ideoque nec indocti nec rustici diu quaerunt unde incipiant
(É por isto que nem os incultos nem os camponeses precisam ficar, durante muito tempo, procurando por onde começar.)
Quintiliano, Inst.,X, 3, 16
Haveria uma angústia anterior à “angústia da influência”, a “angústia do silêncio”; de quem quer tomar a palavra não como um inculto, mas com cuidado e argúcia, com técnica e inspiração, com emoção e razão. Sem essa angústia, nem a questão sobre o “como” da fala se coloca e não haverá perigo em contribuir para mais conversa fiada. As vozes se sobrepõem sem cuidado e o dizer não pede ouvidos pequenos. A angústia do silêncio é maior que o medo de estar à sombra de outra voz; é o medo de não ter nenhuma palavra, de não ter nada a dizer quando for sua a hora de pronunciar, de expressar o seu desejo.
Talvez essa angústia tenha mais a ver com o sertão do que com o litoral, mais a ver com a favela do que com o asfalto, e, por isso mesmo, é comum e urgente. A angústia que tem quem precisar escrever diante do papel em branco se liga mais ao medo, ao peso de ter uma assinatura, de ser julgado por suas palavras, do que a qualquer pretensão de originalidade, de possuir uma fala superior capaz de colocar tudo o mais que se disse e se diz, como mera sombra. Aí, ter palavras para citar, ter qualquer palavra para romper esse instante, para construir uma marca, uma cicatriz, uma tatuagem de identidade, seria uma dádiva. Ainda que para dizer “sim” ou “é verdade”, ainda que para ouvir com honestidade, para aprender a ler e tomar a leitura como caminho de descoberta. Para aquele que questionar dizendo que tal “angústia do silêncio” se liga mais a retórica do que a literatura, confirmo a suspeita e lembro a definição desta última como retórica do silêncio.
A angústia da influência tem matriz norte-americana, num modo de ser que nasce em Emerson, é cantado por Whitman e tem sua melhor imagem na autodestrutiva caça de Moby Dick em Melville. Neste jogo individualista se inventa a democracia liberal e é ele mesmo que pode a destruir. Como os americanos do norte, só podemos nós pensar como utopia. Para isso, precisamos inventar outras canções e tentar perceber nossos próprios mitos, o que tomamos como um destino inefável e inevitável. Gilberto Mendonça Teles é quem ousou tentar traduzir esse silêncio com argúcia e cuidado em sua Saciologia Goiana, fazendo falar a “máquina do medo” que nos amaldiçoa com limites inevitáveis, com uma minoridade autoindulgente, com a celebração das correntes do próprio mito. Nesse jogo fez-se também mito, um Saci cheio de ardil e mandinga, num épico-lírico que é um clássico de nossos tempos, sendo indicado como bibliografia de concursos vestibulares, tema de estudos contínuos nas universidades, aumentando a densidade de um texto que o autor mantém aberto (já que a cada edição acrescenta novos poemas).
Depois de uma década da publicação de Álibis, eis que surge, sem alarde, um livro inédito de Gilberto Mendonça Teles (GMT), Linear G. Ora, se este Linear G tiver o mesmo destino de sua obra anterior, Álibis, se multiplicarão teses e interpretações de seus poemas, por isso mesmo, não me arrisco a fazer uma resenha como quem tenta definir uma obra, mas sim, como quem convida e tenta cultivar o interesse de um encontro. A literatura, e principalmente a poesia, tem o poder de causar em nós transformações, que o jogo de pedir e dar razões –ao qual estou condenado por vício de ofício- não é capaz de conseguir.
Destaco então algumas peculiaridades deste Linear G, a começar pelo título, que entrecruza, a princípio, duas referências. A primeira ao nome dado pelos estudiosos às primeiras formas de escrita da Grécia Arcaica, batizadas de linear A e linear B. Mas, e antes disso? É sempre possível perguntar por uma palavra anterior e primordial e é aí que entra a segunda referência: o G (Guê) da Terra, invocada pelas pitonisas na procura de inspiração para sua fala oracular. (Vale lembrar que recentemente se confirmou que o Oráculo de Delfos foi construído em cima de uma falha geológica, de onde sairiam gases com poder alucinógeno, responsáveis pelo transe e poder visionário de adivinhação das sacerdotisas).
Cruzando essas duas narrativas teríamos uma interpretação para o nome Linear G, que apontaria para uma palavra primordial e sublime, ou para o silêncio ideal da poesia pura (como acena o poema “A escrita”). Ora G também é a primeira letra do nome do poeta e de Goiás, seu estado natal. Por isso mesmo, é fácil inferir que um trabalho sobre a relação entre Saciologia Goiana e Linear G poderia gerar ricos resultados.
O livro se divide em três partes: As ucrônias,As eutopias e Árvore do Cerrado. Os dois primeiros títulos se enlaçam na idéia de Utopia, mas com diferenças importantes: o plural aponta para uma multiplicidade e não para a anulação do eu em favor de um ideal, elimina a tensão entre a descrição de um bom lugar (eutopos) e o devaneio em relação a um lugar inexistente (utopos) pela explícita escolha do primeiro. Ora, GMT é um poeta que pensa o sublime encarnado, por isso mesmo, não se perde em idealizações longínquas, pelo contrário, tenta traduzir o que é banal em poesia, como explicam as estrofes finais do poema “Inspiração”: “no corpo nu, soletrado/ letra a letra, som a som,/ como um sol enunciado/ na textura do entretom//para dar força e coragem,/ para quebrar o jejum,/ para fazer a dublagem/do melhor no mais comum”.
Na primeira parte do livro, As ucrônias, destaco a combinação da poesia pura com meditações sobre temas variados, como em “O sujeito”, que sintetiza em três estrofes de quatro versos a transformação da ideia de sujeito do iluminismo à pós-modernidade, onde este, enfim, “se sente livre e fragmentado/na confusão do baile funk”. Com alegria e inventividade em “Dez poemas gregos” GMT passeia pela mitologia grega, inventa uma assembleia dos poetas líricos arcaicos e nos brinda com uma seleção de momentos em que os poetas da Grécia antiga, pensaram o próprio canto, na medida em que a palavra falada dava lugar a escrita abrindo caminho para seu questionamento crítico (como no crucial dizer de Simônides (VI - V a.C.), “a pintura é uma poesia muda;/a poesia, uma pintura que fala”).
Em As eutopias, temos bons lugares, bons momentos que renderam poesia. Passeando também por temas diversos, vasculha a memória e o próprio tempo, com lugar tanto para o milésimo gol de Romário, quanto para os dólares na cueca; para reflexões sobre a morte e a vida e a coisicidade da coisa filosófica em geral.
Já os poemas de Árvore do Cerrado poderiam estar todos incluídos em Saciologia Goiana: é aí que as ucrônias e eutopias se juntam nos versos deste poeta. Agora a ironia do Saci está destilada, como dose dupla de alguma cachaça da região. Linear G ao mergulhar na origem do silêncio sublime reencontra Goiás, solo de onde brotam as memórias, mitos e interditos de GMT. Talvez se aprendermos com ele a fazer esse caminho, poderemos ligar a Grécia Antiga à nossa paisagem, assumindo nosso lugar como horizonte possível, afugentando a máquina do medo e a timidez do pensamento, plantando a semente e esperança otimista na invenção de um lugar bom de se viver. Se ainda pouco se falou sobre este Linear G é preciso registrar este calar eloquente como nós chama atenção o poeta em “Psiu!”: “Agora não há mais silêncio que conjugue/ nossos sentidos dilatados, enquanto só/ deixamos de falar, e não calamos”.
Fiquei curiosa e quero ler esse livro, como encontra-lo?
Gilberto é um dos grandes escritores brasileiros.
Boa pedida!
Oi Sinvaline, acho que é fácil encontrá-lo; vi aqui. Mas nnão resisto e te envio o link de um programa papopoético sobre a poesia de GMT, aqui. . Vale também a dica da canção "Inspiração", gravada por Ney Matogrosso e Pedro Luis e a Parede.
Marcos Carvalho Lopes · Jataí, GO 7/2/2011 16:40Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!