc que esta tao pertinho dele, depois desse momento de intimidade que vc teve com a musica dele, deve ter bem mais pra contar. Estamos no aguardo.

Roberto Maxwell · Japão , WW 11/1/2007 11:33
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